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A verdadeira história do "mensalão"

Do site Crônica do Golpe

 

O Governo Lula (2003–2010) corresponde ao período da história política brasileira que se inicia com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, em 1 de janeiro de 2003, em sua quarta tentativa para chegar ao cargo presidencial, após derrotar o candidato do PSDB e ex-ministro da Saúde José Serra, com 61,30% dos votos válidos, em segundo turno.  A eleição de Lula, que havia sido derrotado nos anos de 1989, 1994 e 1998, é marcada por ter sido a primeira na história brasileira de um ex-operário ao posto mais importante do país.


Em outubro de 2006, Lula se reelegeu para a presidência, derrotando o candidato do PSDB Geraldo Alckmin, sendo eleito no segundo turno com mais de 60% dos votos válidos contra 39,17% de seu adversário.


Conhecendo a História do país, estava claro, desde o primeiro momento,  que  mais uma vez  o Conservadorismo brasileiro e as forças reacionárias,  iriam agir  contra a escolha popular como sempre haviam feito na história política do país.


Mas havia uma dificuldade extra.  A ausência dos militares intervindo diretamente na política, como haviam feito desde a instalação da República,  era um fator novo em cena,  a partir da redemocratização no país.  Quais forças então seriam poderosas o bastante para criar um clima de impasse político que imobilizasse um governo popular  recém empossado e ensejasse um caldo de cultura que fizesse erguer   uma comoção da classe média (já que as camadas populares apoiavam maciçamente o novo presidente) ,  para um golpe institucional ou mesmo militar, se fossem bem sucedidos na criação desse clima ?


A resposta óbvia se encontrava nas páginas da História. Um neo udenismo que utilizasse as mesmas armas que o Lacerdismo usou : o uso da mídia politicamente engajada, instrumentalizada pela Direita oposicionista,  pelo empresariado paulista reacionário (temeroso da descentralização industrial) e pela manipulação de algumas seções regionais  de instituições  da sociedade civil.


Outra coisa que os conspiradores não contavam é que o país havia mudado. Mesmo nos bastiões do Conservadorismo era visíveis as fraturas. Não contavam  com o apoio da classe média e não existia um pólo irradiador de uma única posição ideológica. O Empresariado nacional havia visto com bons olhos a escolha do Vice-Presidente José de Alencar como fiador da manutenção das regras econômicas do Capital, percepção reforçada com a manutenção de Henrique Meirelles no Banco Central. E mesmo na economia capitalista mundial, a posse de Lula suscitou até maiores esperanças por um aggiornamento econômico-político que trouxesse e mantivesse a estabilidade nos planos econômico, político e social. Uma reedição modernizada e sulamericana do Pacto de Moncloa  após a debacle econômica e social dos anos FHC.

 

A Conspiração passa então à primeira fase de seu plano.  

 

Um pouco antes da campanha vitoriosa de Lula à Presidência, ainda em 2002, um conhecido bicheiro goiano,  Carlos Augusto Ramos , cujo apelido o tornará, nacional e internacionalmente, conhecido como Carlinhos Cachoeira, (Charlie Waterfall segundo o NY Times) grava secretamente um vídeo de uma suposta extorsão praticada pelo ex diretor da Loterj do Rio de Janeiro Waldomiro Diniz, com a suposta finalidade de arrecadar fundos para o Partido dos Trabalhadores e para o Partido Socialista Brasileiro. E nada mais. O guardião deste material, em tese  tão explosivo, simplesmente  o retém sem maiores consequências.  Qual era então o objetivo de guardar durante dois anos este vídeo secreto ? Tratava-se  sómente realmente de negócios da máfia dos bingos ? E se fosse este o caso porque os “empresários do zoo” não o divulgaram de imediato  já que ficaram a ver navios sem terem seus desejos atendidos  ? Como veremos depois, a ampla utilização de arapongagens estava também no horizonte mental dos conspiradores.  Gravações, vídeos, etc, destinavam-se não a produzir ou servirem de prova mas simplesmente fornecerem  uma sucessão de Relatórios Cohen para uso futuro.


Então, de repente,  esta gravação tão zelosamente guardada durante dois anos vêm à público ,  em 13 de Fevereiro de 2004, através da revista Época (veículo de mídia impressa das organizações Globo).  O que teria se passado para que esse material  viesse tão repentinamente à lume ? E quem teria entregue esse material ?   A resposta pode ser encontrada no timing político. Waldomiro Diniz havia se tornado assessor do Ministro José Dirceu. E não era um Ministério qualquer, era a Casa Civil da Presidência da República !   Os conspiradores esfregaram as mãos de contentamento.  Era tudo o que a   mídia oposicionista precisava para iniciar a sua ofensiva no sentido de  criar o contexto da comoção popular, fase inicial do conluio com a oposição política.  É o que faz a revista Época.  A intenção sempre fora de municiar esta oposição com reportagens que levassem à criação de qualquer CPI no Senado ou na Câmara, para encurralar e paralisar o governo Lula. Poder-se-ia dizer que se tratava de uma nova “banda de música da UDN” com PSDB, PFL (DEM) e PPS fazendo o mesmo papel.  Não se tratava de verificar fatos e responsabilidades.  Buscava-se a partir daí a criação de mais e mais ilações  que possibilitassem a manobra de cerco orquestrada. 

 

E foi o que se viu. Toda a mídia oposicionista atacou em uníssono, através de seus Editoriais, colunistas, âncoras, manipulação das informações, capas com manchetes  garrafais nas revistas semanais  e todo o tipo de artifício jornalístico, que contribuísse para levar  à paralisia do governo via Congresso. Tentava-se repetir  o mesmo esquema que paralisara o governo Collor na década de oitenta.  E na genêse deste movimento iremos encontrar o mesmo jornalista , Mino Pedrosa, ligado ao contraventor. O objetivo era claro. Uma vez que o governo Lula obtivera uma maioria governista, a tentativa era criar uma comoção de classe média que levasse o PMDB, que sustentava essa maioria, a deixar o governo, paralisando efetivamente a governabilidade consensual procurada pelo presidente Lula. O resultado seria o esperado impasse político. Afinal as eleições de 2006 já se deslumbravam no horizonte. Jamais a imprensa oposicionista levou em consideração que a suposta extorsão não tivera o dom de ajudar “Charlie Waterfall” em seus negócios, razão na qual Cachoeira enviou a fita ao então senador Antero Paes de Barros, que por vez enviou ao Ministério Público de Brasília, na qual os reporteres da revista Época conseguiram a cópia divulgando-a. Porém os seus depoimentos na CPI da Loterj e na CPI, não deixam isso claro. Segundo o Relatório Final da CPI “o que se pode concluir desses depoimentos é que o suposto  problema com o objeto da licitação não foi a razão para a desavença entre Carlos Cachoeira e Waldomiro Diniz, e, provavelmente, não foi a razão para a gravação da fita”. Qual foi então a razão para a gravação do vídeo ? Porém isso não importava mais.  No decorrer de 2005 é instalada a CPI que os conspiradores queriam.


O que começou com o objetivo de "investigar e apurar a utilização das casas de bingo para a prática de crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, bem como a relação dessas casas e das empresas concessionárias de apostas com o crime organizado" logo enveredou por outros caminhos. Sempre fora essa a  intenção. Os desdobramentos a fizeram ser conhecida como a “CPI do Fim do Mundo”.  Ela foi presidida pelo senador Efraim Morais e teve como relator o senador Garibaldi Alves Filho.


De acordo com a Carta Capital, “infelizmente os eleitores pouco souberam sobre a influência do Jogo do Bicho no Brasil. Os parlamentares apuraram a morte do prefeito Celso Daniel, as acusações do doleiro condenado Toninho da Barcelona, os dólares de Cuba , a mula-sem-cabeça e o Boitatá. Por isso o apelido CPI do Fim do Mundo”. Sem falar na imprudente decisão de encurralar o Ministro da Fazenda Antônio Palocci, imprudente porque neste ponto o setor financeiro e empresarial deu o aviso quase direto de que não aceitaria o risco da instabilidade econômica. Ele próprio já vira o que vinha acontecendo. Ficara claro o objetivo da Conspiração : emparedar o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores e criar a comoção na classe média.


Não tiveram sucesso. O país mudara. Mas os conspiradores  não se deram por vencido.

 

A segunda investida. A Conspiração dentro da Conspiração : Os tentáculos de Cachoeira reaparecem.

 

No dia 14 de maio de 2005, a revista Veja (a mesma dos dólares de Cuba) bombasticamente anuncia estar de posse de uma gravação de vídeo na qual Maurício Marinho, superintendente da Empresa Brasileira de Correios, solicitava e também recebia vantagem indevida para ilicitamente beneficiar um empresário. Este era na realidade o advogado curitibano Joel Santos Filho, contratado por 5 mil reais, pelo suposto  fornecedor dos Correios, o empresário brasiliense Arthur Washeck Neto, um dos donos da Comam Comercial Alvorada de Manufaturados Ltda. Para colher prova material do crime de interesse do Arthur, Joel faz-se passar por empresário interessado em negociar com os Correios. Posteriormente em depoimento à Polícia Federal, confessou “que trabalhou na inteligência da Usina de Itaipu. Contou ainda que fora contratado para outros serviços de arapongagem, como tentar descobrir um esquema de corrupção na compra de uniformes escolares na prefeitura de São Paulo  à época administrada pela petista Marta Suplicy".  Fica claro então que o araponga já prestara serviços para setores ligados à oposição política senão a própria. E em São Paulo. (Isto se torna relevante quando se vê o empenho do Ministério Público paulista e da polícia paulista em tentar fortalecer as ligações frágeis decorrentes dos fatos arrolados na  CPI dos bingos).

O vídeo chegou à revista Veja através de Jairo de Souza Martins,  que alugou a Arthur Wascheck Neto uma maleta equipada com câmera para que Joel Santos Filho flagrasse a ação de Marinho,  que por “razões pessoais” entregou uma cópia do conteúdo da filmagem a um certo jornalista da revista, (hoje sabemos que era Policarpo Júnior, redator-chefe da revista e chefe da sucursal de Brasília).


Apenas dois anos após  o fato, a Polícia Federal e o Ministério Público desencadearam a Operação Selo, em agosto de 2007, prendendo uma quadrilha especializada em fraudar licitações, vender produtos e fornecer serviços para os Correios há anos. Entre os cinco presos estava o empresário Arthur Wascheck Neto, o mesmo responsável por encomendar a gravação das imagens de Maurício Marinho em 2005. 


Mas, voltando a esse ano (2005), eis que Carlinhos Cachoeira reaparece. Quem é Jairo de Souza Martins  ? É  outro personagem conhecido no submundo da arapongagem e do jornalismo “investigativo” da revista Veja, amigo de longa data de Policarpo Júnior . Trata-se do policial Jairo Martins de Souza,  cabo da Polícia Militar do Distrito Federal e já teria trabalhado para o extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) e para Agência Brasileira de Inteligência (Abin). É um “empregado” da quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Recebia R$ 5 mil mensais e tinha a função de cooptar policiais e também levantar informações que pudessem prejudicar os negócios do grupo. Cada hora fica mais evidente a ligação entre a mídia oposicionista e os primórdios do “Mensalão”. E qual a origem desse empresário ? A resposta é Brasília. Coincidência ou os fatos começam a ficar mais claros quando se enxerga a linha que conduz Cachoeira a Jairo, Jairo a Policarpo Júnior, Policarpo Júnior a...?   Mas qual o ponto inicial de linha ? Cachoeira ? ou começa a emergir das sombras a figura de Demóstenes Torres cuja imagem de paladino da moralidade começa a ser construída pela mídia oposicionista ?


É o que apreende do destaque dado ao mesmo na edição da Revista Veja referente ao pedido de instalação da CP (“Com isso, a CPI dos Correios saiu do papel. Mas outra está a caminho – a CPI do Mensalão. O pedido de abertura foi apresentado por PPS, PV e PDT, depois que correu a suspeita de que petistas e tucanos fizeram acordo para que a CPI dos Correios acabasse em pizza. "Não vamos permitir que qualquer acordo impeça a faxina ética que o país exige", diz o senador Demostenes Torres, do PFL de Goiás”).  Estava claro, afinal, essa mídia precisava de um nome no meio político que galvanizasse outros setores, e prncipalmente a classe média, para o apoio ao impasse no Congresso, que imaginavam que viria e que trabalhavam ativamente para fazer acontecer, ainda antes da eleição de 2006. 


Nesse ponto é hora de observar as ações da Oposição política agindo em consonância com as “reportagens” da mídia oposicionista.  As eleições de 2006 se avizinhavam.


A CPMI dos Correios é instalada, sendo  uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) criada originalmente no Brasil para investigar o escândalo dos Correios. Com o tempo passou a investigar o escândalo do mensalão, como a Revista Veja “profetizara”. A ementa do pedido para criar a CPI foi de autoria do então Senador José Agripino do PFL.


Na edição de 18 de maio de 2005, a revista Veja, com a capa "O vídeo da corrupção em Brasília” traz a matéria “O Homem Chave do PTB”, revelando o envolvimento de  Roberto Jefferson, como sendo o homem por trás do esquema de corrupção naquela estatal.  Quando as investigações se voltaram para relação entre Maurício Marinho e Roberto Jefferson foi que ocorreu a declaração de Roberto Jefferson à Folha de São Paulo a respeito do fato mensalão, foi a primeira vez em que publicamente o termo foi utilizado.


Posteriormente seriam encontradas divergências entre os depoimentos do jornalista Policarpo Junior à Polícia Federal e o de Jairo à CPI mista. À  PF, Policarpo disse ter sido procurado por Jairo sobre um esquema de corrupção envolvendo o PTB, sobre o qual garantiu ter provas. À CPI, Jairo afirmou não ter comentado o assunto com o repórter e que, à época do contato, anda não existiam provas.


Quais as razões para essa divergências ?


Simples quando se analisa o objetivo dos conspiradores.  Se um deles era criar o impasse político dentro da correlação de forças da maioria governista e a oposição e como o PMDB não se deixara seduzir com o “clima artificial da comoção da classe média”  porque não tentar fragilizar e depois tornar inoperante o papel político do PTB, naquele contexto e trazê-lo para esfera oposicionista nas eleições de 2006 ? Devemos nos lembrar que o papel da mídia era ativo nesta conspiração. Só para exemplificar, ao longo de ano de 2005 a partir de junho, das trinta e duas capas da revista Veja, vinte eram de ataques diretos ao PT, travestidos de ‘jornalismo” e uma delas chegava a descrever a “agonia” do governo Lula em termos que a ligavam diretamente ao impeachment de Collor. Era o momento que os conspiradores viam com otimismo, da criação do contexto da “comoção da classe média”. Tentava-se desesperadamente a criação desse impasse político pois no quadro da estabilidade econômica e do boom do consumo das classes C e D, os níveis de popularidade do presidente Lula vinham sendo repetidamente atestados por sucessivas pesquisas de intenção de voto e avaliação do governo. Ficava claro que era urgente gerar o impasse e, sonho dos sonhos, o golpe institucional via Congresso. Ou no mínimo tentar equalizar as chances de um candidato oposicionista em 2006. Naquele momento a Nação assistiu a  um dos episódios mais polêmicos da história do jornalismo contemporâneo, caso consideremos dessa forma, para dizer o mínimo. A   entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prete, da Folha, que acabou desviando o foco da atenção para o “mensalão”, retirou o foco do papel conspirador ativo de uma das revistas semanais do país, para a derrubada de um presidente ou a fragilização de sua candidatura à reeleição. É o cerne da orquestração golpista.  E a retirada do PTB da base governista serviria para estimular os setores dentro do PMDB que sempre haviam sido contra a aliança. Na própria entrevista Roberto Jefferson sugere que tanto PP quanto o PL  receberiam  quantias mensais para votarem projetos de interesse do governo.  Porque estes três partidos entravam na equação do Golpe ? Simplesmente porque como davam ao governo Lula uma folga confiável na maioria parlamentar  ( PL, por exemplo, saiu das urnas com 26 deputados e naquele momento contava com 53. O PP havia elegido  49 deputados e passara a ter  54, e o próprio crescimento do PTB, que crescera de  26 para 47 deputados) era preciso retirá-los da base para que prosperasse o movimento. Esta articulação que levara os três partidos para base era fruto do trabalho da Casa Civil. Na mente dos conspiradores chegara a hora do acerto de contas com o Ministro  José Dirceu. Não repetiriam o fiasco da CPI dos bingos.


O vídeo gravado por Joel Santos Filho é citado na Denúncia Oficial da Procuradoria Geral da República, dos indiciados nos crimes do Escândalo do Mensalão, como o fato que originou toda a investigação da CPMI dos Correios e do referido escândalo.  Mas verifica-se que até aquele momento da gravação e mesmo depois, não se havia falado em nenhum tipo de relação dessa natureza entre a Casa Civil da Presidência e o Congresso. Vejamos com lupa  as motivações que levaram ao estabelecimento dessa relação na ótica da Conspiração.


Mas existiu Mensalão ?


A resposta enfática é não. Houve sim  o aproveitamento de recursos oriundos de  campanha para a quitação de dívidas de campanha.  Daí a similaridade com o pai do esquema, o chamado Mensalão Mineiro, sobre o qual não falaremos senão como o próprio STF afirmou, o “Laboratório”.  Mas vamos ao fato inicial, a entrevista de Roberto Jefferson.  O neologismo mensalão, seria uma variante criada pela Mídia da palavra "mensalidade" usada para se referir a uma "mesada" paga a deputados para votarem a favor de projetos de interesse do Poder Executivo. Jefferson acusou o então Ministro da Casa Civil José Dirceu de ser o mentor do esquema, ao contar, na entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava mesada de 30.000 reais aos deputados do PP e do PL. Os pagamentos teriam sido efetuados a um número aproximado de 90 deputados para que votassem de acordo com o interesse do governo nas principais votações no Congresso. E nesse ponto que hoje sabemos, à luz da denúncia do Ministério Público e do Relatório da Polícia Federal, que os fatos demonstram que isso nunca existiu. Além do fato óbvio de que qualquer governo tem um arsenal de possibilidades legais para criar e, vá lá, cooptar,  qualquer maioria governista (processo recorrente na política brasileira em todos os níveis e que sómente uma reforma política poderá coibir). Os dados levantados contradizem firmemente a afirmação de Jefferson.


É simples. Um total de noventa deputados a R$ 30.000,00 (trinta mil reais) levaria o montante a dois milhões e setecentos mil reais. Matemática elementar. Entretanto, o Relatório da Polícia Federal aponta, a partir dos dados do Coaf, que na véspera das votações que interessaram ao governo, antecedentes ao ínicio da crise, o volume de recursos retirados em espécie dos Bancos citados (os mesmos bancos que operaram o Mensalão Mineiro) foram pouco condizentes com essa compra de apoio político.


Vejamos :


Reforma tributária aprovada na Câmara em 24 de setembro de 2003                                        

R$ 1,212 milhão em 23, 25 e 26 de setembro de 2003


Reforma tributária modificada no Senado em 17 de dezembro de 2003     

  R$ 470 mil em 17 e 19 de dezembro de 2003


Medida Provisória (MP) do Salário mínimo aprovada na Câmara em 2 de junho de 2004           

R$ 500 mil


MP do salário mínimo aprovada em 23 de junho de 2004 na Câmara após passar pelo Senado

R$ 200 mil


Status de ministro para o presidente do Banco Central em 1 de dezembro de 2004 (Câmara) 

R$ 480 mil em 29 e 30 de novembro de 2004


MP dos Bingos aprovada em 30 de março de 2004 (Câmara)     

 R$ 200 mil em 29 de março de 2004


Reforma da Previdência aprovada (primeiro turno, Câmara) em 5 de agosto de 2003           

R$ 200 mil em 6 de agosto de 2003


Reforma da Previdência aprovada (segundo turno, Câmara) em 27 de agosto de 2003          

R$ 200 mil entre 25 e 26 de agosto de 2003


Reforma da Previdência aprovada (Senado) em 26 de novembro de 2003                        

R$ 400 mil em 26 e 27 de novembro de 2003


Reforma da Previdência aprovada (Senado, segundo turno) em 11 de dezembro 2003

R$  120 mil em 10 de dezembro de 2003


Estes documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostraram que entre julho e maio de 2003 foram feitos saques no valor de R$ 27 milhões das contas das empresas de Marcos Valério, a maior parte do através do Banco Rural.


O que salta aos olhos é que  no período apresentado como o de maior volume de saques, não foi feita SEQUER UMA votação de interesse do governo.  E mesmo nas datas das votações o maior valor retirado, no valor de R$ 1.212 milhão, se divididos pelos supostos noventa parlamentares, se chegaria apenas a um terço aproximadamente, do valor de R$ 30 mil citado como a “mensalidade”.  E pior ainda se verificarmos o menor valor sacado, de R$ 120 mil que divididos pelos mesmos supostos noventa daria um valor ainda mais irrisório de R$ 1.300 reais.  O fato é que nos dias que antecederam ou nos dias imediatamente posteriores às essas dez importantes votações, o valor total ascendeu a R$ 3.983 milhões, o que nos fornece uma média de R$ 398 mil por votação e que teriam sido repassados em média R. 4000,00 a cada um dos noventa parlamentares.  Na História da República nunca tantos teriam se corrompido por tão pouco. O suposto fato não resiste à análise da voracidade fisiológica de qualquer partido. Uma simples emenda parlamentar tem o condão de levantar esse valor multiplicado n vezes. Lembrando ainda que, conforme os dados do Coaf demonstraram, os saques eram efetuados também na véspera de votações no Senado. Onde estão então os saques correspondentes às  votações em segundo turno na Câmara e vice-versa ?


Não foi por outro motivo que Roberto Jefferson posteriormente rechaçaria as suas próprias afirmações sobre a existência desse esquema de compra de apoio parlamentar. A contradição era e é evidente.   O Relatório da Polícia Federal também foi explícito, dias depois, ao apresentar  uma investigação complementar feita a pedido do Ministério Público cujo objetivo era mapear as fontes de financiamento do valerioduto (nome dado à operação de transferência de dinheiro de Caixa dois nos dois eventos, tanto o Mensalão mineiro quanto o “Mensalão” propriamente dito), que o documento não comprovara a existência do "mensalão". Mas porque a insistência em não tipificar a relação como sendo recursos não contabilizados de campanha. Porque na ótica da Conspiração, essa tipificação não levaria a nenhum impasse institucional uma vez que havia precedentes e os procedimentos envolviam partidos dentro de processos eleitorais, ao contrário do potencial explosivo de uma relação fisiológica com parlamentares, demonstrado pela CPI do Orçamento nos anos noventa.


Mas ainda assim, em 11 de abril de 2006, a Procuradoria Geral da República moveu no STF  a ação denominada Ação Penal 470 e entre 22 a 27 de agosto de 2007, o Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento dos quarenta nomes denunciados em 2006 pelo Procurador Geral da República. O que começara por intermédio de um vídeo protagonizado por um empresário corrupto e um funcionário de baixo escalão corrupto, o primeiro com evidentes ligações com um bicheiro goiano, instrumentalizado pelo Redator Chefe de um dos principais veículos da mídia oposicionista , tivera a sua sequência lógica que levaria à condenação dos envolvidos e (na lógica dos conspiradores) à fragilização do Partido Trabalhadores, com evidentes ganhos ao projeto de desestabilização cujo fim ainda era o impasse institucional. Os conspiradores exultaram.

 

Quarta Fase. A Conspiração quer a classe média nas ruas. O Movimento Cansei.

 

Porque se iniciou essa tentativa de mobilização da classe média ? A resposta pode ser encontrada no fato que nenhuma das ofensivas da mídia oposicionista e tampouco a sua contrapartida nos partidos da oposição, teve o condão de levar a protestos de massa que dessem suporte a eventuais pedidos de impeachment alardeados pela oposição e insinuados pela mídia oposicionista. Sem isso, não haveria possibilidade de sucesso. Algumas vitórias parciais como a saída de Jose Dirceu e de Delúbio Soares da Casa Civil e do PT, respectivamente, ainda que significativas, não foram eventos catalizadores para criar o clima de comoção da classe média que galvanizasse e levasse outros setores a aderir, criando um cisma na unidade governista e no empresariado. Fora o que ocorrera nos anos Collor e os conspiradores desejavam que a situação atual  evoluísse em direção ao mesmo desfecho.


Para tal lançaram mão da emoção popular suscitada por acidentes aéreos que causaram grande número de vítimas, atribuindo ao “caos” da desorganização e incompetência do governo Lula no setor.
O Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, conhecido popularmente pelo slogan Cansei, foi, de acordo com seus idealizadores,  um “movimento da sociedade civil” surgido em julho de 2007, logo após o acidente com o vôo 3054 da TAM. O Cansei declarou-se se apartidário e visava à reflexão sobre os motivos do que considerou a desordem da administração pública no governo Lula.


Recebeu de imediato grande visibilidade da Mídia oposicionista que sonhava estar fechando o cerco ao governo, agora  com o que supunha ser o ínicio da almejada mobilização. Uma nova versão dos “cara-pintadas”, reverberando os noticiários em redes sociais.   De acordo com a página oficial do movimento, mais de sessenta entidades apoiavam o "Cansei". Dentre elas, as mais importantes eram a Ordem dos Advogados de São Paulo, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul, a ABO, a ADVB, o CREA, o Conselho Regional de Medicina, a FIESP e o Grande Oriente Paulista da Maçonaria.


Não era concidência o número desproporcional de entidades paulistas. Afinal em sua direção se encontravam históricos oponentes da marcha da esquerda rumo à Presidência da República, mesmo antes de 2002. E como era de se esperar utilizaram todo o tipo de manobras para fazer crer que o movimento ganhava dia a dia mais adesão. A verdade era que nas ruas somente se viam esparsas manifestações lideradas por pessoas ou instituições historicamente ligadas ao Conservadorismo. Para exemplificar vejamos o caso do Conselho Regional de Medicina que não havia aderido a este Movimento, já denunciado quase de imediato como uma farsa por importantes intelectuais de esquerda.  Em entrevista à jornalista Conceição Lemos o presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, o Cremesp Henrique Carlos Gonçalves afirmou que fora ludibriado pelo presidente da OAB, Luis Flávio Borges D'Urso, e enviara-lhe uma carta no dia 13 de agosto de 2007 solicitando "informar que este Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), por meio de sua Reunião de Diretoria e Seção Plenária, decidiu pela não adesão à iniciativa", e também cita que "A assinatura em peças publicitárias e em notas conjuntas à imprensa dependeria de autorização formal do Cremesp, o que de fato não ocorreu." Também cita que "Aparentemente o processo com o CREA foi idêntico ao nosso". Isto mostra o grau de liberdade com que a Conspiração dispunha de nomes de instituições da sociedade civil, sem o conhecimento das mesmas.  Mas mesmo assim tais falsos apoios eram sistematicamente divulgados pela Midia oposicionista na tentativa de criar o clima, anteriormente citado, da comoção da classe média.


Tal objetivo ficou decididamente explícito na entrevista ao jornal Valor Econômico, do presidente da Philips no Brasil, Paulo Zottolo afirmando que, ao apoiar o movimento Cansei, desejava remexer no "marasmo cívico" do Brasil, e afirmou: "Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado". Mais tarde, Zottolo pediu desculpas ao povo do Piauí em entrevista a Folha de S. Paulo, dizendo que seu comentário foi "infeliz".  Mas este ato falho estava implícito na natureza do movimento, que era atuar ilegitimamente contra a vontade popular, buscando a deposição, via impasse institucional do governo reeleito em 2006.


Um trecho do texto contra Zottolo, assinado por entidades como UNE e UBES, dizia que a afirmação do presidente da Philips fora uma "demonstração clara do preconceito que a elite paulistana tem contra nordestinos."  O que se queria do Movimento, por parte da Midia oposicionista era criar o pano de fundo para os pedidos de Impeachment que a Oposição política esperava que prosperassem com a falsa mobilização “das ruas”.


Tão clara era a falsidade dos objetivos anunciados pelo Cansei, referentes ao setor aéreo que o ato do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, foi marcado por desorganização por parte das lideranças e revolta dos familiares das vítimas do acidente com o Airbus da TAM. Cerca de 40 parentes, vindos de todas as partes do País, compareceram a Praça da Sé, mas não puderam subir ao palco que foi montado no local para os organizadores e artistas que aderiram à manifestação.

 

Enquanto o protesto acontecia, os familiares ficaram represados na rampa de acesso ao palco. Nem se quer a presença do grupo foi citada pela organização. "Disseram que o palco estava cheio e que poderia cair se subíssemos. Estava cheio de artistas e seguranças. Nós éramos quem deveria estar lá em cima", disse à época Luciana Haensel, filha de Ângela Haensel, que chegara de Porto Alegre para participar do ato em memória de sua mãe, passageira do vôo 3054 da TAM.


Mais declarações se seguiram a esta como de mais uma parente de uma das vítimas. "Isso não nos abala. Vamos fazer a nossa homenagem logo mais, à tarde. Fomos usados por este movimento", disse Ana Queiroz, mãe de Arthur Queiroz, vítima do acidente aéreo, que viera do Recife.


O empresário João Dória Jr, presidente do Grupo de Líderes Empresariais (Lide), pediu desculpas aos familiares. "Fizemos uma coisa indelicada e injusta com vocês", admitiu. Ele explicou que dois familiares subiriam ao palco para representar todo o grupo, mas o ato foi encerrado antes que eles pudessem se manifestar.


Até mesmo no Exterior se enxergava a orquestração óbvia como na visão do cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, que deixou o cargo em meados de 2010, que comunicou à Washington que o movimento não era apartidário. Assim começa um comunicado enviado a Washington no dia 18 de setembro de 2007: “Na tentativa de aplacar o descontentamento popular com o governo Lula, um grupo de empresários de São Paulo lançou o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, conhecido informalmente como ‘Cansei’ (I’m tired)”. O documento segue dizendo que “apesar de os líderes insistirem no apartidaridarismo e dizerem que o movimento não ataca ninguém especificamente, tem causado forte reação de movimentos sociais e entidades ligadas ao governo Lula, que caracterizam o Cansei como um grupo de membros ricos da elite branca sem nada melhor para fazer do que reclamar”. White diz ainda que o movimento não sabia direito para que direção avançar. “Conforme descrito em seu site e cartazes publicitários, os membros do Cansei estão fartos do caos aéreo, do poder dos traficantes, das crianças nas ruas, balas perdidas e tanta corrupção”.


Mas não eram estes os objetivos reais e verdadeiros deste grupo.  Embora o movimento tenha informado que seu surgimento , entre outros motivos, era uma forma de protesto contra o "caos aéreo", que teria levado à queda do avião da TAM, informações contidas na caixa preta do avião vieram a indicar que o acidente foi provocado por falha da aeronave ou dos pilotos, o que tornaria nula a ligação entre o acidente e uma suposta crise do setor aéreo brasileiro.


A Revista Veja, um dos principais veículos inseridos na Conspiração, deu total espaço a um dos ideólogos do Movimento. O Cônsul americano, White comenta sobre um encontro entre oficiais da embaixada americana, Luiz Flávio Borges D’Urso e representantes da OAB de São Paulo no dia 29 de agosto de 2007. “A OAB organiza frequentemente programas em conjunto com as mesmas associações empresariais que fazem parte do ‘Cansei’. De acordo com D’Urso, faz parte dos interesses da organização elogiar o governo mas também criticá-lo quando for o caso”. Era uma tentativa de atrair a simpatia americana para o que se esperava vir a ser o impasse institucional. Mas os americanos não caíram nessa. Até mesmo eles já suspeitavam do que estava para vir, assim também como a Arquidiocese de São Paulo que emitira uma resolução proibindo o Cansei de fazer a manifestação na Catedral da Sé em julho daquele ano e obrigou o movimento a fazer seu “um minuto de silêncio de indignação” ao ar livre. “Para D’urso, o arcebispo se curvou diante da pressão e não quis criar controvérsias”. Essas controvérsias eram exatamente o cerne do plano do golpe institucional.


Thomas White concluiu o telegrama para Washington dizendo que o slogan “Cansei”, embora pudesse resumir com precisão os sentimentos de algumas pessoas, não é muito eficaz como um grito de guerra. Prosseguiu citando que “Como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comentou recentemente ao cônsul-geral, não é um lema que Martin Luther King, Jr., teria escolhido para inspirar seus seguidores”, revelou  White. Para ele, “os líderes do movimento, por toda sinceridade e seriedade tornaram-se alvos fáceis para a caricatura”.


E foi isso que liquidou de vez a pretensão da Midia Oposicionista e da Oposição política, de dar sustentação a esta caricatura política denominada Cansei, cujos manifestações de rua só se mostraram numerosas nos noticiários televisivos e reportagens semanais da Midia.  A História de Collor não se repetiria naquele momento. Mas os conspiradores ainda tinham outros planos em mente. Não mais para criar a crise institucional. Ficara claro ser esta uma missão que não se cumpriria. O seu objetivo fora mal avaliado e não existiam as vivandeiras de quartel que tanto mal haviam feito à história político-social da República brasileira.  O Objetivo passara a ser evitar a todo custo mais quatro anos de um governo popular. As eleições de 2010 já se mostravam no Horizonte. Mas essa é uma outra história.

 

 

   

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