A relação entre jornalistas de destaque e os grandes grupos de comunicação passa por uma mudança importante. Depois de anos de fechamento editorial e alinhamento quase automático das redações, começa a surgir novamente algum espaço para o contraditório. O motor dessa transformação não está apenas dentro das empresas jornalísticas. Está também nas redes sociais, que deram aos profissionais a possibilidade de construir audiência, reputação e influência próprias.
A última mudança comparável ocorreu nos anos 1990. Com a abertura da economia e o surgimento de novos atores sociais e econômicos, a imprensa brasileira viveu um período de maior diversidade. A Folha de S.Paulo vinha, desde o fim dos anos 1980 e da campanha das Diretas Já, desenvolvendo uma estratégia para se firmar como jornal formador de opinião. Deixou uma posição secundária, conquistou leitores em diferentes regiões e entre setores progressistas e passou a disputar influência com a Veja, então a principal referência da imprensa escrita.
Para alcançar esse objetivo, o jornal dependia da credibilidade de seus colunistas. A necessidade de reunir vozes relevantes abriu espaço para posições contrárias, teses divergentes e debate público. Foi um período em que o prestígio do veículo se apoiava, em boa medida, na pluralidade de seus profissionais.
Do pluralismo ao efeito manada
Esse ciclo se encerrou com o Mensalão e, sobretudo, com a Lava Jato. A imprensa se fechou e aderiu ao efeito manada. Jornalistas influentes embarcaram no movimento, enquanto denúncias, delações e suspeitas passaram a ser tratadas como verdades estabelecidas antes do devido contraditório.
Alguns dos que hoje se apresentam como guardiões da democracia participaram daquele ambiente de perseguição e exposição de colegas e fontes. Instalou-se uma psicologia de massa na qual o alinhamento coletivo valia mais do que a apuração e a divergência era tratada como cumplicidade. O carreirismo encontrou terreno fértil: para muitos, entregar a alma em troca de uma manchete parecia o caminho mais curto para ganhar espaço.
A chegada de Jair Bolsonaro expôs o tamanho do desastre. Não havia como conferir legitimidade democrática a um projeto daquela natureza sem reconhecer também o papel desempenhado pela imprensa na construção do ambiente político que o tornou possível.
O jornalista também passou a ter audiência
Ao mesmo tempo, as redes sociais alteraram a estrutura de poder nas redações. Antes, o veículo concentrava a relação com o público. Agora, jornalistas podem formar comunidades próprias, dialogar diretamente com leitores e medir sua influência independentemente da empresa para a qual trabalham.
As direções passaram a perceber que não basta o jornal, a emissora ou o canal reunir audiência. Seus profissionais também precisam trazer público, repercussão e credibilidade. A personalidade individual do jornalista tornou-se um ativo — e, em alguns casos, uma força capaz de desafiar as decisões da própria empresa.
O crescimento dos canais de notícias ampliou esse processo. A CNN Brasil entrou na disputa direta com a GloboNews. A Band, dentro de suas limitações, manteve nichos nos quais alguma liberdade editorial conseguiu sobreviver. A concorrência abriu espaço para nomes mais autônomos, formatos mais ágeis e análises menos submetidas à velha hierarquia das redações.
O caso Daniela Lima
A trajetória de Daniela Lima é exemplar. Contratada pela GloboNews, destacou-se pela rapidez de raciocínio, pela qualidade da análise e pela boa interação com colegas. Tornou-se uma das principais jornalistas do canal — e, ainda assim, foi demitida.
A decisão representou um ponto de inflexão. Fora da GloboNews, Daniela ampliou sua presença nas redes, passou pela Transamérica e chegou ao UOL com uma audiência digital capaz de superar a visibilidade que tinha na televisão. A direção da emissora percebeu o tamanho do erro: no novo ambiente de comunicação, demitir uma jornalista não significa mais retirar sua voz do debate público. Em certas circunstâncias, significa fortalecê-la.
Depois desse episódio, a GloboNews passou a abrir mais espaço para profissionais capazes de fazer contraponto com informações relevantes, sem aderir automaticamente à orientação editorial da casa. Há hoje no canal um grupo de jornalistas que preserva alguma autonomia e demonstra que ainda é possível praticar bom jornalismo dentro dos grandes conglomerados.
A crise dos grandes jornais
Nos três grandes jornais — O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo —, porém, permanece uma estrutura antiga. Diretores de redação seguem de maneira quase automática a orientação das empresas, com consequências visíveis para a qualidade e a credibilidade do noticiário.
Esse alinhamento aparece na seleção de manchetes, na hierarquia das reportagens e na insistência em pautas destinadas a atacar Lula, fortalecer adversários e confrontar figuras como o ministro Alexandre de Moraes. Em vez de interpretar os fatos com independência, os editoriais frequentemente funcionam como peças de uma estratégia política previsível.
Em 57 anos de jornalismo, jamais vi editorialistas tão fracos, alinhados e quadrados. A crítica vale para os três jornais. O problema não é que tenham opinião — editoriais existem justamente para expressá-la. O problema é a perda de densidade, de capacidade argumentativa e de compromisso com a complexidade dos fatos.
Ainda assim, reportagens de impacto conseguem romper o bloqueio. Quando surgem informações incontornáveis, os próprios veículos são obrigados a recuar e rever narrativas previamente construídas. Isso prova que o jornalismo não desapareceu dessas empresas. Ele resiste dentro delas.
A trincheira do jornalismo
É preciso reconhecer e saudar os profissionais que permanecem nessa trincheira. Ao contrário do que ocorreu nos períodos mais agudos do Mensalão e da Lava Jato, há jornalistas dispostos a resistir ao carreirismo, ao alinhamento automático e à tentação de trocar independência por destaque.
Essa resistência será ainda mais importante com a aproximação das eleições. Os ânimos vão se acirrar, as pressões sobre as redações aumentarão e as tentativas de impor narrativas prontas se tornarão mais intensas.
A diferença, agora, é que os grandes veículos já não controlam sozinhos a circulação da informação. Jornalistas com credibilidade podem recorrer a outras plataformas, manter contato direto com o público e preservar sua relevância mesmo quando perdem espaço dentro de uma empresa.
A imprensa brasileira vive, portanto, uma disputa entre dois modelos. De um lado, o velho comando vertical, no qual a orientação da casa se impõe à apuração e ao contraditório. De outro, um jornalismo mais pessoal, plural e conectado com públicos que não dependem de uma única marca para se informar.
É nessa brecha que pode surgir um novo ciclo. Se os profissionais que hoje resistem conseguirem preservar independência, qualidade e coragem, poderão fazer a diferença — não apenas para suas redações, mas para a própria democracia.
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