23 de junho de 2026

A porteira aberta, por Felipe Bueno

Não podemos nos dizer surpresos com a imensa quantidade de entendidos rasos, dando boas vindas à CIA e todo o seu entorno, civil e militar.
Imagem gerada por ChatGPT

EUA incluíram PCC e Comando Vermelho na lista de grupos terroristas, gerando debate polarizado no Brasil.
Especialistas alertam que PCC e CV visam lucro com tráfico e não têm motivação ideológica típica do terrorismo.
Medida pode impactar negativamente o sistema financeiro brasileiro, elevando riscos e sanções internacionais.

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A porteira aberta

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por Felipe Bueno

A semana se inicia no Brasil com a repercussão polarizada sobre a decisão do governo dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho na lista de seus alvos terroristas. Até aí, nenhuma novidade. Assim como não podemos nos dizer surpresos com a imensa quantidade de entendidos rasos, inclusive líderes políticos, dando boas vindas à CIA e todo o seu entorno, civil e militar.

Apesar de alertas de pessoas sérias, as vozes predominantes, até porque falam muito alto, são as mais associadas com a linha dura arrasa-quarteirão, que ignoram o abismo conceitual e prático existente entre o crime organizado e o terrorismo. Sem falar nos possíveis impactos econômicos teóricos e práticos que essa medida pode impor ao mercado financeiro e ao sistema bancário.

Do ponto de vista do direito internacional e da ciência política, a tipificação clássica de terrorismo, usada até hoje pelo mundo civilizado, prevê a existência de motivação ideológica, política, religiosa ou xenofóbica que leve a ações cujo objetivo principal é subverter a ordem institucional ou coagir um Estado mediante o terror. Os conceitos tradicionais — consolidados por agências internacionais e pela própria legislação brasileira — excluem o lucro econômico como fim último. E o PCC e o CV, a não ser que analistas muito sérios e fundamentados estejam enganados – operam sob a lógica do capitalismo criminal transnacional. O objetivo dessas facções é o lucro por meio do tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e controle de mercados ilícitos. Não buscam destruir o Estado ou substituí-lo por um califado ou regime ideológico, mas sim parasitam as brechas da estrutura estatal para prosperar financeiramente. Já atuam inclusive no sistema financeiro e na política formal, e nosso noticiário trouxe vários exemplos nos últimos anos. Tratá-los como terroristas confunde a violência do método com a natureza do objetivo.

Essa distorção conceitual não é inofensiva e gera riscos para a economia brasileira, especialmente o sistema bancário ideologicamente distante de um governo federal que na verdade o protege. No ecossistema financeiro globalizado, onde os bancos daqui dependem de correspondentes dos Estados Unidos para liquidar transações em dólares, a régua de compliance será fixada num patamar mais alto.

A Faria Lima tão amistosa ao mundo liberal passa a correr o risco de sofrer sanções ou de ser cortada do clearing mundial se, mesmo de forma involuntária, processar recursos que tenham passado por laranjas, empresas de fachada ou operadores das facções. O fantasma do aumento do risco-país veste bomber jacket no inverno paulistano que está chegando. O capital externo olha para cá e, amedrontado, busca pousos mais seguros.

Mais uma vez, como escrito acima, não devemos mostrar surpresa ao acompanhar as fases de crescimento de um novo mundo cujo nascimento havia sido anunciado e tivemos a oportunidade de testemunhar. O Brasil do soft power é composto por diferentes tipos de brasileiros, alguns com falhas terríveis de visão periférica e estratégia. E faltam poucos meses para que a sociedade decida se vai abrir de vez as portas ou tardiamente tentará colocar uma corrente e um cadeado na porteira aberta.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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