Por Janio de Freitas
Crise, crises

Uma expressão tem sido frequente, com pequenas variações formais, a respeito da presente situação política: “Crise complexa”. Tanto serve para qualificar o endurecimento do jogo político, como a aparente dificuldade de destrinchar o seu emaranhado.
De fato, nenhuma das faces que compõem a situação é simples. Sequer no interior de si mesmas. Mas o conjunto oferece muita nitidez na delimitação dos campos alimentadores da fermentação.
Um desses campos é o Congresso, com a presidência de Eduardo Cunha na Câmara e, em menor grau, com a de Renan Calheiros no Senado. O primeiro emergiu de surpresa para o país, para o governo e até para o Congresso. E mesmo para a imprensa. Prevenido por tê-lo visto em atividade no Rio, tentei chamar a atenção para as características do emergente e para o que esperar dele, mas nem aqui entre jornalistas suscitei interesse pela novidade interferente.
Eduardo Cunha foi descoberto já por seu domínio de uma rearrumação perturbadora na Câmara e, com a força daí obtida, pela ação em duas linhas associadas. Uma, a bem-sucedida condução de temas polêmicos para fáceis aprovações. Outra, a hostilidade –prática e sem discurseiras de valentão– às iniciativas avulsas e ao “ajuste fiscal” de Dilma. Presidente, para ele, é outra pessoa: é Eduardo Cunha. E sabe como impor seus desejos e conveniência, incluído sob este domínio personalista até o PSDB, que se pretendia paradigmático da modernidade política e da capacitação.
Esse PSDB trouxe uma novidade não menos surpreendente que a de Eduardo Cunha. Inconformado com a derrota na eleição presidencial, Aécio Neves incentivou a bancada do partido na Câmara a uma combinação de irracionalidade e radicalidade cujo propósito, contaminando dentro e fora do PSDB, não é fazer oposição: é retirar Dilma da Presidência. Trata-se de um campo gerador de fermentação próprio do PSDB, não decorrente da reviravolta na Câmara por Eduardo Cunha.
A Lava Jato são duas: como ação policial/judicial e como ação política, esta como efeito da associação entre a primeira e meios de comunicação. É desnecessária qualquer observação sobre os reflexos da Lava Jato na política, no governo e na opinião pública.
Pior do que a fraqueza política do governo é se tratar de governo ruim. Pouco se salva na multidão de ministérios, e o que se salva ou está esquecido, ou está sob fogo do que sobra como base política do governo. Se não bastasse, o confuso e inconvincente “ajuste fiscal” é, sozinho, um fator de fermentação mais potente e geral do que os outros.
Mais do que uma crise bojuda, difusa, sem delimitações com razoável clareza para avaliação das forças, o que se tem é a simultaneidade de situações críticas. Não propriamente, portanto, uma crise complexa, caracterizada pela oscilação e o difícil dimensionamento de forças.
Na situação atual, o Congresso, que faz uma apelidada reforma política, está em crise de natureza: não corresponde ao que lhe prescreve a Constituição e não está a serviço da democracia.
O PSDB contribui para a crise do Congresso com sua própria crise de identidade. O Social do nome esvaiu-se com o desaparecimento de Franco Montoro e Mario Covas. O espírito de democrata, pelo visto, depende de vencer eleição. Mas, sobretudo, não guarda sequer vestígios disfarçantes quando invadido pela ambição de conquistar o poder sem eleição. A divisão é desequilibrada, mas no PSDB os irados não tomaram tudo, persistindo um quadro de crise ainda bem escondida.
Essas duas erupções críticas têm a mesma origem. A adoção da truculência anti-Dilma pelo PSDB e a difícil realidade do governo foram originados na decisão da própria Dilma de surpreender o país com a entrega da área mais decisiva do governo, a sua identidade, a Joaquim Levy. Isso imobilizou as forças de defesa que pudesse ter. Deixou-a mais exposta aos desejosos de derrubá-la. E alimenta o panorama de crise com o insucesso e o desagrado produzidos pelo “ajuste” de Levy.
Mas esta crise do governo é a única com potencial, se solucionada, de abafar, em parte ou no todo, a do Congresso e a guerra à condição de Dilma de presidente eleita.
Wagner
9 de julho de 2015 12:43 pmErrata
Manchete errada: O que o Janio disse é que a “solução” da crise do governo pode abafar a crise do congresso e a guerra do PSDB!
Ana Torres
9 de julho de 2015 1:38 pmE qual seria a solučão para a
E qual seria a solučão para a crise ? Jânio não aponta um caminho.
Celso Giovannetti Brambilla
9 de julho de 2015 2:33 pmCumprir o propósito a que se elegeu.
Prezada Ana Torres.
Leia no texto como o jornalista Jânio e o nosso próprio Nassif demonstram a surpresa eleitoral de conduzir a politica econômica de maneira contrária ao discurso eleitoral. A eleição foi praticamente um plebiscito e dava todas as forças para se negar à proposta de PSDB- Aécio de aplicar o Neo Liberalismo enfático e no entanto o que vimos foi a negação da maioria e seu prejuízo moral ao embarcarmos nessa política medíocre de Levy e companhia. Com relação às opções políticas de montar um ministério fraco e sem ganhos políticos (mais do mesmo) também leia no texto a contradição para com o “plebiscito” e a traição para quem votou na proposta vencedora e se vê alheio ao processo.
Atenciosamente.
Ana Torres
9 de julho de 2015 1:08 pmResumindo
Governo fraco, sem poder e sem identidade, política económica equivocada, péssimos ministros, um Congresso que não representa, uma opisição nula. Falta de credibilidade geral, falta de verdadeiras lideranças. O que aconteceu com o Brasil ?
gabi_lisboa
9 de julho de 2015 1:09 pmCom essa frase “”decisão da própria Dilma de surpreender o país
com a entrega da área mais decisiva do governo, a sua identidade, a Joaquim Levy” o Janio resumiu toda minha frustração e de muitas outras pessoas com a Dilma. Fazer um segundo mandato tão descaracterizado de um governo de centro-esquerda não tem perdão, ou ela muda radicalmente sua atuação, ou ela vai acabar o mandato com o país destruído por medidas burras, que foram rejeitadas nas eleições. Como disse o Veríssimo, sua reeleição foi um referendo que disse não ao a essa política econômica tacanha, ela não tinha o direito de trair sua base de maneira tao gritante.
Doney
9 de julho de 2015 4:51 pmE há os portadores da doença
E há os portadores da doença infantil do governismo aqui no blog que, a cada crítica que se faz a esse desgoverno, julgam-te fascista, tucano e afins.
Cansa.
Ronaldo Souza
9 de julho de 2015 2:34 pmManchete errada
Concordo com tudo que Jânio de Freitas disse.
Mas concordo também com o comentário de Wagner. A manchete está equivocada.
Ana Torres
9 de julho de 2015 4:30 pmSim, Celso, eu entendi. Mas
Sim, Celso, eu entendi. Mas você acha que essa solução seria plausível ? Deletar esses 7 neses de 2o. mandato, começar do zero demitindo Levy, montar um novo ministério e conseguir a governabilidade no Congresso com ECinha e Renan ? Nada é impossível, mas uma guinada dessas a essa altura acho difícil. Ela teria, além de todas as dificuldades, que admitir que errou e isso ela não faz.
Celso Giovannetti Brambilla
9 de julho de 2015 7:09 pmmas foi a opção dela . .
Prezada Ana Torres.
Lembre-se de que ficamos os dois primeiros meses estáticos sem saber o que se faria, nem ministério, nada foi ventilado e depois as surpresas, não votaria nunca em Aécio, mas a política da Presidência é cópia disso e como posso apoiá-la? Não foi isso a que nos propuseram e acabamos sem saída, nem Aécio e muito menos Dilma defende uma opção para trabalhadores.
Ana Torres
9 de julho de 2015 4:32 pmSim, Celso, eu entendi. Mas
Sim, Celso, eu entendi. Mas você acha que essa solução seria plausível ? Deletar esses 7 neses de 2o. mandato, começar do zero demitindo Levy, montar um novo ministério e conseguir a governabilidade no Congresso com ECinha e Renan ? Nada é impossível, mas uma guinada dessas a essa altura acho difícil. Ela teria, além de todas as dificuldades, que admitir que errou e isso ela não faz.