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Carmen Miranda, 105 anos da mais brasileira das cantoras

 Carmen Miranda e o Bando da Lua em Nova York (Show "Streets of Paris" ,1939)

 

A polêmica sobre o local de nascimento de Carlos Gardel (um francês criado em Montevidéu que viajou para a Argentina ou um uruguaio que aos "dois anos e meio nasceu em Buenos Aires") de certa forma também ocorreu com a mais brasileira das cantoras, Carmen Miranda, que, viva estivesse, estaria completando hoje, 09 de fevereiro, 105 anos.

Ruy Castro, na sua biografia de Carmen, conta como essa falsa polêmica sobre a nacionalidade portuguesa, alimentada por jornalistas como Orestes Barbosa, incomodou Carmen em alguns momentos de sua carreira.

Em 1930, a gravadora Victor, que tinha Carmen sob contrato, " encomendou a Randoval  Montenegro o samba "Eu gosto da minha terra", dias depois de Carmen ter traído a estratégia da gravadora de esconder sua origem portuguesa. 


Carmen fizera isso em uma entrevista a R. Magalhães Júnior para a revista Vida Doméstica, de julho de 1930, ao responder candidamente sobre se nascera "aqui mesmo, no Rio". Antes de Magalhães Júnior, a ninguém ocorrera fazer essa pergunta. 

"Aí uma coisa interessante", disse Carmen ao repórter. "Todos que me  conhecem pensam que sou brasileira, nascida no Rio. Como se vê, sou morena e tenho o verdadeiro tipo da brasileira. Mas sou filha de Portugal. Nasci em Marco de Canavezes e vim para o Brasil com um ano de idade (na verdade, menos). Mas meu coração é brasileiro e, se assim não fosse, eu não compreenderia tão bem a música desta maravilhosa e encantadora terra." 

Rogério Guimarães e os americanos da Victor leram aquilo e subiram pelas paredes. O Rio ainda era uma cidade profundamente portuguesa, mas, até por isso, certos setores, inclusive da imprensa, se dedicavam a uma amarga lusofobia. Uma confissão como aquela não contribuía em nada para firmar a posição de Carmen como a cantora mais brasileira que já existira. Daí a Victor ter pedido socorro ao pianista e compositor Randoval Montenegro, uma espécie de pau-para-toda- obra junto à gravadora. Montenegro, ex-colega de Noel Rosa na Faculdade Nacional de Medicina, produziu em dois tempos o ótimo "Eu gosto da minha terra", um  autêntico precursor do samba-exaltação, gravado por Carmen em agosto: 

 

Deste Brasil tão formoso

Eu filha sou, vivo feliz

Tenho orgulho da raça 

Da gente pura do meu país.

Sou brasileira, reparem

No meu olhar, que ele diz

E o meu sambar denuncia

Que eu filha sou deste país... 



e mais quatro estrofes de brasileirismos roxos, sobrando até para o foxtrote:

 

Que não se compara

Ao nosso samba

Que é coisa rara. 



Pau-para-toda-obra, mesmo: apenas dois meses antes, em junho, Carmen gravara um foxtrote, "De quem eu gosto", de quem? De Randoval Montenegro. Mas, como se descobriu, não havia motivo para alvoroço. O público não tomou conhecimento da origem portuguesa de Carmen nem se ofendeu quando, naquele mesmo mês de agosto, ela gravou dois tangos em espanhol - inéditos, escritos para ela por brasileiros, e um deles, "Muchachito de mi amor", composto também por Montenegro.

 

(...) Carmen se entristecia e se ofendia quando alguém lembrava, mesmo sem  querer, que ela nascera em outro país. Daí sua relação com o letrista e jornalista Orestes Barbosa ser tão complicada. Orestes, hidrofobamente antiportuguês, vivia se dedicando por escrito a "denunciar" sua  cidadania lusa. Fez isso em seu livro Samba, de 1933, e voltava à carga quase diariamente pelo jornal A Hora, em que escrevia. 

Para Carmen, aquilo era uma perseguição. Na Argentina, ninguém queria saber se Carlos Gardel era francês, uruguaio ou argentino. Gardel era francês, claro - nascido em Toulouse, na França, de pai e mãe franceses, e criado em Montevidéu -, mas era também o maior cantor argentino de todos os tempos, o tango encarnado, e ninguém em Buenos Aires se achava mais portenho que ele. Nos Estados Unidos, a mesma coisa com Al Jolson. E daí que Jolson tivesse nascido na Rússia (como aconteceu) ou na Lua, e não no Alabama? Ele era o cantor americano por excelência, o homem que dominava a Broadway, Hollywood e o coração de milhões de americanos. 

"Que diferença faz se esses putos nasceram em outro lugar?", dizia Carmen. "A culpa é da mãe deles, que estava no país errado ao parir." "

 

Vídeos:

1. "Eu gosto da Minha Terra" de Randoval Montenegro

2. "Disseram que eu voltei Americanizada" de Luiz Peixoto e Vicente Paiva

3. "Voltei pro Morro" de Luiz Peixoto e Vicente Paiva

4. "Disso é que eu gosto" de Luiz Peixoto e Vicente Paiva

5. "Diz que tem" de Vicente Paiva e Anibal Cruz

 

 

 

Fonte: Castro, Ruy, "Carmen, Uma biografia", p.63,64,122, Companhia das Letras: São Paulo, 2005.

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Amo Carmen Miranda. Só isto.

Amo Carmen Miranda. Só isto.

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Carmen e Zaíra de Oliveira!

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lucianohortencio

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nadja

O que eu não entendo é todo o

O que eu não entendo é todo o ostracismo dos americanos com a nossa CArmem, vou fazer 50 anos nunca vi ou ouvi um americano mencionar seu nome, algum documentário, algum filme falando sobre ela, absolutamente nada....Ganharam tanto com  sua imagem, mas a resposta foi o desprezo.

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Onkoto.C.Numvaeh

Very strange...

The first person I met when I arrived at the university, in order to set my scholarship up, asked me if I knew who was Carmen Miranda. He loved the movies he watched when he was a kid. And not long ago ... (I'am about your age).

Did you see the movie Radio Age, by Woody Allen?

 

[nao resisti e respondi em ingles mesmo.]

 

WhereIam.U.Dongo

 

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Motta Araujo

O que é impressionante é a

O que é impressionante é a ncessidade de falar mal dos EUA em qualquer assunto que apareça aqui.

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Motta Araujo

Nada a ver. Carmem foi bem

Nada a ver. Carmem foi bem lembrada nos tres excelentes filmes memoria da MGM "THAT´S ENTERTAINMENT I, II E III, tambem no filme A ERA DO RADIO, de Woody Allen, foi mais lembrada do que estrelas de musicais historicos como Eleanor Powell, June Allyson, Deanna Durbin, Judy Garland, Kathryn Grayson, Cyd Charise, Ann Miller.

Quem não registrou a memoria de Carmem Mirando em filmes foi o Brasil.

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