5 de junho de 2026

Bora junto?, por Mariana Moreira

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Bora junto?

por Mariana Moreira

Ontem fui roubada no Centro do Rio. Levaram tudo: cartão de débito e crédito, documentos, bilhete único, meu amado alelo refeição, Iphone, maquiagem, caderno com meus textos… tudo. Só me sobrou a alça da bolsa.

Quatro homens e uma mulher, aparentemente sob efeito de drogas e em situação de rua, abordaram minha amiga e eu, quando voltávamos de um curso de Hacking Cívico.

Sim, a gente estava discutindo política e democracia antes de sermos roubadas.

Não vou dizer que o coração não doeu, que as lágrimas não desceram e que meu corpo todo não ficou anestesiado. Mas depois de abraçar meus pais e agradecer por estar bem, percebi que a militância é cada vez mais necessária.

A situação que vivi é o desenho do desarranjo social. Resolvi, durante a madrugada, rascunhar uma análise bem rasa: As pessoas que me assaltaram refletem como a sociedade fecha os olhos para o problema de saúde pública que são as drogas e prefere ignorar os marginalizados que perambulam, dormem pelas calçadas e utilizam entorpecentes.

Nós não queremos vê- los. Preferimos negar a existência à buscar uma solução humana e eficiente.

Dá no que dá.

A delegacia onde fui prestar queixa estava lotada de pessoas que haviam sido pegas em flagrante. Todos homens negros.

Sintomático quando analisamos o racismo estrutural e institucional no país, que insiste em negar direitos básicos como educação e empurra a população preta para a invisibilidade. Mas alguns dizem que somos vitimistas, quando não apontam o racismo reverso. (haha)

Os Policiais Militares, que foram muito respeitosos e atenciosos comigo, estavam nitidamente cansados. Tive uma breve conversa com eles e percebi o quanto a rotina é maçante, doída e sem condições. Não é de graça que exigimos uma polícia que não só mate menos, como também morra menos. Eles morrem aos montes.

O Estado financia não só o extermínio da população negra e pobre, como também empurra seus funcionários na direção da bala.

Nessa madrugada, tentei provocar um revirão e entender essa bosta de acontecimento como uma reafirmação das minha idéias. Interpretei o assalto como uma mensagem do além: “Coé, Mari, ta lutando pelas causas certinhas. Continua, garota. Vamo tentar mudar isso aí.”.

Não sou ingênua em acreditar que vou mudar o mundo, mas faço o que posso pra defender a democratização de oportunidades, a humanização do olhar sobre os excluídos, uma política honesta e voltada para os mais pobres e um sistema educacional de qualidade e universal.

É isso, Freud pode achar que criei essa narrativa para aliviar minha dor, mas acho que faz sentido e alimentou minha vontade de viver um país menos doente. Sei que tem MUITA gente nessa missão. Bora junto.”

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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8 Comentários
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  1. joel lima

    4 de agosto de 2017 3:08 pm

    O pior, Mariana, é que os que

    O pior, Mariana, é que os que nos governam não estão só não vendo as pessoas marginalizadas – eles estão vendo essas pessoas como não-gente. Dória é o exemplo mais claro dessa tragédia. 

  2. Fernando

    4 de agosto de 2017 3:19 pm

    Mais do mesmo.

    Mariana,

    seu texto me remete à minha juventude.

    Nos idos de 88 ( se não me trai minha velha memória ) uma cena me causou inveja.

    Reportada na capa dos jornais cariocas, as fotos de um assalto a uma mulher ( ou um casal, não lembro ) francesa. Turista.

    O motivo da minha inveja ? A mulher que teve o cordão de ouro assaltado, chamou o ladrão e deu tambem os brincos a ele.

    Ao invés de odiá-lo ela demonstrou amor.

    Acho que nenhuma outra atitude poderia gerar melhor resultado que aquela, porque quebra a ciranda odiosa em que vivemos.

    Naquela idade ( final de adolescencia) eu queria ser capaz de ter atitudes assim, no meu íntimo eu pensava ser capaz, mas na prática eu agia de forma oposta, ou seja , o que eu pregava não condizia com os meus atos. Por isso confesso, senti uma inveja daquela mulher.

    Para felicidade minha o tempo ensina. O tempo e os exemplos. Assistindo ao filme O contador de histórias ( o brasileiro , não o Forest Gump ) me deparei com outra francesa que me levou de volta àquela cena, porém, sem a inveja.Hoje, acredito ser capaz de atitude semelhante.

    Se ainda não viu eu recomendo que assista o filme.

    O ódio gera mais ódio, a violencia gera mais violencia. Temos que parar com isso , temos que quebrar esse ” mais do mesmo “.

    Gentileza gera gentileza, já dizia o profeta.

     

  3. Fernando

    4 de agosto de 2017 3:23 pm

    Last But not least

    Bora junto !!! Sempre. Com força e com coragem.

  4. LucianaMota

    4 de agosto de 2017 3:25 pm

    Bora junto, Mariana.
    Quando

    Bora junto, Mariana.

    Quando viramos estatística, o negócio é tentar mudar os números, não mudar a gente.

    Abs.

    Luciana Mota

  5. Rui Ribeiro

    4 de agosto de 2017 3:41 pm

    Foram-se os anéis mas os dedos ficaram intactos

    Não justifico o assassinato dos policiais, mas se eles matarem menos, eles morrerão menos.

    Uma polícia que mata pretos, pobres e putas a três por quatro não deve esperar flores de tais pessoas, pois toda ação provoca uma reação de mesma intensidade, mesma direção, porém de sentidos opostos.

  6. Antonio C.

    4 de agosto de 2017 6:07 pm

    Parece que se discutia

    Parece que se discutia política sem economia e sem povo.

  7. Anabela Olímpia

    4 de agosto de 2017 6:43 pm

    Reflexão pertinente, verdadeira e necessária.

    Passar por tal situação e encontrar reflexões válidas é algo a ser admirado. 

    Pelo senso comum, da maioria, seria caso para reafirmar que “bandido bom é bandido morto”, “tá vendo como eles não prestam?”, “tem mais é que matar”…. ” tá com pena leva pra você..”…

    Conheci esse canal agora e já gostei demais. 

    Bora junto sim! 

     

     

  8. Serjão

    4 de agosto de 2017 8:10 pm

    Bora

    Mariana:

    Um abraço.

    Vamos precisar de todo mundo,

    Um mais um é sempre mas que dois.

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