Peter Thiel, um verdadeiro tecnoStalin
por Fábio de Oliveira Ribeiro
É bem conhecida a crítica que Wolfgang Streeck fez ao “povo do mercado” – conceito que abrange a elite financeira transnacional mais ou menos unida apenas em torno do interesse que seus membros ostentam de obter o máximo de lucro no menor espaço de tempo e sem risco explorando as diferentes taxas de juros e as vulnerabilidades econômicas e cambiais de cada país – que considera o capitalismo sem democracia uma alternativa perfeitamente plausível.
“O rentista, na sua procura de possibilidades de investimento seguro para as suas poupanças, considera muito bem-vindos os Estados que dependem de financiamentos do crédito – sobretudo também devido ao seu sucesso na resistência aos impostos: a pobreza do Estado não só constitui a sua riqueza, como também lhe proporciona uma oportunidade ideal para investir a riqueza de forma a obter lucro.” (Tempo Comprado – a crise adiada do capitalismo democrático, Wolfgang Streeck, Conjuntura Actual Editora, Coimbra-Portugal, 2013, p. 124)
O rentista, entretanto, não é o único inimigo do Estado. Ele nem mesmo é o mais virulento adversário de qualquer tipo de regulação, porque para realizar lucros ele precisa de regras estáveis que lhe permitam tanto movimentar seu dinheiro de um lado para o outro quanto desfrutar a segurança do direito de propriedade em todos os lugares.
No momento, os inimigos mais perigosos da democracia são os donos de Big Techs. Isso porque além de ter à sua disposição um poder econômico e político considerável, os barões dos dados controlam a infraestrutura computacional e comunicacional que possibilita tanto a propaganda, o comércio e as transações bancárias quanto a circulação de informação e desinformação. E eles são ferozmente contra qualquer tipo de regulação estatal sendo apoiados nos EUA por republicanos e democratas.
Antes da ascensão do poder das plataformas de internet, havia distinção entre verdade factual e falsificação. A informação não tinha o mesmo valor civilizatório que a desinformação. Na atualidade não existe mais diferença qualitativa entre essas coisas.
O modelo de financiamento baseado em cliques transformou tudo em lucro. Em razão de apelar para o engajamento emocional dos usuários de internet, a desinformação e a falsificação se tornaram mais lucrativas e politicamente importantes do que a informação e a verdade factual. Isso explica tanto a eleição de Donald Trump (e os ataques dele contra as instituições científicas norte-americanas) quanto a derrubada de Dilma Rousseff.
Foi nesse contexto que surgiu a “rede social dos ricos” de Peter Thiel. O vazamento de informações sobre o funcionamento dela escandalizou o mundo inteiro. Mas as pessoas não entenderam o que ela representa e significa. Thiel provou que é impossível existir um “povo do mercado” organizado de maneira igualitária.
A “rede social de bilionários” que ele criou era fundamentalmente antissocial, porque o algoritmo faz distinção entre os usuários de acordo com suas posses e impede que todos falem e se relacionem com todos os outros usuários.
Os milionários falam apenas com milionários. Os multimilionários se relacionam apenas com multimilionários, mas devemos supor que eles podem escolher falar com os milionários com quem tem negócios ou relações de amizade. Os bilionários falam com bilionários, mas seria muito estranho Thiel não lhes conceder o privilégio de poder falar com seus amigos multimilionários. O mundo só tem um trilionário, portanto, Elon Musk deve continuar falando sozinho.
Crítico ácido da Revolução Francesa, Edmund Burke disse que:
“A razão política é um princípio de computação: ela soma, subtrai, multiplica e divide as verdadeiras quantidades morais – e o faz moralmente, e não metafísica ou matematicamente.” (Reflexões sobre a revolução em França, Brasília, UnB, 1997, p. 58)
No mundo virtual rigidamente hierarquizado de maneira matemática pelo dono da Palantir não existem “quantidades morais”. Nela os usuários são quantificados de acordo com suas posses e a computação delas (e deles mesmos) é feita de maneira amoral.
O “povo do mercado” não gosta de se sentir igual ao “povo do Estado”. Mas é de se supor que eles tenham gostado menos ainda de ser tratados da maneira como foram tratados por Peter Thiel.
O Facebook pode ferir o orgulho de um usuário pobre e não precisa realmente se preocupar muito com a reação dele. Milionários, multimilionários e bilionários, entretanto, são muito orgulhosos e vaidosos. Eles não gostam de ser discriminados e estão em condição de arrastar o dono da Palantir para os Tribunais apenas pelo desejo de humilhar publicamente quem os humilhou. Se isso ocorrer ninguém deve ficar surpreso.
Stalin costumava mandar inimigos e adversários pobres para o Gulag. A “rede social antissocial dos ricos” criada por Peter Thiel funcionava segregando pessoas exatamente como um Gulag, mas o tecnoStalin não era apenas o dono dele. Peter Thiel era também o mestre de cerimônias e o capataz de seu próprio Gulag e ele podia punir cruelmente os prisioneiros voluntários dele também.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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