Depois de uma derrota, o termo mais utilizado é “eu não disse?”. Por isso, vou evitá-lo.
A onda da direita decorre da incapacidade de enxergar no status quo qualquer perspectiva de auto-mudança. Essa é a praga que acomete governos longevos. O mundo e as pessoas mudam, por mérito ou culpa de seus governos, mas há uma resistência persistente em entender o novo.
Essas eleições marcam o fim da geração das Diretas, aquela que legou lideranças como Fernando Henrique Cardoso, Lula, Mário Covas e Franco Montoro, entre outros. Essa geração aprofundou a democracia e amenizou a selvageria do capitalismo brasileiro, mas foi incapaz de construir o futuro. Foi contaminada pelo pecado capital de FHC e pela chamada teoria do choque na transição de uma economia centralizada para uma economia de mercado. O país acabou tragado pela financeirização mais agressiva, por privatizações sem planejamento e por uma inserção atabalhoada no mercado internacional, cujo fecho foi a adoção da política de metas de inflação — tornando a nação refém do capital volátil e de taxas de juros exageradamente elevadas.
Embora os industrialistas do período anterior ainda tenham conseguido manter certa influência nos anos 90, gradualmente perderam vigor, com seus setores massacrados pela lógica corrosiva da ultrafinanceirização.
Tudo isso é assunto para o fim do segundo turno e para preparar o governo Lula 4. Agora, o ponto principal é a luta intransigente contra a desinformação:
- Os mais pobres precisam compreender o que significaria um presidencialismo de Bolsonaro para seus direitos básicos.
- Os aposentados e futuros aposentados devem ser alertados sobre as ameaças reais que pesam sobre a previdência presente e futura.
- Os usuários do SUS e da Farmácia Popular precisam ser conscientizados sobre os riscos que rondam essas conquistas essenciais.
- Os defensores da democracia devem ser lembrados da gravidade da perda de direitos ocorrida durante o período da Lava Jato e do bolsonarismo.
- Os setores mais esclarecidos precisam entender o verdadeiro significado da perda de soberania nacional.
Nosso trabalho é lutar incansavelmente para não legar aos nossos filhos a herança maldita do bolsonarismo e do fim da democracia.
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Antonio Uchoa Neto
5 de outubro de 2026 11:34 amOs mais pobres, os aposentados e futuros aposentados, os usuários do SUS e da Farmácia Popular, sofrem, em sua imensa maioria, de problemas de cognição – ignorância, em uma palavra – embora seja horrível usá-la. São, nessa mesma imensa maioria, vítimas da grande obra da Elite brasileira e seus mentores e mantenedores externos, ou seja, manter toda essa gente no analfabetismo, em si, e no analfabetismo político. Trabalho como terceirizado numa escola pública estadual, na Bahia, e testemunho isso todos os dias. Comecei a pensar no povo (seja lá que diabo seja isso) como um homem em frente ao espelho, que vê seu braço direito na esquerda de seu campo visual, e vice-versa; quando sai da frente do espelho e vê alguém à sua frente, não consegue ter cognição para ver algo distinto de si, e vê-se a si mesmo – não gosta do que vê, ou seja, um pobre igual a ele, e sai buscando outra coisa para ver. E quando vê alguém que não reconhece como pobre, pensa: somos iguais. E, às vezes, nem depois de quatro anos consegue perceber seu equívoco.
Não é uma questão de o pobre não saber o que é direita, o que é esquerda, o que é comunismo, o que é fascismo; é uma questão de não saber quem ele é, e, ciente ou não disso, achar que qualquer um pode ser igual a ele, e não ao outro – categoria que ele pensa ser a sua. O pobre não são os outros, mas não é, salvo por circunstâncias perversas, e, se Deus quiser, passageiras, pobre. Eu já perdi o convívio de boas pessoas por ter dito, certa vez, em conversa, que, em nosso bairro, éramos todos pobres – um casal, cuja renda conjunta orçava aí pelos seis ou sete mil reais, ficou extremamente indignado comigo, e deixaram de privar de meu convívio. Que sujeito odioso que eu era, chamando-os de pobres. E minha renda conjunta, com minha mulher, mal chegava a quatro mil e quinhentos reais.
Agora, Nassif, quanto aos defensores da democracia (com minúscula), precisam ter uma visão mais prática, mais real, e menos edulcorada dessa entidade que eles não compreendem, e com quem não convivem, o povo. Precisam deixar de lado qualquer visão ideal do povo, e se aproximarem de sua natureza real. O papel do povo, na história desse país triste, não pode ser o de tabula rasa, ou de massa de manobra – e isso só se tornará possível quando ele for encarado – e cooptado – como força em si, com todos os seus defeitos e vícios de origem, que não são poucos. O outro lado sabe fazer isso como ninguém, porque o enxerga como ele é, e não como poderia ser. É generoso, é solidário, é justo, mas também pode ser, desde que devidamente provocados e instigados, mesquinho, individualista, e cego.
Quanto aos tais setores mais esclarecidos, nada tenho a dizer. Não os conheço. Olham, desde sempre, para um povo idealizado, que não existe. Não olham para o pobre real, não o alcançam, não utilizam linguagem inteligível, para nós. São, para mim, como o caviar do Zeca Pagodinho: eu não sei, nunca vi, eu só ouço falar.
E mais, prezados amigos do GGN, sem a Câmara, e sem o Senado, ninguém governa esse país, salvo se se juntar à multidão. Que, no caso são 594 almas, salvo erro na conta (513+81, não?). Montante muito longe de configurar um ‘povo’. Mas uma multidão considerável e decisiva, que fará de Lula, caso se eleja, um solitário na multidão.