9 de setembro de 2026

Meu artigo para a Folha, que ficou inédito, por Luís Nassif

Durante quase 30 dias, os leitores da “Folha” acompanharam uma curiosa polêmica pelo jornal, que havia sido alimentada por um auditor.
Redação Folha - foto de Jorge Araújo - Folhapress - Reprodução

Em 1995, colunista da Folha alertou sobre crise econômica causada por política de juros e câmbio do Banco Central.
Colunista enfrentou críticas e desqualificações, enquanto colega defendia visão otimista da economia em colunas opostas.
Em junho, governo admitiu crise; debate expôs práticas de manipulação e jornalismo parcial na cobertura econômica.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Em maio e junho de 1995, entrei em uma polêmica desgastante com meu colega Gilberto Dimenstein, na época Diretor da Sucursal da Folha em Brasília, com uma coluna na página 2. A partir de maio passei a apontar a enorme crise que via no horizonte, provocada pela política de juros e câmbio do Banco Central.

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Dimenstein resolveu questionar. Como não dominava a economia, valia-se da assessoria do economista Cláudio Considera, do IPEA.

Eu tinha certeza da crise, devido às inúmeras palestras que dava pelo país. Em toda cidade, especialmente no interior, empresários vinham me informar sobre crise sem precedentes. Era questão de tempo para chegar ao centro.

Enquanto não chegava, meus alertas receberam todo tipo de acusação: terorrismo, catastrofismo, jogo da FIESP, enfim, todas as baixarias para desqualificar o oponente.

Em meados de junho, o Secretário de Política Econômica, José Roberto Mendonça de Barros, me telefonou para admitir que meus alertas estavam corretos.

Na ocasião, Dimenstein mencionou um e-mail que havia recebido de um conhecido auditor, falando do crescimento espantoso da economia. Ocorre que, pouco antes, eu conversara com o mesmo auditor, que admitiu o tamanho da crise.

Telefonei, então, para Otávio Filho com uma fórmula para tirar Dimenstein da armadilha em que se enrolara. Nós assinarmos uma coluna conjunta, revelando o jogo do auditor e celebraremos a paz. Otávio disse que o melhor era continuar.

No dia 28 de junho, finalmente, Fernando Henrique Cardoso admitiu a gravidade da crise. Preparei, então, a coluna abaixo. Mas Otávio pediu para o pai que me telefonasse. Ele ponderou que Dimenstein era uma estrela da casa, assim como eu. E meu artigo iria prejudicá-lo.

Troquei, então, a coluna por outra.

O jornalismo fast food

Durante quase 30 dias, os leitores da “Folha” acompanharam uma curiosa polêmica pelo jornal. Esta coluna sustentando que a política monetária estava jogando o país em uma crise, e outra garantindo que o país estava na ante-sala do paraíso.

A questão pode ser entendida a partir do seguinte histórico.

Em meados de maio a coluna meteu-se numa polêmica com um dos autores do real. Colunista da “Folha”, que jamais havia se ocupado ou estudado ainda que superficialmente temas econômicos, recomendou enfaticamente a leitura do artigo do economista –que continha ataques pessoais a este colunista..

A coluna reagiu, em um artigo onde, sob o título “Cronistas e Analistas”, formulava o seguinte enunciado sobre o jornalismo fast-food:

“(0) jornalista de marketing escandaliza-se, quando a tese ainda não se consagrou. Depois, vai absorvendo a tese lenta ou rapidamente –sempre no ritmo do leitor comum. Após a tese consagrada, torna-se seu mais intimorato defensor”.

Truques e campanhas

Brios feridos inspiraram uma campanha sistemática contra a coluna, valendo-se de um manjado repertório de truques. Como repetir indefinidamente um mesmo bordão (repercutir, como se diz), selecionar apenas as informações que se adaptassem à tese defendida, ou insinuar interesses escusos da parte contrária.

É um estilo que tem sido utilizado à larga nesses linchamentos públicos que periodicamente se promovem contra pessoas. A diferença é que na outra ponta estava outro jornalista, que dispunha do mesmo espaço, e o tema em questão era de domínio público. Mais cedo ou mais os fatos comprovariam qual opinião era correta.

A evolução da pendenga foi a seguinte, de acordo com os artigos da parte contrária:

1) 24 de maio: “O trabalhador que não for tonto deve desconfiar da histeria catastrofista”.

2) 3 de junho: “A prova da histeria são os números da Associação Comercial de São Paulo”.

3) 5 de junho: “Estou convencido de que o Brasil está próximo de entrar na rota do crescimento estável”. Opinião de especialista.

4) 9 de junho: “O problema (da inadimplência dos consumidores) é a falta de cidadania. Ou melhor, falta de educação”.

5) 11 de junho: “O que classificam como defeito (sua insistência em não reconhecer a crise) imagino ser um esforço para virar mais equilibrado”.

6) 13 de junho: “E há quem diga que estamos vivendo em recessão. Só se for recessão de bom senso”.

7) 15 de junho: “Em conversa ontem com esta coluna, um dos maiores especialistas brasileiros em auditagem (?) de empresas disse: ‘Nunca em minha vida vi tanta prosperidade das empresas como nos últimos 18 meses’”.

(No domingo seguinte, a coluna publicou fax remetido semanas antes pelo auditor, esposando tese completamente contrária. Dias depois, soube-se que a ele estava disputando licitação para auditoria do Banco do Brasil e usava a imprensa para suas manobras. Mas jornalista que é macho não dá o braço a torcer.)

8) 17 de junho começa a ceder: “Abro o espaço a um empresário irritado com a coluna: ‘Por favor, não continue afirmando que não há recessão (…) Nunca vi coisa igual nos últimos anos’”.

Começa a admitir que a crise existe. Mas aí dei uma cutucada sobre o jornalismo “chapa branca”, obrigando-o a recuar do recuo.

9) 20 de junho: cita números da arrecadação em maio, para concluir que “se estivermos mesmo no caos, o crescimento dos impostos só pode ser milagre”.

A coluna rebate com relatório da própria Receita que comprova que nenhum dos fatores de aumento da arrecadação em maio estava ligado à atividade econômica. O relatório é ignorado.

10) 22 de junho: “A situação não é tão ruim como pregavam os catastrofistas, mas está muito longe do que jurava o governo”. O comentário foi feito uma semana depois de garantir que o Brasil vivia fase de “inigualável prosperidade”.

11) 23 de junho: “A crise já é séria o suficiente para que se tente aumentá-la artificialmente, manipulando informações”. Tem crise?

12) Ontem, sob o sugestivo título “Melhor dizer a verdade”, conclui: “O presidente Fernando Henrique Cardoso e seus assessores produzem clima de festa para comemorar um ano de Plano Real. Objetivo do lance pirotécnico: manter de pé o otimismo do brasileiro, embalando-o em números reluzentes. Melhor seria contar a dolorosa verdade”.

A “dolorosa verdade” é que “o próximo semestre vai mostrar, de verdade, o aperto do cinto”. Ou então, “o preço da ilusão é, como todos sabem, a decepção”. Está certo.

Conclusão do enunciado acima: C.Q.D. (como queríamos demonstrar).

Verdades e versões

Pergunto: se esse mesmo tipo de campanha fosse encetada contra personagens sem espaço para se defender na mídia e em cima de temas de conhecimento restrito, qual a versão que seria repassada para o leitor?

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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