22 de junho de 2026

A mídia e o ódio seletivo, por Venício A. de Lima

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O que será feito do ódio e de sua linguagem?

Por Venício A. de Lima

Do Observatório da Imprensa

Ao fazer um balanço crítico do ano que chegava ao fim, na perspectiva da atuação da mídia brasileira, escrevi neste Observatório, em dezembro de 2013:

 “O que de mais importante aconteceu no nosso país de 2005 para cá – vale dizer, ao longo dos últimos oito anos – e se consolidou em 2013 com as várias semanas de julgamento televisionado, ao vivo, no Supremo Tribunal Federal – foi a formação de uma linguagem nova, seletiva e específica, com a participação determinante da grande mídia, dentro da qual parcela dos brasileiros passou a ‘ver’ os réus da Ação Penal nº 470, em particular aqueles ligados ao Partido dos Trabalhadores. (…) Nos últimos anos ‘mensalão’ passou a ser ‘um esquema de corrupção’ e tornou-se ‘mensalão do PT’, enquanto situações idênticas e anteriores, raramente mencionadas, foram identificadas pela geografia e não pelo partido político (‘mensalão mineiro’). Como resultado foi se construindo sistematicamente uma associação generalizada, seletiva e deliberada entre corrupção e os governos Lula e o PT, ou melhor, seus filiados e/ou simpatizantes. (…) A generalização seletiva tornou-se a prática deliberada e rotineira da grande mídia e, aos poucos, as palavras ‘petista’ – designação de filiado ao Partido dos Trabalhadores – e ‘mensaleiro’ se transformaram em palavrões equivalentes a ‘comunista’, ‘subversivo’ ou ‘terrorista’ na época da ditadura militar (1964-1985). ‘Petista’ e ‘mensaleiro’ tornaram-se, implicitamente, inimigos públicos e sinônimos de corruptos e desonestos” (ver “A linguagem seletiva do ‘mensalão’“).

Em abril de 2014, depois de visitar várias regiões do país lançando seu premiado romance K, o escritor e jornalista Bernardo Kucinski recuperou a palavra “politicídio” para descrever o que antecipou como “uma mobilização em marcha para exterminar o PT da sociedade brasileira, a começar pela sua presença no imaginário da população”.

Saul Leblon comentou na Carta Maior:

“A aspiração não é nova nas fileiras conservadoras. Em 2005, já se preconizava livrar o país ‘dessa raça pelos próximos trinta anos’. Jorge Bornhausen, autor da frase, reúne credenciais e determinação para levar adiante seu intento. (…) A verdadeira novidade é a forma passiva como um pedaço da própria intelectualidade progressista passou a reagir diante dessa renovada determinação de exterminar o PT da vida política nacional” (íntegra aqui).

Nos meses que antecederam à realização da Copa do Mundo de Futebol presenciamos a uma intensa e uniforme campanha de descrédito que celebrava o fracasso antecipado em expressões do tipo “Não vai ter Copa”. Fracasso antecipado pela incapacidade brasileira – mas, sobretudo, do governo brasileiro – de realizar um evento dessa magnitude.

Superada a Copa do Mundo, iniciou-se o ciclo eleitoral propriamente dito e recrudesceu a indisfarçável partidarização da grande mídia em níveis desconhecidos até aqui. Hegemoniza-se rapidamente, não só na grande mídia, mas também nas redes sociais, uma assustadora “linguagem do ódio” – incluindo a edição deliberada de imagens – contra os governos liderados pelo PT nos diferentes níveis da administração pública e contra petistas que os apoiam.

Talvez a característica mais forte dessa “linguagem do ódio” seja a utilização dos verbos “acabar”, “varrer”, “eliminar”, “exterminar”, “expulsar”, “aniquilar” que contamina e, em muitos casos, transita de um para outro lado da disputa, como se estivéssemos numa guerra civil em que o lado derrotado devesse ser “banido” da face da terra.

E o pós-eleições?

Há alguns anos tenho escrito sobre processos de intolerância que vêm sendo construídos e estimulados por uma grande mídia cada vez mais partidarizada e, de fato, sem compromisso verdadeiro com o processo democrático. A menos de uma semana do segundo turno da eleição para Presidência da República e para governadores de 14 estados da Federação, não é possível ignorar o nível de irracionalidade e polarização a que se chegou à disputa eleitoral.

A questão incontornável é o que será feito do ódio e de sua linguagem que vêm sendo construídos e estimulados com a participação ativa da grande mídia ao longo dos últimos muitos meses, independentemente dos resultados das urnas. Como se comportarão os oligopólios da mídia partidarizada, derrotados ou vitoriosos, depois das omissões e distorções evidentes em favor de uma das posições políticas em disputa?

Infelizmente – inclusive, levando-se em conta o comportamento da grande mídia nos estados onde haverá segundo turno também para governador – não há indícios de que a linguagem do ódio desaparecerá com a realização do segundo turno. Ao contrário.

O que é possível fazer para que se restabeleçam as condições mínimas de tolerância necessárias à convivência democrática?

A ver.

***

Venício A. Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador/autor com Juarez Guimarães e Ana Paola Amorim de Em defesa de uma opinião pública democrática – conceitos, entraves e desafios (Paulus, 2014), entre outros livros.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Adriano Soares de Assis

    24 de outubro de 2014 8:13 pm

    A mídia e o ódio seletivo.

    É lamentável assistir a decadência de nossa dita “grande imprensa”. O ódio destiilado em suas páginas, sites ou em tudo que publicam, está levando toda uma geração ao ponto mais baixo de convivencia entre os povos. Diz a frase que “triste é o povo que depende de heróis”, mas mais triste ainda é o povo que assiste a tudo isso sem ter o poder de se contrapor a esta situação. Tomara que a candidata Dilma faça cumprir suas palavras de processar a revista Veja desta semana. Tirania descarada, vendidos a preços módicos numa feira mal enjambrada, onde notícias se transformam em mercadorias de segunda classe.  

  2. Nicolas Crabbé

    24 de outubro de 2014 10:34 pm

    Difícil

    O acirramento dos ânimos e a virulência das discussões dos dois lados do espectro prenunciam tempos difíceis, seja quem for o vencedor dessa eleição.

    A grande mídia tem uma parcela imensa de culpa nesse estado de coisas, mas os ataques pessoais da campanha do PT contra o Aécio, para defender-se de ataques equivalentes vindos do outro lado, rebaixaram todos para o esgoto, de onde será difícil sair.

    Como bem disse o Nassif, o terceiro turno será difícil…

  3. altamiro souza

    24 de outubro de 2014 10:36 pm

    excelente questonamento
    do

    excelente questonamento

    do mestre lima…

  4. Danilo prociu

    24 de outubro de 2014 11:12 pm

    Tá bom até parce que esse

    Tá bom até parce que esse ódio “…em níveis desconhecidos até aqui…”. Como assim?

    Esse ódio está no mesmo nível (alto) desde 1.980 (Fundação do PT). às vêzes mais explicíto como em épocas de eleição. Mas o tipo e o nível do ódio continua igualzinho.

    E.T. è só a Dilma perguntar ao Aécio: gozado, parce que não apareceu nada nessa revistinha sobre =

    1) Aeropoorto Particular para o titio e para o primo envolvido com tráfico de drogas.

    2) Dirigir embriagado e não fazer o teste do Bafômetro (contra a LEI brasileira).

    3) Mandar prender jornalista que faz oposição ao seu governo em Minas (isso sim é censura).

    4) Arrecadação Ilegal de sua (aécio) campanha (166 milhões).

    5) bater em mulher

    6) Helicóptero do parceiro e sócio, com 500 kg de Cocaína apreendidos pela PF.

    7) Desvio de dinheiro da Saúde (vacina de cavalo!!!!!).

    ou seja Pó Pára candidato….

     

     

Recomendados para você

Recomendados