A Copa do Mundo de 2026 e a disputa pela hegemonia global: futebol, geopolítica e a nova ordem multipolar
por Emanuel Leite Junior
A Copa do Mundo FIFA de 2026 será a maior da história. Pela primeira vez, o torneio contará com 48 seleções e será realizado conjuntamente por três países: Estados Unidos, Canadá e México. À primeira vista, trata-se apenas de mais uma expansão do principal evento esportivo do planeta. No entanto, observar a Copa apenas pelo prisma esportivo significa ignorar sua crescente centralidade na economia política internacional e nas disputas geopolíticas do século XXI.
Os megaeventos esportivos nunca foram politicamente neutros. Desde os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, passando pelas disputas ideológicas da Guerra Fria que se expressaram nos boicotes aos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 e de Los Angeles em 1984, pela Copa do Mundo da Argentina em 1978 e pela recente Copa do Catar em 2022, o esporte tem funcionado como uma arena de disputa política na qual Estados e outros atores buscam projetar poder, construir legitimidade, produzir consenso e fortalecer projetos hegemônicos concorrentes. A Copa de 2026 não será diferente. Pelo contrário: ela ocorrerá em um contexto marcado pela transição para uma ordem internacional cada vez mais multipolar, pela intensificação da competição estratégica entre Estados Unidos e China e pela crescente afirmação do Sul Global como ator político relevante.
Durante grande parte do período pós-Guerra Fria, os Estados Unidos desfrutaram de uma posição hegemônica relativamente incontestada. Em uma perspectiva gramsciana, a hegemonia não se reduz à capacidade de coerção ou ao exercício direto do poder econômico e militar, mas envolve a construção de consensos capazes de apresentar interesses particulares como se fossem interesses universais. A liderança estadunidense apoiou-se precisamente nessa combinação entre poder material e legitimidade política, projetando valores, normas e instituições que passaram a estruturar a ordem internacional. Nesse contexto, o esporte desempenhou papel importante como um dos mecanismos de difusão de símbolos, identidades e formas de sociabilidade alinhadas à ordem liberal internacional. O chamado soft power pode ser compreendido, portanto, não apenas como uma estratégia de projeção de imagem, mas como parte de um processo mais amplo de construção hegemônica, no qual a influência cultural e simbólica contribui para a produção de consentimento em escala global.
Entretanto, a ascensão da China e o fortalecimento de novas coalizões internacionais, como os BRICS, têm contribuído para reconfigurar os equilíbrios globais de poder. Mais do que uma simples redistribuição de capacidades econômicas, esse processo reflete o surgimento de alternativas institucionais e políticas à arquitetura internacional construída sob liderança ocidental. O mundo atual já não pode ser compreendido a partir da lógica unipolar que predominou nas décadas de 1990 e 2000. A crescente contestação à centralidade ocidental manifesta-se em múltiplas dimensões, incluindo a economia, a tecnologia, a governança global e, cada vez mais, o esporte.
Nesse cenário, a Copa de 2026 assume significado que transcende os limites do campo de jogo. O torneio será realizado no principal centro político e econômico do sistema internacional, justamente quando a liderança estadunidense enfrenta desafios sem precedentes. Não se trata de afirmar que a competição será utilizada como simples instrumento de propaganda estatal, mas de reconhecer que megaeventos esportivos constituem espaços privilegiados para a construção e a disputa de narrativas sobre legitimidade, liderança e prestígio internacional.
A ironia é que, embora os Estados Unidos sejam os anfitriões da competição, a influência chinesa estará presente de maneira significativa. Nos últimos anos, empresas chinesas tornaram-se importantes patrocinadoras da FIFA e ampliaram sua presença em diversos segmentos da indústria global do futebol. Além disso, a China consolidou-se como ator central em cadeias produtivas relacionadas a equipamentos esportivos, infraestrutura e tecnologias utilizadas em grandes eventos. Em outras palavras, mesmo sem uma seleção protagonista, a China participa da globalização do futebol por meio de mecanismos econômicos que refletem sua crescente inserção internacional.
Essa realidade evidencia uma transformação importante. Durante décadas, a literatura sobre esporte e relações internacionais concentrou-se na ideia de soft power, entendendo o esporte como ferramenta de projeção positiva de imagem e de atração internacional. Embora essa perspectiva continue relevante, ela é insuficiente para compreender a complexidade das dinâmicas contemporâneas. O esporte tornou-se também um espaço privilegiado da disputa hegemônica global. Diferentes Estados e coalizões internacionais mobilizam o esporte não apenas para promover uma imagem favorável de si mesmos, mas para legitimar projetos políticos, econômicos e civilizacionais concorrentes. Sob uma perspectiva marxista, cabe questionar inclusive por que o próprio conceito de soft power adquiriu tamanha centralidade no debate acadêmico e político. Afinal, as ideias dominantes em cada época tendem a refletir as relações materiais de poder existentes. A ampla difusão do conceito após o fim da Guerra Fria ocorreu em um contexto marcado pela hegemonia norte-americana e pela universalização dos valores associados à ordem liberal internacional. Nesse sentido, o soft power pode ser compreendido não apenas como uma categoria analítica, mas também como expressão de uma determinada visão ideológica do poder internacional, que privilegia a atração e a persuasão enquanto obscurece as relações estruturais de dominação que sustentam a ordem global. Em termos gramscianos, o sucesso do conceito revela precisamente sua capacidade de se transformar em senso comum, isto é, em uma forma aparentemente natural e consensual de interpretar as relações internacionais.
A crescente competição entre potências estabelecidas e emergentes faz do esporte um dos espaços onde se expressam, de forma cada vez mais evidente, as disputas em torno da configuração da futura ordem internacional. A própria expansão da Copa do Mundo pode ser interpretada à luz dessas transformações. O aumento para 48 seleções é frequentemente apresentado como medida de democratização e inclusão. Contudo, ele também reflete a busca da FIFA por novos mercados, maiores receitas e ampliação de sua presença global. Trata-se de uma decisão que expressa as contradições de um futebol cada vez mais integrado às lógicas da acumulação capitalista global. A expansão beneficia países historicamente periféricos na geografia do futebol, mas simultaneamente fortalece o poder econômico de uma estrutura de governança que concentra recursos e capacidade decisória.
Essa contradição remete a uma questão mais ampla: quem controla a globalização do futebol? Embora o esporte seja frequentemente apresentado como patrimônio universal da humanidade, sua estrutura econômica permanece fortemente concentrada. As principais ligas, os maiores clubes, as receitas comerciais mais expressivas e os centros de decisão continuam localizados predominantemente na Europa Ocidental. Ao mesmo tempo, grande parte dos talentos, dos mercados consumidores e das oportunidades de expansão encontram-se no Sul Global.
A Copa de 2026 ocorrerá justamente em um contexto em que países da África, da Ásia e da América Latina reivindicam maior protagonismo nas instituições internacionais. Essa demanda também se manifesta no futebol. As discussões sobre representação política na FIFA, distribuição de receitas, acesso a vagas em competições e modelos de desenvolvimento esportivo refletem tensões semelhantes às observadas em organismos multilaterais como as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, instituições historicamente associadas à ordem internacional construída sob liderança ocidental. Paralelamente, o Sul Global tem buscado desenvolver mecanismos alternativos de cooperação e governança. Um exemplo emblemático é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco dos BRICS, sediado em Xangai e atualmente presidido pela ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff. A criação de instituições dessa natureza revela que a disputa pela reorganização da ordem internacional não ocorre apenas no plano econômico e financeiro, mas também no campo da legitimidade política e da construção de novas formas de cooperação internacional. De maneira semelhante, as reivindicações por maior participação e influência na governança do futebol refletem um movimento mais amplo de contestação às estruturas tradicionais de poder em escala global.
Sob essa perspectiva, a Copa do Mundo pode ser interpretada como um microcosmo da ordem internacional contemporânea. O torneio reúne Estados com capacidades econômicas e políticas profundamente desiguais, inseridos em estruturas globais marcadas por relações assimétricas de poder. Ao mesmo tempo, oferece oportunidades para contestação, negociação e construção de novas formas de influência. O futebol não cria essas dinâmicas, mas as reproduz e amplifica.
A Copa de 2026 será, portanto, muito mais do que uma competição esportiva. Ela constituirá um espaço privilegiado para observar as transformações em curso na política internacional. As disputas por visibilidade, prestígio, legitimidade e influência que atravessam o sistema internacional estarão presentes dentro e fora dos estádios. Em um mundo marcado pela transição para uma ordem multipolar, o futebol continua sendo um dos poucos fenômenos capazes de mobilizar bilhões de pessoas em torno de símbolos compartilhados. Justamente por isso, permanece como terreno estratégico para a construção da hegemonia e para a disputa dos rumos da globalização.
Se a Copa de 2026 revelará o fortalecimento de uma nova ordem multipolar ou a capacidade de adaptação das estruturas tradicionais de poder ainda é uma questão em aberto. O que parece evidente é que compreender o torneio exige ir além dos resultados em campo. Afinal, na geopolítica do século XXI, o futebol continua sendo uma arena onde se jogam partidas muito maiores do que aquelas disputadas entre as quatro linhas.
Emanuel Leite Junior é pesquisador associado da Tongji University (China) e doutor em Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve pesquisas sobre economia política do esporte e do futebol, políticas públicas do esporte, geopolítica, relações internacionais, cooperação Sul-Sul e China contemporânea. É autor de Cotas de Televisão do Campeonato Brasileiro: “Apartheid Futebolístico” e Risco de Espanholização, A História do Futebol na União Soviética (Multifoco) e coautor de China, Football and Development: Socialism and Soft Power (Routledge). Seus estudos abordam o papel do esporte nas disputas por hegemonia, nos processos de desenvolvimento e nas transformações da ordem internacional contemporânea. Formado em Jornalismo e Direito, atuou profissionalmente na imprensa brasileira e colaborou com a imprensa portuguesa.
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