China, futebol e comunidade: o impacto do esporte além dos grandes estádios
Mesmo sem a seleção masculina na Copa, cidades como Yiwu e torneios como a Village Super League mostram como o futebol mobiliza indústria, cultura e comunidades rurais na China
por Iara Vidal
Quando digo aqui na China que sou brasileira, a primeira reação quase sempre envolve futebol. Parece até uma marca registrada da minha nacionalidade. Tento me interessar mais pelo esporte, mas só me torno uma torcedora de verdade durante a Copa do Mundo. Apesar de ser flamenguista — mais pelo prazer de provocar amigos do que pelo time —, meu interesse pelo futebol parou no Zico, Arthur Antunes Coimbra, craque do Flamengo nos anos 1980 e um dos maiores jogadores da história do Brasil.
E cá estou eu, pela segunda Copa consecutiva, na China. Nos jogos de 2022, no Catar, era minha primeira vez neste país incrível, que hoje chamo de lar, e isso tornou a experiência ainda mais intensa e memorável. Em 2026, a história se repete: a seleção masculina da China não conseguiu se classificar, mas o país estará presente de outras maneiras — e de forma bastante significativa.

Yiwu: o supermercado do mundo
Na cidade de Yiwu, na província de Zhejiang, no leste da China, fábricas e mercados formam um verdadeiro motor de abastecimento global. Com mais de 75 mil pontos de venda e milhões de itens em exposição — de acessórios e brinquedos a camisas, bolas e até mascotes da Copa — quase tudo que circula entre fãs, turistas e varejistas do mundo provavelmente passou por lá antes de chegar às mãos do consumidor.
Yiwu se conecta a grandes cidades como Hangzhou, Shanghai e Beijing, servindo de ponte entre o interior da China e os mercados globais.


Aqui na China, é comum que cidades se especializem em um setor específico em vez de produzir de tudo. Yiwu é um exemplo clássico desse modelo: toda a cidade se dedica a pequenas mercadorias, concentrando indústria, comércio e logística em um só lugar. Por isso, se tornou um dos maiores hubs globais desse tipo, reconhecido internacionalmente como o maior mercado atacadista de pequenas commodities do mundo.
Mesmo sem o time nacional dentro de campo, a China marca presença na Copa através da sua capacidade industrial: cada souvenir, bola ou mascote tem um pouco de Yiwu antes de chegar até você.

Futebol nas comunidades: Village Super League e ligas regionais
Mas o futebol na China não se resume a produtos e indústria. No coração das comunidades rurais e em cidades menores, o esporte vem ganhando vida própria, em competições que misturam esporte, identidade local e celebração comunitária.
Um exemplo emblemático é a Village Super League (村超, Cūn Chāo, literalmente “Superliga dos Vilarejos”), torneio amador que reúne times formados por agricultores, estudantes e trabalhadores. Em alguns casos, ex-jogadores participam de programas especiais para incentivar a base, sempre de forma simbólica e educativa.


Além da Village Super League, há campeonatos regionais e provinciais — como ligas em Guangdong, Jiangsu e Sichuan — que mobilizam clubes amadores e times de bairros inteiros.
Estádios improvisados e campos comunitários se transformam em arenas de encontro social, com arquibancadas, barracas de comida, artesanato local e público vibrante. “Futebol + cultura local” virou fórmula para unir, movimentar e impulsionar pequenas economias, fortalecendo o senso de comunidade.

Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol (2016–2050)
Por aqui, o futebol não é só um jogo: é saúde, cultura, integração social e projeção internacional, parte do chamado “Sonho Chinês”. O Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol define metas de curto, médio e longo prazo, buscando transformar o país em potência futebolística, da base escolar às ligas profissionais, com campos, clubes e programas de formação de atletas, treinadores e gestores.
A ideia é ambiciosa: popularizar o esporte, fortalecer competições, criar indústria e cultura futebolística, e conectar a China ao cenário global. Mesmo que a seleção masculina ainda não esteja entre as melhores do mundo, o plano aposta que, até 2050, o futebol se torne uma força de transformação social, econômica e cultural.

Futebol, cultura e desenvolvimento
Essa dimensão do futebol é bem destacada no livro China, Football and Development: Socialism and Soft Power (Routledge), de Emanuel Leite Junior. Ele é pernambucano, torcedor do Náutico, e atualmente atua como pesquisador associado na Tongji University, em Shanghai, aqui na China.
Doutor em Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro, em Portugal, Emanuel estuda futebol, China, diplomacia do esporte, geopolítica e economia política do esporte. Com formação em Jornalismo e Direito, já trabalhou como repórter no Brasil e colaborou com jornais em Portugal.

Nesse clima de Copa do Mundo, eu conversei com ele sobre a China e o futebol, especialmente a dimensão comunitária do esporte no país. “O sucesso do Cun Chao não pode ser explicado apenas pelo futebol. O torneio combina esporte, identidade local, cultura popular e desenvolvimento regional. Os jogadores representam aldeias e comunidades, gerando um forte sentimento de pertencimento”, conta.
Emanuel ressalta que a autenticidade popular é o maior atrativo: “Mesmo sem estrelas profissionais, o torneio atrai ex-jogadores, treinadores e personalidades, sempre de forma simbólica, sem tirar o protagonismo das comunidades locais”.
O impacto social vai muito além do esporte: “A popularização do futebol a partir das bases sociais fortalece vínculos comunitários, movimenta economias locais e amplia a participação popular”.
Na China, o futebol funciona ao mesmo tempo como cultura, lazer, educação e desenvolvimento local. Competições regionais e comunitárias ampliam a base de praticantes, despertam interesse de crianças e jovens e ajudam a consolidar uma cultura futebolística que vai muito além do alto rendimento. Construir essa cultura sólida acontece tanto nos grandes estádios quanto nos campos de vilarejos e pequenas cidades.

“Sonho do Futebol Chinês”: esporte, educação e economia local
O “Sonho do Futebol Chinês” é guiado por planos oficiais que definem como o futebol deve crescer no país a longo prazo. Além do Plano de Desenvolvimento do Futebol Chinês (2016‑2050), o documento mais recente, “Opiniões sobre a Implementação da Reforma e Desenvolvimento do Futebol Juvenil na China”, foca no futebol juvenil, orientando desde a educação nas escolas até a formação de talentos e a organização de competições, com metas para 2035. O projeto vai além da seleção profissional: busca plantar a cultura do futebol, formar jogadores e fortalecer a indústria esportiva em todo o país.
Programas estatais de futebol juvenil e recreativo ampliam o acesso desde a infância, fortalecendo hábitos culturais, educação física e economia local. Emanuel reforça: “O projeto envolve metas amplas: estimular a prática esportiva, construir uma cultura futebolística de longo prazo e desenvolver a indústria do esporte”.

Iniciativas como escolas especializadas, torneios comunitários e parcerias internacionais transformam o futebol em prática cotidiana, lazer e oportunidade de desenvolvimento. “O plano possui potencial de inovação social, incorporando esporte à educação, cultura e economia local”, observa Emanuel.
Futebol como transformação social
No fim das contas, a China marca presença na Copa do Mundo de jeitos que vão muito além das quatro linhas: abastecendo o mundo com produtos oficiais e espalhando a paixão pelo futebol nas comunidades locais.
Para mim, como brasileira vivendo aqui, é fascinante ver como o futebol é celebrado de formas tão diferentes, mas igualmente vibrantes, e como iniciativas como o Cun Chao mostram que o esporte pode ser poderoso e unir pessoas, mesmo sem depender de resultados profissionais.
Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
Fonte: CMG
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário