5 de junho de 2026

A vida e o trabalho de Artur Avila, o primeiro brasileiro a receber a Medalha Fields

Do Conexão Paris

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Artur Avila, gênio moderno

Artur Avila

Por Fernanda Hinke. Fotos de Alfredo Brant

Ontem, Artur Avila estava em todas as grandes mídias nacionais e internacionais: O Globo, Folha de S.Paulo, Revista Piauí, Le Monde, Le Figaro, The New York Times. Artur foi o primeiro brasileiro e latino-americano a receber a medalha Fields.

Artur Avila, gênio da matemática, se divide entre o eixo Rio de Janeiro/Paris. Artur é carioca, hoje naturalizado francês. Morando em Paris há 14 anos, ele trabalha sobre sistemas dinâmicos para a academia brasileira (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, IMPA) e a francesa (Centre National de la Recherche Scientifique, CNRS).

PhD aos 21 anos e com mais de 50 artigos publicados ao longo da carreira, Artur vem acumulando prêmios importantes, entre eles a melhalha Fields, a mais prestigiosa recompensa pelo reconhecimento de trabalhos em matemática.

Artur Avila

Artur Avila

Artur não é o que se espera de um cientista. Ele possui uma personalidade única e gosta de pouquíssimas coisas, entre elas comer bem. Quando ele está no Rio ele trabalha na praia, no Leblon. Em Paris, seu local de trabalho é a cama.

Artur vive Paris de uma maneira peculiar. A beleza da cidade não o impressiona. Os confortos urbanos, como a facilidade do transporte público, também não chamam sua atenção. Artur não frequenta os museus, nunca foi ao Louvre e recentemente viu pela primeira vez a torre Eiffel de perto e achou a sua estrutura feia.

O Conexão Paris teve a oportunidade de entrevistá-lo e de acompanhá-lo durante a maratona de fotos e entrevistas na semana que antecedeu a entrega da medalha.

Artur Avila em Paris

Artur Avila em Paris

O CP o auxiliou também na escolha do terno – Dolce & Gabbana – para o evento oficial, indicou a melhor barbearia de Paris e reservou para ele uma sessão fotográfica. Em seguida, o entrevistamos. Não falamos sobre matemática e sim sobre seu lado B.

——-

Quando chegou em Paris?

Cheguei aqui no início dos anos 2000, nem havia defendido meu doutorado no Brasil. Quando cheguei, comecei a investigar como poderia me estabelecer por aqui. No segundo semestre de 2001, fiz meu pós-doc no Collège de France e na sequência fui contratado pelo CNRS. Desde então, vivo entre Paris e Rio.

Gosta de Paris?

Faz uma pergunta mais fácil (risos). Gosto de algumas coisas, outras não. A pergunta é muito complexa para uma resposta monossilábica. No geral, viver aqui é difícil, a vida é corrida, cansativa, as pessoas são duras.

Ok. Então me diz do que você menos gosta.

Muitas vezes tento pegar um táxi e se eles não querem te levar, simplesmente te ignoram. Tudo parece ser longe, você tem que fazer muitas baldeações no metrô. Os restaurantes tiram férias no verão, no almoço fecham cedo. Os happy hour também acabam cedo e daí fica tudo muito caro. Os bares são chatos, se você for homem e sair sozinho, nem sempre te deixam entrar. Uma vez eu estava em um pub, no Grand Boulevard, com um amigo e convidei outro. Mas o porteiro não o deixou entrar, mesmo sabendo que estávamos lá dentro o esperando. Era um dia desemana nada de especial acontecendo. Isso me tira do sério. Ah! Eu também não gosto do inverno. Eu nunca fico aqui no final do ano.

E do que você mais gosta?

Paris é muito charmosa, adoro andar pelas Ilhas de Saint Louis e La Cité, ver a Notre Dame, passear pelas pontes, pelo Sena. A partir de Paris, posso ir a qualquer lugar na Europa com trens saindo de dentro da cidade, isso facilita. O chocolate aqui é de qualidade.

Paris revela surpresas pontuais, recentemente me encontrei com o Gromov no metrô, um dos matemáticos mais respeitados do mundo, fiquei muito feliz.

O sistema de saúde é eficaz e me deixa tranquilo. E andar pelas ruas é seguro, você não precisa se preocupar por onde está andando.

Qual a grande diferença entre viver no Rio e em Paris?

No Rio eu me sinto mais saudável, vou mais à academia, à praia, faço tudo a pé. Em Paris, sinto falta de encontrar casas de sucos a cada esquina para tomar um açaí. E as pessoas fumam menos.

Você convive com os parisienses? Gosta ou não deles?

Convivo com brasileiros e franceses que vivem em Paris. Os parisienses “de berço” tem seus circuitos sociais já bem construídos, o que torna a interação mais difícil.

O que mudou nos seus hábitos parisienses ao longo destes 14 anos?

No início, eu frequentava ópera, teatros e concertos. Atualmente, prefiro coisas mais informais.

O que você faz atualmente para se divertir?

Vou a happy hour tomar coquetéis com os amigos do trabalho, vou à academia, às vezes me encontro com amigos brasileiros. Frequento bons e acessíveis restaurantes, mas não abro mão de ir uma ou duas vezes ao ano em um excelente restaurante.

Quais bons restaurantes de Paris você já experimentou?

Tour d’Argent, L’Ambroisie, Pierre Gagnaire, Guy Savoy, Grand Véfour.

Fale um pouco da sua rotina de trabalho em Paris?

Bom, passo uma média de 2 a 3 meses em Paris, depois um tempo similar no Rio. Mas viajo para vários lugares do mundo para participar de Congressos.

Em Paris, tenho dois escritórios: um na Universidade Paris VII, perto da Bibliothèque Nationale de France, e outro na Universidade Paris VI, em Jussieu.

Não gosto de ler para evoluir, quando vou aos meus escritórios, prefiro conversar com meus co-autores algumas horas por semana. Passo a maior parte do tempo em casa, na internet e, às vezes, resolvendo grandes problemas matemáticos.

As preferências de Artur

Um lugar: as Ilhas do Sena

Uma comida: magret de canard

Uma sobremesa: sorvete Bertilhon, cacau-whisky

Um restaurante sofisticado: Le Grand Véfour

Um restaurante com bom custo-benefício: Languedoc

Um vinho: Borgonha, especificamente o Gevrey-Chambertin

Uma cor que represente Paris: cinza

Um filme em Paris: O Último Tango…

Uma grande personalidade francesa: Henri Poincaré

Se você quiser saber o que Artur Avila faz como matemático, recomendamos a matéria escrita por seu amigo pessoal, João Moreira Salles, para a revista Piauí. Na sua opinião, esta é a única matéria realmente precisa sobre o seu trabalho:

Da Revista Piauí

Artur Avila tem um problema *

por JOÃO MOREIRA SALLES

* Trecho inicial do perfil do matemático brasileiro vencedor da medalha Fields. Assinantes têm acesso integral aqui. Este perfil voltará às bancas na sexta-feira, numa edição especial da revista. Nela, a piauí conta a história de como a matemática brasileira chegou lá.

Abordo de um avião da United Airlines para Nova York, o matemático Welington de Melo pediu um copo de vinho. Seu companheiro de viagem, Artur Avila, pediu outro. A aeromoça desconfiou: “Que idade você tem?” Artur tinha 19 anos, com jeito de menos, e ficou sem o vinho. Era a sua primeira viagem profissional. Havia sido confiado aos cuidados de seu orientador de doutorado, mas, em terra, sua mãe ainda não se tranquilizara inteiramente com a decisão de deixá-lo partir para os Estados Unidos.[1]

Sob lei seca, Artur desembarcou no aeroporto JFK e seguiu com Melo para a Universidade de Stony Brook, no litoral norte de Long Island, a cerca de cem quilômetros dali. Corria o ano de 1999. Os dois iam ao encontro de Mikhail Lyubich, codiretor do Institute for Mathematical Sciences, centro de excelência em pesquisa matemática. Lyubich vinha da Ucrânia, onde a reputação de matemático brilhante não o livrara dos obstáculos pequenos e grandes de um judeu na antiga União Soviética. Mantido longe dos grandes centros acadêmicos do país, fora descoberto por um colega americano e emigrara para os Estados Unidos, onde agora integrava a direção do IMS. O encontro havia sido combinado meses antes, quando Lyubich, a convite de Melo, viera ao Rio participar de uma conferência no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o Impa.

Ao receber os brasileiros em Stony Brook, Lyubich acabava de escrever uma série de artigos em que provava os seus achados mais importantes. “Pouquíssimas pessoas compreendiam de fato do que se tratava”, comentou recentemente, “e Welington era uma notável exceção. Foi dele a proposta de que o Artur explorasse essa linha de pesquisa.” Melo, na época com 53 anos, havia se doutorado em 1972, e Lyubich, então com 40 anos, obtivera o PhD em 1984. Artur, nascido em 1979, era um estudante ainda à cata de um bom problema para sua tese de doutorado. Até a véspera, chegava ao Impa levado pela mãe, Lenir, que achava mais prático esperar por ali do que voltar para buscá-lo.

Os representantes das três gerações passaram um mês jogando ideias de lá para cá, num estilo de fazer matemática que só pede um quadro-negro, giz e espaço para andar de um lado para o outro. As conversas, diárias, aconteciam nas salas do instituto, na casa de Lyubich, em restaurantes ou durante as caminhadas pelos bosques em torno da universidade. A colaboração entre eles era possível porque a matemática é refratária a hierarquias. “A prova é a prova”, diz Artur, referindo-se ao caráter irrefutável da verdade. Um jovem que acaba de chegar pode falar de igual para igual com gente já estabelecida. Ou mais que isso: “Volta e meia, assombrado, eu percebia que o Lyubich e eu estávamos um pouco atrás do Artur”, lembra Melo. “Ele era tão jovem… Eu me esquecia disso e tomava um susto.”

Um dia ele e Artur foram a Nova York ouvir a palestra de um matemático. No Village, bairro conhecido pela fartura de restaurantes, saíram atrás de um lugar para comer. Melo se lembra da impossibilidade de conciliar os gostos: “Eu perguntava: ‘E esse coreano, Artur?’, e ele respondia: ‘Nunca provei.’ ‘Esse italiano?’ ‘Não conheço.’ Imagine, não conhecer comida italiana. O Artur acabou almoçando no McDonald’s. Ele sabia pouca coisa do mundo.”

Ao cabo de um mês de intensas discussões, o trio divisava uma estratégia clara para resolver o problema que os absorvia, mas a prova ainda não estava ao alcance. Havia um obstáculo que se recusava a ceder. Lyubich e Melo decidiram deixá-lo nas mãos do garoto. “Isso foi em março”, lembra Artur. “Fiquei com o problema na cabeça e uns meses depois, em setembro ou outubro, tive uma ideia esquisita.”

Um teorema não pode ser desfeito, escreveu o grande matemático inglês G. H. Hardy. A matemática é a única ciência que lida com a verdade, o que se comprova em qualquer biblioteca: a literatura matemática é perene, enquanto a das outras ciências se torna rapidamente obsoleta. Dois mil anos de história não acrescentaram uma ruga ao teorema de Pitágoras. Salvo por interesse histórico, ninguém mais estuda o sistema solar de Ptolomeu. Já Euclides continua de pé. A matemática funciona por acúmulo, e não por substituição.

A validade permanente das verdades matemáticas se relaciona com o fato de ela estar apartada do mundo real, fora do tempo e das circunstâncias do universo. O matemático e filósofo francês Henri Poincaré escreveu que a descoberta matemática é o processo mental que menos toma de empréstimo elementos do mundo exterior. A mente se alimenta da mente. O início clássico de um tratado de geometria diz: “Vamos considerar três sistemas de coisas. As coisas que compõem o primeiro sistema nós as chamaremos de pontos; o segundo, de linhas; o terceiro, de planos.” Coisas. A matemática obriga a lidar com os objetos mais remotos e inumanos que a mente dos homens já concebeu, diz o belga David Ruelle.

Artur Avila, 30 anos, barba sempre por fazer, doutor em matemática pelo Impa, vive entre a França e o Brasil. Em Paris, trabalha no Centre National de la Recherche Scientifique, o CNRS, instituto estatal de fomento à pesquisa. No Rio, é pesquisador do Impa. Vem acumulando prêmios cada vez mais importantes. Os grandes centros de pesquisa matemática do mundo convocam a sua presença e muitos gostariam de contratá-lo. Quando um não iniciado pede que ele explique o que faz, Artur coça os olhos. “O meu trabalho é um pouco difícil de explicar. Eu estudo a estrutura de operadores. Faz sentido, operadores? Operador é uma matriz infinita e simétrica. Esse operador tem um espectro…”

E assim vai, mas ninguém precisa se sentir constrangido. É comum os matemáticos não compreenderem o que um colega faz. Existe um trabalho de um vietnamita de 37 anos, Ngô Bâo Châu, parado há mais de um ano na mesa do editor-chefe de uma prestigiosa revista de matemática. As implicações do artigo parecem ser formidáveis, mas todos os especialistas consultados para referendar a publicação disseram-se incompetentes para atestar se está correto ou não.

Carlos Gustavo Tamm Moreira, conhecido como Gugu, colega e colaborador de Artur, um sujeito bonachão de 36 anos que distribui sua paixão entre a matemática, o Flamengo e o Partido Comunista, conta uma anedota de quando se candidatou a vereador pelo PCB. O programa eleitoral lhe dava 18 segundos para se apresentar ao público. Acelerando a toada, ele metralhava: “Olá, eu sou o Gugu, candidato a vereador pelo Partidão com o número 21603. O meu trabalho vocês já conhecem: eu provei que as interseções estáveis de conjuntos de Cantor regulares são densas na região onde a soma das dimensões de Hausdorff é maior do que 1.” É uma brincadeira, mas traduz a natureza rarefeita do mundo habitado por matemáticos.

A física estuda o mundo natural; a biologia, os organismos vivos. São ciências cujo objeto está ao alcance da compreensão do leigo. A matemática é um pouco diferente, embora imaginemos conhecê-la. Ela seria aquilo que aprendemos na escola – aritmética, geometria, álgebra, análise combinatória –, apenas levado às últimas consequências. Em teoria, a proposição não está errada. Na prática, a diferença entre a matemática da escola e a dos centros de pesquisa se mede não em graus de complexidade, mas em saltos de qualidade, como se a matéria dos bancos escolares fosse a lagarta e a alta matemática, a borboleta. Imagine-se alguém que jamais tivesse visto a segunda. Para essa pessoa, seria impossível, da lagarta, intuir a borboleta. Essa pessoa somos todos nós, os não matemáticos.

O trabalho de Artur é pensar borboletas. No seu vocabulário, elas são chamadas de objetos – infinitos, complexos, caóticos, únicos, imensos, previsíveis, prováveis, elegantes, belos, monstruosos. Esses adjetivos, todos eles, integram o léxico dos matemáticos, alguns com uso preciso e técnico, outros como recurso para descrever atividades do espírito. Os objetos só existem como coisa mental. Ninguém sabe onde habitam. Os matemáticos ainda não chegaram à conclusão se o que fazem é inventar ou descobrir os seus objetos. “Onde está tanta ordem?”, é a maneira como Artur formula a questão, que de resto não lhe interessa responder por não ser um problema matemático.

A moeda corrente da matemática é o que alguns chamam de crédito-teorema, que serve para valorar a quantidade e a qualidade dos problemas resolvidos. Por essa conta, na geração de Artur, pouquíssimos matemáticos acumularam tantos pontos. De janeiro a novembro do ano passado, ele produziu no mínimo seis grandes trabalhos. Na Califórnia, decidiu enfrentar um problema surgido em 1964 e popularizado em 1980, depois que um físico prometeu dez martínis a quem o solucionasse. Em colaboração com uma colega ucraniana, Artur encontrou a prova do que ficara conhecido na literatura como “o problema dos dez martínis”. Na mesma semana em que demonstrou ser falsa uma conjectura na qual matemáticos vinham trabalhando havia anos, teve uma iluminação que lhe permitiu avançar significativamente num de seus projetos mais ambiciosos: construir, sozinho, a teoria geral de um problema nascido na física.

Artur, como vários matemáticos formados no Impa, trabalha com sistemas dinâmicos, área que investiga as leis de processos que evoluem no tempo. Surgiu com os estudos de Newton sobre o movimento dos planetas. Hoje, teoremas de sistemas dinâmicos são ferramentas para descrever a evolução de epidemias, provar que toda previsão meteorológica de mais de cinco ou seis dias vale tanto quanto uma moeda lançada no ar ou descrever impactos demográficos produzidos por essa ou aquela mudança de parâmetro. Tome-se uma população de lobos. Se existem poucos espécimes, haverá fartura de comida e a população crescerá. Inversamente, um número grande de lobos produzirá escassez de alimentos e decréscimo da população. O sistema dinâmico descreverá a maneira como essa população progride: trata-se de saber, a partir das condições do presente, o que esperar do futuro.

Muitas vezes o que se espera é a regularidade. Uma bola lançada numa cuia estacionará no fundo. Um pêndulo oscilará entre dois pontos. Sistemas com um número finito de estados, que repetem padrões, são chamados de regulares. Existem sistemas dinâmicos que se comportam de maneira mais interessante, e estes constituem a especialidade do Impa. A princípio, eles evoluem de maneira previsível. Subitamente, porém, de maneira violenta, deixam de ter um padrão reconhecível e se tornam irregulares. São sistemas extraordinariamente sensíveis a pequenas discrepâncias iniciais. A sabedoria popular diz: “Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura; por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo; por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro; por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha; por falta da batalha, perdeu-se o reino.” Sistemas dinâmicos preveem o impacto do prego sobre a instabilidade do reino.

Quando o comportamento de um sistema deixa de apresentar qualquer padrão, ele é chamado de caótico. Caos pode significar muitas coisas. No caso, é um conceito que exprime tudo o que não se pode saber sobre o futuro. Na ausência de certezas, descreve-se, com detalhamento infinito, como o sistema se modificará: até este ponto ele evoluirá de maneira regular, oscilando entre tais e quais estados; a partir deste ponto será caótico, apresentando estas e aquelas características.

A fumaça do cigarro sobe como uma fina coluna até que, por razões que independem da brisa ou do movimento da mão, ela se esgarça e passa a formar arabescos de trajetória imprevisível. É uma boa imagem para um sistema complexo que evolui da regularidade para o caos. Tomando-se a primeira molécula de fumaça saída do cigarro, pode-se prever sem dificuldade qual será sua posição futura dali a um segundo. Dali a dez segundos, porém, a molécula terá se esgarçado, e será impossível antecipar onde estará.

Lyubich, Melo e Avila são dinamicistas da não regularidade, especialistas em caos. Haviam se reunido em Stony Brook para estudar uma determinada classe de sistemas de características caóticas. Não estavam preocupados com lobos nem pêndulos. Trabalhavam apenas com modelos matemáticos, mas, por analogia, era como se quisessem compreender a região acima do ponto de dissipação da fumaça. O que acontecia ali?

Usavam uma técnica matemática que permite penetrar, como um batiscafo, nas mais ínfimas estruturas desse espaço. Tomavam um pequeno intervalo da região dos arabescos e o colocavam sob um microscópio puramente lógico. O espaço se ampliava, como um zoom do Google Earth. Ao analisar a ampliação, viam que, dentro da desordem, cercadas de caos por todos os lados, havia pequenas áreas de ordem – pequenas colunas regulares de fumaça, por assim dizer. Punham então esse mínimo espaço ocupado pela coluna regular no microscópio e de novo, ao ampliá-lo, encontravam outra vez, por toda parte, fumaça sem forma entremeada por minúsculas ocorrências de fiapos regulares.

Seguiram assim, nesse mergulho vertiginoso por intervalos cada vez menores. Não era novidade que, ao tomar qualquer ponto de um espaço caótico, perto dele sempre se acharia uma janela de ordem. Mas os espaços regulares e caóticos – ou estocásticos, como preferem os matemáticos – aparecem intercalados de maneira complexa, e o que os três fizeram foi mostrar a universalidade dessa organização. Descobriram a lei que rege o comportamento de toda uma classe de sistemas que evoluem para o caos, como se a descrição da fumaça explicasse também a transformação das nuvens, o percurso de um galho na cachoeira ou o giro das folhas num vendaval.

 

Em janeiro de 2009, dez anos depois de Stony Brook, Artur acordou de madrugada no apartamento do Leblon que comprou com sua mulher, a economista Susan Schommer, uma moça gaúcha que faz pós-doutorado no Impa. “E agora? Tento dormir de novo ou penso um pouco?” Decidiu pensar. Ficou ali, no escuro, olhando para o teto. Do lado de fora, os últimos foliões de algum bloco pré-carnavalesco se arrastavam pela rua, cantando e caindo. Do lado de dentro, nada além de um homem parado na cama, de olhos abertos, ao lado da mulher que dormia.

Contudo, havia movimento. Sem se mexer, Artur começou a girar objetos matemáticos na cabeça, como alguém que contorna uma estátua para vê-la de todos os ângulos. Estava retomando um problema que deixara de lado seis anos antes, por não saber como prosseguir. “Fiquei pensando de maneira gentil”, ele conta. Era um pensamento meio à deriva, sem âncora: “Eu tinha dois objetos, mas não sabia como um se relacionava com o outro. Tinha batido num muro.” Até aquela madrugada, ele só vira o objeto como duas partes isoladas, sem encaixe. De repente, veio: “Mas se eu mudo a perspectiva, ele se revela como isso. Ele é isso. Posso seguir adiante.” A sensação era a mesma de quem se concentra nas formas esfaceladas de um quadro cubista e, dando um passo para trás, quem sabe outro para o lado, consegue finalmente recompor a figura – ali está a mulher, o violão e a partitura. Tudo é uma coisa só.

Ainda no escuro, Artur começou a calcular as consequências do seu novo ponto de vista e percebeu que conseguia produzir muito mais informação. “A narrativa já tinha engordado”, explica. Seu objeto, que até então não revelara muito de si, começou a gerar histórias cada vez mais fantásticas, como se ele tivesse encontrado o segredo daquelas caixinhas de surpresa hermeticamente fechadas que, a um golpe certeiro, abrem-se num festival de bandeirinhas, bonecos de mola e música de circo. Artur ficou excitado, mas voltou a dormir. “Nem anotei, não tenho medo de esquecer as minhas intuições.”

No dia seguinte, decidiu “atacar o objeto por todos os lados” – o vocabulário dos matemáticos é pródigo em metáforas bélicas. “Foram dez dias, dezoito horas por dia. Tecnicamente, era muito difícil, mas a ideia estava lá.” Passava o dia andando em círculos no apartamento. Volta e meia parava, olhava para o teto, fazia uns riscos no papel para ajudar o raciocínio. “A maior parte do trabalho acontece na cabeça. A sensação é de absorção total. Me lembro de abrir um espumante que estava na geladeira. A rolha explodiu, o vinho começou a escorrer e eu não agia, ficava só olhando aquilo e pensando: ‘Não era pra ele estar escorrendo, normalmente isso não acontece…’”

A cada momento, coisas cada vez mais improváveis aconteciam com o objeto – exatamente o que Artur desejava. Ele buscava uma prova por contradição: se estivesse errado, o objeto era monstruoso, “coisas horrorosas aconteciam com ele”. Objetos matemáticos podem ser fáceis de visualizar (um círculo) ou muito complexos (aqueles com os quais Artur quase sempre trabalha), mas, para existir, todos precisam ser dotados de uma característica: ser lógicos. Objeto horroroso é aquele que revela características que acabam por anulá-lo, como se possuísse uma anomalia genética tão grave que tornasse a vida impossível.

“Continuei assim até encontrar uma contradição. Depois de uma semana de trabalho, a prova por absurdo estava feita. Minha conjectura era verdadeira.” Artur acabava de dar um passo significativo para solucionar um problema que se originara na física: a equação de operadores de Schrödinger quase-periódicos – aquilo que tentou explicar depois de um longo silêncio. Até então, tinha-se uma compreensão parcial do problema. Ele intuiu a possibilidade de empregar sistemas dinâmicos para entendê-lo globalmente.

Artur costuma acordar por volta do meio-dia. Trabalha muito na cama e preza o tempo morto. Acha que transporte público é um ótimo lugar para fazer matemática, uma das razões pelas quais não gosta de carros. Já teve ótimas ideias nos longos trajetos do metrô parisiense. Em 2008, durante um voo Rio–Paris, decidiu pegar um problema com o qual andava brigando há dois anos. “Acho que foi entre um filme e outro daquela televisãozinha”, diz. Foi girando as coisas na cabeça e, surpreso, viu que a complexidade se reduzia a uma expressão simples. Quando o avião pousou no aeroporto Charles de Gaulle, tinha resolvido o problema – descobrira mais uma peça do quebra-cabeça de Schrödinger.

Artur prefere “fazer conta de cabeça” – e por “conta” não se entenda tábuas de multiplicação, mas construção de ideias, geografias mentais com vales, picos, dobras, abismos, descontinuidades. “Papel é força bruta. Na cabeça não dá pra manipular objetos muito grandes, e isso me obriga a fazer contas mais simples”, explica. Ele isola as características que mais lhe interessam e descarta o acessório: “Faço uma caricatura do objeto.”

Seu pensamento alterna expressões formais com palavras do dia a dia. “Num paper que escrevi com o Gugu, a gente classificou os objetos como objetos bons, muito bons, excelentes e, quando os excelentes tinham algumas características a mais e se tornavam os melhores objetos possíveis, eram objetos cool.”

Também existe “o lado negro”, um lugar onde “você encontra coisas horríveis, particularmente detestáveis, que violam a tua capacidade de compreensão”. Um problema se transforma numa geografia dividida em regiões maçantes, paraísos e infernos. Nos lugares maçantes, todo comportamento é regular. É a Suíça. Nos paraísos, acontecem coisas interessantes e inesperadas. No inferno as provas falham, e é preciso mostrar que tudo lá desaparece, como em Hiroshima. (assinantes podem ler o resto do perfil aqui).

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  1. Franbeze

    15 de agosto de 2014 7:16 pm

    É muito bom saber

    que um brasileiro ganhou a Medalha Fields. É muito mais difícil ganhar essa medalha do que ganhar o Nobel, pois a Medalha Fields só é dada a cada quatro anos e o candidato não pode ser um aniversariante de quarenta anos no ano da premiação, mesmo que o seu trabalho em Maremática seja o melhor de todos os tempos.  

    1. JigSawJr

      15 de agosto de 2014 7:44 pm

      Franbeze, a dificuldade

      Franbeze, a dificuldade consiste no fator ‘idade’, no qual o Medal Fields tem um limite e o Nobel não…

      A cada 4 anos são distribuidas de 3 à 4 medalhas no MD, então nesse caso seria uma por ano em média!

       

      Abs

  2. alexis

    15 de agosto de 2014 7:47 pm

    Não é brasileiro

    Artur é carioca, hoje naturalizado francês. Morando em Paris há 14 anos.

    1. Gerson Pompeu

      15 de agosto de 2014 9:17 pm

      A bem da verdade.

      Ele passa o mesmo tempo lá e aqui, como se pode ler na entrevista (“Bom, passo uma média de 2 a 3 meses em Paris, depois um tempo similar no Rio”).

      Quanto à nacionalidade, deve tê-la dupla, assim como eu. Me naturalizei francês, sem perder a brasileira.

    2. Ganhou mais por ser

      17 de agosto de 2014 8:03 am

      A cidadania  francessa e o

      A cidadania  francessa e o tralhado que obteve certtamente ajudou. Mas o fundametal mesmo, fora o brilhatismo dos seus trabalhos, é exatamente ser brasileiro. Pois, nesse mundo todo sabe da nossa tragédia educação e da escatologia que é o ensino de matemática. E se quiser saber, aviso, deixe e-mail, se ficar dependo de qualquer mídia do Brasil, vai ficar sem saber da missa um milésimo

  3. Iara G

    15 de agosto de 2014 8:03 pm

    Que pena que isto não se replica facilmente

    Parece fácil fazer matemática

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=ZYrPMwtSRDs%5D

     

  4. adolpho

    15 de agosto de 2014 8:07 pm

    Tá… e ele está em paris há

    Tá… e ele está em paris há 14 anos, é naturalizado frnacês e vem a babacolândia  dizer que o recebimento do prêmio é função dos esforços em educação que o Governo Lula-Dilma aplicou no país… Cruz credo!

    1. Reefresco para memória

      16 de agosto de 2014 5:24 am

      Governo dá calote e Impa vai

      Governo dá calote e Impa vai de novo a leilão

       

      04/02/2004

      http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2004/02/04/523629/governo-da-calote-e-impa-vai-novo-leilo.html

       

       

  5. Gilson AS

    15 de agosto de 2014 10:23 pm

    O jovem não tem cara de CDF

    O jovem não tem cara de CDF tradicional.

    Tem um estilo bem carioca.

    Parece que está de bem com a vida.

    Que bom !

    Que Deus os abençoe e livre-o dos olhos gordos.

  6. Não aprender matemática é doença genética

    16 de agosto de 2014 3:43 am

    SEM HABILIDADE COM NÚMEROS,

    SEM HABILIDADE COM NÚMEROS, Junia Oliveira, O Estado de Minas, 08/06/2010

    Fonte: http://wwo.uai.com.br/EM/html/sessao_18/2010/06/08/interna_noticia,id_sessao=18&id_noticia=141062/interna_noticia.shtml

     

    Consta em relatos disto em:                    

    http://www.exkola.com.br/scripts/noticia.php?id=34579041

    http://blog.opovo.com.br/educacao/sem-habilidade-com-numeros/

    http://isaude.net/z9h8, europsicologia e genética decrifram causas e

    consequências da discalculia,  Saúde Pública

    http://vghaase.blogspot.com/, acesso,  ag/10

    http://discalculialnd.blogspot.com/,   acesso,  ag/10

    – Decifrando uma incógnita, http://www.ufmg.br/boletim/bol1698/4.shtml,  acesso,  ag/10

    – Pesquisa dos Laboratórios de Neuropsicologia e de Genética da UFMG pode ajudar a desvendar causas e consequências da discalculia, 7 de junho de 2010

    http://www.ufmg.br/online/arquivos/015678.shtml

    – Neuropsicologia e genética decrifram causas e consequências da discalculia,

    ISaúde.Net, Saúde Pública, http://isaude.net/z9h8, acesso ag/10

     

    Doença que dificulta aprendizado de matemática é alvo de especialistas

    http://saude.ig.com.br/minhasaude/doenca+que+dificulta+aprendizado+de+matematica+e+alvo+de+especialistas/n1597074737032.html

  7. Não acredito

    16 de agosto de 2014 9:57 pm

    [ Quando o comportamento de

    [ Quando o comportamento de um sistema deixa de apresentar qualquer padrão, ele é chamado de caótico.]  O que sei é que quando o sistema não se explica pelas teorias que já conhecemos, vamos tentar criar outra que explique e, portanto, o antes caótico pode ficar lindamente regular, previsível.

  8. Não é isso

    16 de agosto de 2014 10:01 pm

    [  Um teorema não pode ser

    [  Um teorema não pode ser desfeito, escreveu o grande matemático inglês G. H. Hardy. A matemática é a única ciência que lida com a verdade, o que se comprova em qualquer biblioteca: a literatura matemática é perene, enquanto a das outras ciências se torna rapidamente obsoleta. Dois mil anos de história não acrescentaram uma ruga ao teorema de Pitágoras.]  Por ser uma criação do homem, esses mesmo vão limpando e até escondendo as mazelas. Não é   0º  ?

  9. Outro lado

    16 de agosto de 2014 10:25 pm

    Que foi um feito glorioso,

    Que foi um feito glorioso, isso não se  tasca do Ávila. Porém, vejamos outras vozes, já que ciência da visão única é burrice ao quadrado.

    1 – ¨  O matemático presumo normalmnete  que a imagem que forma  de si  mesmo é a única  que deve ser tomada em  consideração.  Será que admiriríamos  a mesma pretensão  a qualquer outra irmandade esotérica? Ou não seria considerada  mais fiável  uma descrição  imparcial proferida  por um observador exterior  e informado do que a um participante possivelmente  incapaz de de notar, quanto mais questionar, as convicções dos seus pares?

     

    2 – ¨É evidente que, se o aluno for incapaz de absorver o nosso modo de pensar, chumbá-lo-emos. Se sobreviver à nossa corrida de obstáculos e depois decidir que os nossos argumentos  são pouco claros ou  incorretos, repudiá-lo-emos  como um excêntrico ou um inadequado ¨

    Fonte: A EXPERIÊNCIA MATEMÁTICA, Philip J. Davis, e Reuben Hersh, Ed. Gradiva, pág. 56

  10. Se quiser

    16 de agosto de 2014 10:57 pm

    Se alguém quuser discutir

    Se alguém quuser discutir ensino da matemática no Brasil, eis um ponto

     

    NOVO OLHAR SOBRE A MATEMÁTICA,

    http://www.jornalbeiradorio.ufpa.br/novo/index.php/2011/124-edicao-93–abril/1189-novo-olhar-sobre-a-matematica

     

     

     

     

  11. marly RUBIO GARCIA

    7 de março de 2016 9:26 pm

    PALESTRA ARTUR AVILA PARA 8º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL

    COMO FAÇO PARA CONSEGUIR UM COTATO COM ARTUR AVILA PARA REALIZAR UMA PALESTRA NA ESCOLA EM QUE TRABALHO, SOU PROFESSORA DE MATEM´TICA, PEDI UM TRABALHO SOBRE A VIDA DELE, E SERIA MUITO INTERESSANTE PARA  OS ALUNOS DO ESTADO DE SP ESCOLA PUBLICA TIVESSE UM CONTATO DIRETO A ESSE NOVO OLHAR DA MATEMÁTICA, QUE ELES TANTO RECLAMAM DE DIFICULDADES NO APRENDIZADO.

    PEÇO QUE PENSEM COM CARINHO NESSA POSSIBILIDADE, DIU AULA DE TERÇA Á SEXTA FEIRA DAS 13 ATÉ 18:20 H.

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