7 de agosto de 2026

A inteligência social contra os titãs do capital, por Flaviano Cardoso

O algoritmo não nasce com finalidade social predeterminada. Sua função é organizada por quem controla a infraestrutura e define os objetivos.
«Monument au fantôme», 1983, Interfirst Plaza, en Houston, Texas.

A inteligência artificial resulta de conhecimento social acumulado, mas seu controle está concentrado em poucas corporações globais.
Grandes gestoras de ativos financeiros controlam trilhões e influenciam decisões sobre investimentos em IA e infraestrutura digital.
A concentração financeira da IA limita inovações sociais e aumenta desigualdades, exigindo democratização e regulação pública.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A inteligência social contra os titãs do capital

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A bolha da inteligência artificial, o poder dos asset managers e o aprisionamento da criatividade humana

por Flaviano Correia Cardoso

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma criatura autônoma, nascida espontaneamente nos laboratórios das grandes empresas de tecnologia. Essa narrativa apaga justamente o elemento decisivo: antes de ser uma mercadoria, a inteligência artificial é resultado de uma imensa acumulação social de conhecimentos. Ela depende de décadas de pesquisa pública, universidades, investimentos estatais, trabalho científico, infraestrutura energética, produção de semicondutores, redes de comunicação, bibliotecas, idiomas, manifestações culturais e informações produzidas diariamente por bilhões de pessoas.

Nenhuma empresa criou sozinha a matemática, a estatística, a computação, a linguística, a eletricidade, a internet ou os bancos de dados que sustentam os sistemas atuais. Tampouco os modelos generativos produziriam qualquer resultado sem o trabalho intelectual acumulado por professores, artistas, jornalistas, programadores, pesquisadores, tradutores, escritores e usuários das redes digitais. Aquilo que aparece diante de nós como inteligência artificial é, em grande medida, inteligência social processada por máquinas.

A questão central, portanto, não é saber se essa tecnologia representa ou não um avanço. Evidentemente representa. A questão é outra: quem controla a infraestrutura, os dados, os modelos, os centros de processamento e os rendimentos derivados dessa criação coletiva? Quem decide quais pesquisas receberão recursos, quais empregos serão eliminados, quais profissões serão reorganizadas e quais necessidades humanas serão consideradas economicamente relevantes?

O problema começa quando a inteligência social, produzida coletivamente, é transformada em propriedade privada concentrada. A tecnologia deixa de ser organizada prioritariamente para ampliar as capacidades humanas e passa a ser utilizada para elevar o valor financeiro de um pequeno número de corporações. O conhecimento social converte-se em ativo; os dados tornam-se cercamentos digitais; a criatividade humana passa a alimentar sistemas cuja propriedade e comando permanecem fora do alcance democrático.

É nesse ponto que a expansão da inteligência artificial encontra a financeirização. Não estamos assistindo apenas a uma nova revolução tecnológica. Estamos diante da constituição de um complexo técnico-financeiro no qual grandes empresas de tecnologia, fabricantes de semicondutores, fundos de investimento, gestores de ativos, empresas de energia, plataformas digitais e provedores de infraestrutura passam a depender da valorização recíproca de seus ativos.

Uma tecnologia pode ser real e, ao mesmo tempo, sustentar uma bolha financeira. As ferrovias transformaram o mundo, mas também foram objeto de especulação. A internet reorganizou a economia, mas não impediu a formação da bolha das empresas ponto-com. A inteligência artificial possui aplicações concretas na ciência, na medicina, na educação, na produção e na organização de informações. Isso não significa que as expectativas de lucro incorporadas aos preços das ações possam ser realizadas no ritmo e na dimensão projetados pelos mercados.

O Banco de Compensações Internacionais advertiu, em seu relatório econômico de 2026, que as avaliações das empresas situadas no centro do desenvolvimento da inteligência artificial permanecem elevadas. Segundo a instituição, as taxas de crescimento de longo prazo implícitas nos preços das maiores corporações superam referências históricas e, em diversos casos, até mesmo o extraordinário crescimento que essas próprias empresas alcançaram em suas trajetórias recentes.

Isso significa que os preços atuais não representam apenas os resultados já obtidos. Eles antecipam rendimentos futuros gigantescos. O valor financeiro passa a depender da crença de que as empresas serão capazes de converter investimentos bilionários em centros de dados, chips e modelos computacionais em monopólios duradouros e lucros crescentes. Quando a expectativa de rendimento futuro se distancia da capacidade efetiva de produzir receitas, temos a formação clássica do capital fictício: títulos financeiros que representam direitos sobre uma riqueza ainda não produzida.

A expansão começa financiada pelos enormes fluxos de caixa das grandes empresas tecnológicas, mas progressivamente incorpora dívida, fundos de infraestrutura e crédito privado. Estudo do Banco de Compensações Internacionais sobre o financiamento da inteligência artificial identificou uma contradição importante: enquanto as avaliações das empresas pressupõem retornos excepcionais, os empréstimos destinados a projetos relacionados à IA vêm sendo precificados como se apresentassem riscos relativamente comuns. Isso pode significar que o mercado de crédito subestima os riscos ou que o mercado acionário superestima os rendimentos futuros — ou ambas as coisas.

É aqui que a contribuição de Rudolf Hilferding permanece atual. O capital financeiro não representa somente a existência paralela de bancos e indústrias, mas a formação de estruturas capazes de comandar a produção por meio do controle do crédito, das participações acionárias e dos fluxos de investimento. No século XXI, essa arquitetura ganhou uma nova camada. Além dos bancos tradicionais, cresceram os fundos de investimento, fundos de pensão, fundos soberanos, fundos de índice, fundos de private equity e, principalmente, as grandes empresas de gestão de ativos — os chamados asset managers.

Essas gestoras não são proprietárias de todos os recursos que administram no sentido jurídico convencional. Grande parte do dinheiro pertence a poupadores, fundos de pensão e investidores institucionais. Mas isso não torna o seu poder irrelevante. Ao concentrar trilhões de dólares, definir índices, distribuir investimentos, exercer direitos de voto e dialogar com administrações empresariais, elas ocupam uma posição privilegiada na definição das estratégias corporativas.

A gestão formalmente passiva de um fundo de índice pode produzir um poder empresarial bastante ativo. Quanto maior a participação desses fundos nos mercados, maior a presença das mesmas instituições entre os principais acionistas de empresas concorrentes. A propriedade permanece dispersa entre milhões de cotistas, enquanto a capacidade de votar, influenciar e organizar os investimentos é centralizada em poucas administrações profissionais.

É esse universo que Peter Phillips investiga em Titans of Capital: How Concentrated Wealth Threatens Humanity. O sociólogo analisa as redes formadas pelas maiores empresas de gestão de ativos e pelos dirigentes que comandam seus investimentos. Sua pergunta não é simplesmente quem aparece nos rankings de bilionários, mas quem ocupa as posições institucionais a partir das quais decisões sobre volumes gigantescos de capital são tomadas.

Ladislau Dowbor percebeu a importância do estudo para compreender a transformação contemporânea do capitalismo. Em sua análise da obra, mostrou que as dez maiores gestoras examinadas por Phillips administravam, em 2022, quase US$ 50 trilhões. O estudo identificou 117 dirigentes no comando dessas instituições e demonstrou a existência de relações cruzadas entre empresas, conselhos administrativos, governos, organizações empresariais e espaços internacionais de formulação política.

Não estamos falando de uma conspiração secreta, mas de uma estrutura de poder visível. Os fundos publicam relatórios, as empresas registram seus acionistas, os dirigentes participam de conselhos e os governos recebem seus representantes. O problema não é a clandestinidade, mas a naturalização de uma organização econômica na qual decisões com consequências planetárias são apresentadas como simples operações técnicas de administração de carteiras.

A BlackRock oferece uma medida da velocidade dessa concentração. Em junho de 2026, a empresa atingiu US$ 15,34 trilhões sob gestão, ante US$ 12,53 trilhões um ano antes. Em apenas um trimestre, recebeu US$ 192 bilhões em novos recursos. Paralelamente, ampliou sua atuação em infraestrutura e crédito privado por meio de aquisições e estabeleceu como objetivo captar centenas de bilhões de dólares adicionais nos mercados privados até 2030.

O tamanho, por si só, não explica todo o poder. O aspecto fundamental é a posição ocupada por essas gestoras no interior das cadeias empresariais. Seus fundos mantêm participações nas grandes plataformas tecnológicas, nos fabricantes de equipamentos, em empresas de energia, bancos, mineradoras, indústrias farmacêuticas, companhias de comunicação e corporações militares. O mesmo universo financeiro que se beneficia da valorização das empresas de inteligência artificial participa das companhias responsáveis por fornecer energia, matérias-primas, crédito e infraestrutura.

Cria-se, assim, um circuito de valorização. As plataformas anunciam investimentos gigantescos em inteligência artificial. Os fabricantes de chips recebem novas encomendas. As empresas energéticas projetam o aumento da demanda. Fundos de infraestrutura financiam centros de dados. Analistas elevam previsões de crescimento. As ações se valorizam. Essa valorização aumenta o patrimônio dos fundos, que recebem novos recursos e voltam a investir nas mesmas cadeias.

Essa dinâmica não precisa ser coordenada por uma sala de comando. Ela decorre da convergência dos incentivos. Executivos são remunerados por desempenho financeiro. Gestores disputam rentabilidade. Empresas buscam elevar o preço de suas ações. Fundos necessitam apresentar resultados aos cotistas. O horizonte temporal da sociedade — educação, saúde, clima, desenvolvimento científico e bem-estar das futuras gerações — é substituído pelo horizonte dos relatórios trimestrais.

A concentração também modifica o conteúdo da inovação. Uma sociedade democrática poderia utilizar a inteligência artificial para ampliar a pesquisa médica, reduzir jornadas desgastantes, melhorar serviços públicos, universalizar conhecimentos, promover acessibilidade e ajudar comunidades a enfrentar problemas ambientais. Sob o comando financeiro, porém, a inovação é selecionada conforme sua capacidade de produzir receitas privadas, reduzir custos de trabalho, ampliar vigilância, capturar dados ou consolidar mercados.

Não existe neutralidade tecnológica quando a direção do investimento é definida pela rentabilidade financeira. O algoritmo não nasce com uma finalidade social predeterminada. Sua função é organizada por quem controla a infraestrutura e define os objetivos. Um mesmo sistema pode auxiliar um médico ou vigiar um trabalhador; apoiar um professor ou padronizar a educação; ampliar a autonomia de uma pessoa com deficiência ou excluir automaticamente alguém de uma oportunidade.

Na organização do trabalho, a inteligência artificial vem sendo introduzida em ambientes já marcados por metas, rankings, avaliação permanente e redução dos coletivos profissionais. A promessa de libertar os seres humanos das tarefas repetitivas frequentemente se converte em aumento da carga, aceleração dos ritmos e exigência de disponibilidade contínua. Cada ganho de produtividade é apropriado pela empresa, enquanto o trabalhador recebe novas metas.

Christophe Dejours demonstrou que trabalhar não consiste apenas em executar instruções. Todo trabalho real exige inteligência prática, cooperação e capacidade de enfrentar situações que não estavam previstas. Fernando González Rey, por sua vez, ajudou a compreender a subjetividade como produção social, histórica e criativa. Quando a gestão tenta reduzir o trabalhador a um executor de prescrições algorítmicas, ela não elimina apenas postos de trabalho: sufoca a fonte humana da própria inovação.

A inteligência artificial depende da criatividade humana, mas pode ser utilizada para discipliná-la. O conhecimento produzido pelos trabalhadores alimenta os sistemas; depois, os sistemas retornam aos locais de trabalho como instrumentos de controle. O professor fornece conteúdos e recebe uma plataforma que mede sua produtividade. O programador treina modelos e encontra um sistema utilizado para intensificar seu trabalho. O artista participa da cultura coletiva e vê sua produção incorporada a mecanismos privados de geração automática.

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento estima que a inteligência artificial poderá afetar cerca de 40% dos empregos no mundo. Ao mesmo tempo, alerta que a infraestrutura, a pesquisa e o poder empresarial permanecem concentrados em poucos países e companhias, situação que pode aprofundar as desigualdades entre o centro e a periferia da economia mundial.

Para os países periféricos, o risco é evidente. Eles podem fornecer energia, minerais, território, trabalhadores de plataformas, dados e incentivos fiscais, enquanto os modelos, as patentes, o processamento de maior valor e os rendimentos financeiros permanecem nos países centrais. É uma nova divisão internacional do trabalho: alguns territórios concentram o comando computacional e financeiro; outros oferecem recursos baratos para sustentar a infraestrutura.

Os centros de dados revelam materialmente essa contradição. A inteligência artificial costuma ser representada por uma nuvem, como se funcionasse fora da natureza. Na realidade, depende de instalações físicas, redes elétricas, sistemas de resfriamento, semicondutores, cabos, água, terrenos e grandes investimentos. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo mundial de eletricidade dos centros de dados poderá chegar a aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030, mais que o dobro do nível de 2024.

A discussão ambiental não pode ser reduzida à pergunta sobre a origem renovável da eletricidade. Mesmo a energia renovável possui custos territoriais, redes de transmissão, equipamentos e conflitos relacionados ao uso da terra. Além disso, quando um grande consumidor captura parcela expressiva da energia disponível, a sociedade precisa discutir quem pagará pela expansão da infraestrutura e quais atividades terão prioridade.

No Brasil, a chegada de grandes projetos de centros de dados vem sendo apresentada como sinal automático de modernização. O Ceará, por exemplo, passou a ser promovido como território estratégico para empreendimentos associados às grandes plataformas internacionais, aproveitando sua capacidade de geração de energia e sua conexão por cabos submarinos. O debate público, entretanto, não pode se limitar ao valor nominal do investimento. É preciso conhecer o consumo efetivo de energia e água, o número de empregos permanentes, os incentivos concedidos, os impactos territoriais, a propriedade dos dados e o destino dos lucros.

Um projeto pode movimentar bilhões durante sua construção e, depois de instalado, gerar poucos empregos diretos. Pode aumentar o produto interno bruto estadual sem constituir um sistema tecnológico local. Pode consumir energia produzida no território sem transferir conhecimento. Pode receber benefícios tributários enquanto universidades e escolas públicas enfrentam falta de recursos. Sem contrapartidas, o país corre o risco de trocar soberania por uma posição subordinada na infraestrutura digital mundial.

A situação brasileira precisa ser compreendida dentro de sua estrutura de concentração. O país apresentou avanços recentes na renda domiciliar, mas a desigualdade permanece elevada. Em 2025, o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita foi de 0,511. Os 10% da população com maiores rendimentos apropriavam-se de uma parcela da massa de renda superior àquela recebida pelos 70% de menores rendimentos.

Renda e patrimônio não são a mesma coisa. A concentração de riqueza é ainda mais intensa, porque propriedades, ações, fundos, empresas e heranças se acumulam ao longo das gerações. Enquanto milhões de famílias dependem integralmente da renda mensal do trabalho, as camadas superiores possuem ativos que se valorizam mesmo quando seus proprietários não participam diretamente da produção.

A lista brasileira de bilionários de 2025 registrou 300 nomes. Eduardo Saverin apareceu na primeira posição, com patrimônio estimado em R$ 227 bilhões, cuja valorização foi associada diretamente pelo levantamento à euforia em torno dos investimentos da Meta em inteligência artificial. Vicky Safra e família figuravam com R$ 120,5 bilhões, provenientes do setor bancário, e Jorge Paulo Lemann com R$ 88 bilhões, ligados a participações em conglomerados internacionais.

Esses casos ilustram três vias contemporâneas de concentração: a valorização das plataformas tecnológicas, a riqueza financeira e bancária e o controle de conglomerados transnacionais. A elite econômica brasileira não está separada do sistema mundial de gestão de ativos. Suas fortunas circulam por fundos internacionais, bolsas estrangeiras, holdings, empresas globais e estruturas patrimoniais que ultrapassam as fronteiras nacionais.

Dowbor insiste corretamente que a financeirização não representa apenas uma camada improdutiva instalada acima da economia real. Ela reorganiza a própria economia real. Empresas produtivas passam a orientar suas decisões pela remuneração dos acionistas. Investimentos de longo prazo são sacrificados para elevar dividendos. Pesquisa, segurança, manutenção, salários e proteção ambiental passam a ser vistos como custos que pressionam as margens.

A empresa deixa de ser compreendida como comunidade produtiva formada por trabalhadores, conhecimentos, fornecedores e territórios. Torna-se uma carteira de ativos. Uma fábrica pode ser encerrada não porque seus produtos deixaram de ser necessários, mas porque outra operação oferece maior rentabilidade financeira. Um projeto científico pode ser abandonado não porque seja inútil, mas porque seu retorno não ocorrerá no prazo exigido pelos investidores.

Rosa Luxemburgo percebeu que a acumulação capitalista necessita permanentemente encontrar novos territórios, mercados e dimensões da vida para incorporar. Hoje, essa expansão alcança a linguagem, os comportamentos, a atenção, as relações pessoais e a criatividade. O que antes não possuía preço é convertido em dado. O que era conhecimento compartilhado torna-se serviço por assinatura. O que era uma capacidade humana passa a depender de autorização privada.

O avanço dos asset managers representa uma mudança na forma de gestão do capitalismo. O capitalista industrial clássico aparecia ligado a determinada empresa. O gestor contemporâneo administra participações em milhares de corporações e transfere recursos entre elas segundo modelos de risco e rentabilidade. Seu compromisso não é com uma atividade produtiva específica, uma comunidade ou um projeto nacional, mas com a valorização da carteira.

A consequência é uma gestão que pode sufocar alternativas criativas. Inovações que ameaçam ativos existentes encontram barreiras. Soluções descentralizadas que reduzem tarifas podem ser menos atraentes para os investidores. Tecnologias abertas, bens públicos digitais e modelos cooperativos não oferecem a mesma capacidade de apropriação privada. O sistema proclama sua defesa da inovação, mas privilegia a inovação que pode ser cercada, patenteada, cobrada e transformada em fluxo financeiro.

A bolha da inteligência artificial não deve ser interpretada somente como possibilidade de queda nos preços das ações. Sua dimensão mais perigosa é política. Enquanto a valorização continua, governos são pressionados a oferecer energia, benefícios fiscais, infraestrutura e garantias. Caso os rendimentos esperados não se realizem, os investidores procurarão transferir os prejuízos à sociedade por meio de demissões, reestruturações, renegociação de dívidas ou socorro estatal.

A experiência histórica mostra que o capital privado reivindica liberdade durante a valorização e proteção pública durante a crise. Os lucros são apresentados como recompensa pela eficiência; os prejuízos tornam-se problemas sistêmicos. Quanto maiores as gestoras, os fundos, as plataformas e as instituições de crédito envolvidas, maior a capacidade de alegar que sua instabilidade ameaça toda a economia.

Não se trata de rejeitar a inteligência artificial, fechar centros de pesquisa ou defender um retorno romântico a um mundo anterior à tecnologia. A alternativa à gestão financeira da inovação não é o atraso. É a democratização. A tecnologia precisa ser retirada da falsa escolha entre monopólio privado e recusa tecnológica.

Isso exige capacidade pública de processamento, pesquisa científica financiada pelo Estado, infraestrutura digital soberana e cooperação entre universidades, empresas públicas, institutos tecnológicos e comunidades. Exige regras que garantam transparência sobre os modelos utilizados em decisões que afetam direitos. Exige participação dos trabalhadores na introdução de sistemas algorítmicos e negociação coletiva sobre produtividade, jornadas, emprego, saúde e distribuição dos ganhos.

Grandes centros de dados devem ser submetidos a avaliações ambientais completas, metas de eficiência, transparência sobre o consumo de recursos e contrapartidas sociais. Benefícios públicos precisam corresponder a benefícios públicos mensuráveis: empregos qualificados, formação profissional, transferência tecnológica, investimentos em pesquisa e proteção das comunidades atingidas.

Também será necessário enfrentar a concentração financeira. Isso envolve tributação progressiva de grandes patrimônios e rendimentos do capital, controle de estruturas monopolistas, transparência sobre participações acionárias, regulação das votações exercidas por gestoras e limites à captura privada das políticas públicas. A democracia não pode continuar tratando instituições que administram trilhões de dólares como simples intermediárias neutras.

Os dados produzidos socialmente precisam ser reconhecidos como recursos de interesse coletivo. Conhecimentos financiados com recursos públicos não podem ser apropriados integralmente por monopólios. A inteligência artificial utilizada em serviços essenciais deve permanecer submetida a critérios públicos, auditáveis e contestáveis. Nenhuma pessoa pode perder acesso a emprego, crédito, saúde, educação ou proteção social por decisão de um sistema cuja lógica não possa conhecer ou questionar.

O enfrentamento da bolha não se resume, portanto, a uma política prudencial destinada a salvar investidores. É uma disputa sobre a finalidade da economia. A humanidade possui conhecimento, tecnologia e capacidade produtiva suficientes para reduzir jornadas, universalizar serviços e enfrentar grandes problemas ambientais. O obstáculo não é a ausência de inteligência. É a forma de poder que aprisiona essa inteligência e a subordina à acumulação financeira.

Os titãs do capital não são poderosos porque sejam mais criativos que a sociedade. São poderosos porque ocupam os canais que transformam criação social em propriedade, propriedade em renda e renda em poder político. Seu domínio não decorre de uma superioridade tecnológica inevitável, mas de instituições historicamente construídas e, por isso mesmo, politicamente transformáveis.

A inteligência artificial pode ampliar a liberdade humana ou aprofundar a submissão. Pode fortalecer a cooperação ou consolidar monopólios. Pode reduzir o sofrimento no trabalho ou criar uma vigilância ainda mais sufocante. A direção não será decidida pela máquina. Será decidida pelas relações sociais, pelas instituições e pelas forças políticas capazes de disputar seu controle.

O verdadeiro conflito do nosso tempo não opõe seres humanos e máquinas. Opõe a inteligência social da humanidade à forma oligárquica que procura administrá-la como ativo financeiro. A questão decisiva não é até onde a inteligência artificial poderá chegar, mas quem terá o direito de  o seu caminho.

Permitir que essa decisão permaneça nas mãos dos asset managers significa aceitar que a criatividade humana seja governada pelos critérios de valorização de carteiras trilionárias. Recuperá-la para a sociedade significa reconstruir a capacidade democrática de planejar, regular, produzir e decidir.

A bolha poderá crescer durante algum tempo. Poderá também sofrer correções, deslocamentos ou crises abruptas. Mas o problema de fundo permanecerá enquanto a inovação estiver submetida a uma estrutura que socializa conhecimentos, recursos e riscos, ao mesmo tempo que privatiza o comando e os rendimentos.

Contra os titãs do capital, não basta denunciar o tamanho das fortunas. É preciso democratizar as estruturas que as produzem. A inteligência é social. O seu futuro também deve ser.

Flaviano Correia Cardoso é advogado, pesquisador independente e autor de artigos sobre trabalho, inteligência artificial, financeirização e economia política.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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