Quando as imagens falam
por Felipe Bueno
Era um momento ansiosamente esperado a cada ano: a chegada da Mostra Internacional de Cinema a São Paulo. Estávamos em 2007, e dias antes do evento, era tradição uma busca pelas atrações no catálogo do festival e nas reportagens especiais dos jornais – sim, os jornais, de papel, ainda eram lidos por humanos, não por cachorros.
Dentre as dezenas de opções, a sessão escolhida para aquela tarde foi a de Persépolis, animação baseada no livro da iraniana Marjane Satrapi, sobre a qual pouco eu sabia.
O primeiro impacto foi estético: traços e movimentos variam do ingênuo e poético ao ríspido, beirando a violência, num resultado final em que os olhos de quem assiste são obrigados a percorrer a tela inteira com diferentes ritmos e velocidades de acordo com a evolução do filme.
E há a história.
É de histórias que a História é feita, e a da autora, personagem principal de si mesma, nos mostra uma acumulado de fatores suficiente para derrubar qualquer tentativa superficial de classificação de uma realidade muito complexa: eis os laços familiares e religiosos, a estrutura cultural, o dia-a-dia das ruas e da escola, tudo aquilo que era verdadeiro, que era eterno até deixar de ser. Aí, de repente, não serve mais, não se encaixa, não se pode. Simplesmente não se pode. A opção é um mundo novo, e tudo fica ainda mais difícil.
Satrapi literalmente permitiu retirar o véu ocidental do desconhecimento sobre as mulheres iranianas. Para além de figuras passivas e silenciosas, por trás do hijab obrigatório, havia garotas que ouviam punk e heavy metal, compravam fitas cassete no mercado paralelo e questionavam a autoridade. Ao narrar sua própria infância e juventude, ela deu voz a uma experiência pessoal e ao mesmo tempo coletiva. Era preciso responder de alguma forma ao fato de que o corpo feminino pós-1979 havia se transformado em um alvo da repressão do Estado. O trabalho de Marjane, que não se restringe a Persépolis, fala e falará a meninas e mulheres iranianas e não-iranianas por ultrapassar as amarras de uma reportagem ou trabalho acadêmico: é um manifesto íntimo/público de sobrevivência facilmente reconhecido por mulheres de qualquer parte do mundo que já tiveram seus corpos, escolhas ou intelectos policiados.
A trajetória de sucesso de Persépolis é um bom exemplo do alcance do soft power que habitualmente estudamos neste espaço. Mesmo depois de 1979, e também por causa do que aconteceu então, o Irã segue exibindo uma das tradições artísticas mais ricas do mundo, funcionando como ferramentas diplomáticas ao mesmo tempo discretas e devastadoras. Marjane Satrapi, de quem nos despedimos, é digna representante dessa tradição.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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