13 de junho de 2026

Maracanazo: 64 anos depois, documentário tenta descobrir se Brasil superou trauma

Mais de seis décadas após perder a Copa em casa, o Brasil tem, pela primeira vez, a oportunidade de curar o trauma nacional causado pela derrota para o Uruguai dentro do Maracanã.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O episódio, que ficou imortalizado pelo termo cunhado pelos próprios uruguaios, Maracanazo, foi a maior tragédia da história do futebol brasileiro e marcou para sempre a vida dos jogadores da seleção de 1950.

Durante os treinos da seleção na semana passada, na Granja Comary, um dos assuntos mais recorrentes eram o fantasma da Copa de 50 e a expectativa dos jogadores de poder enterrá-lo de uma vez por todas.

O capitão Thiago Silva reconheceu em entrevista a jornalistas que a seleção sabe da “pressão” para ganhar o título em 2014. Carlos Alberto Parreira, coordenador técnico da seleção, disse que a derrota para os uruguaios está “entalada na garganta”.

Mas será que uma eventual derrota brasileira na final desta Copa poderia causar o mesmo trauma de 50?

Esta foi uma das questões que o documentário de rádio do Serviço Mundial da BBC, CliqueThe Burden of Beauty, tentou responder. O programa, cuja segunda parte vai ao ar na próxima quarta-feira, abordou as pressões – dentro e fora dos estádios – que o Brasil sofre por disputar o Mundial em casa.

Amadurecimento

Tim Vickery, especialista da BBC em futebol da América do Sul, acha que a nação lidaria muito melhor com a derrota porque “amadureceu”.

Ele aponta que “as batalhas” da sociedade brasileira não são mais travadas dentro de campo, como aconteceu em 50.

“Aquele time representava muito mais do que futebol porque simbolizava tudo o que a sociedade da época aspirava alcançar”.

Maracanã em 1950

Maracanã tinha capacidade para 200 mil e foi durante anos o maior estádio do mundo

“Hoje o debate sobre que tipo de país é o Brasil acontece fora dos estádios, nas ruas, com os protestos que pedem melhoria dos serviços públicos. Isto é muito positivo, porque demonstra como o país amadureceu nesses 64 anos”.

O jornalista Juca Kfouri concorda. Para ele, é inegável que um revés da seleção em casa seria muito triste e doloroso, mas não seria traumatizante como a primeira vez.

Primeiramente porque, desde 1950, o Brasil ganhou cinco campeonatos e, segundo, porque hoje o país vive uma fase político-social diferente.

“Em 1950, não era só um jogo de futebol. Era um momento decisivo de afirmação nacional. Era para ser o início de uma nova era em que o mundo veria o Brasil moderno. Mas a gente perdeu”.

“Para os brasileiros a derrota se traduziu no sentimento de que ‘não somos bons em nada na vida’, porque ao ser incapaz de vencer uma Copa no Brasil, em uma partida em que precisavam só do empate, o impacto causado foi: nós não servimos para nada”.

‘País do futuro’

Destruídos pela Segunda Guerra Mundial, nenhum país europeu tinha condição de abrigar a primeira Copa do pós-guerra. O Brasil foi candidato único à sede do Mundial de 1950.

Desde a década de 40, o Brasil vinha sendo visto como “o país do futuro” e buscava se destacar no cenário internacional. Em 1950, o país recebe a Copa e anuncia ao mundo que o “futuro é agora”.

Em pouco mais de dois anos as autoridades brasileiras construíram o Maracanã, estádio com capacidade para 200 mil pessoas e que durante décadas foi o maior do mundo.

Parte da era de ouro da arquitetura brasileira, que dez anos depois culminaria com a construção de Brasília, o Maracanã revelou o espírito ousado do brasileiro e é futurístico com sua forma semelhante à de uma nave espacial.

Após passar com facilidade pelo México, Suécia e Espanha, a seleção chega à final contra o Uruguai, no dia 16 de julho, precisando apenas do empate.

Friaça abre o placar para o Brasil no segundo tempo. Aos 22 minutos, Schiaffino empata, mas a Copa ainda é nossa. Treze minutos depois, o ponta Ghiggia calou o país: Uruguai 2 a 1.

Naquele dia fatídico, o Maracanã reunia quase 200 mil pessoas. Ao final da partida, tudo o que se ouviu foram soluços.

Bife e alface

O goleiro Barbosa foi acusado de falhar no segundo gol da Celeste Olímpica e se tornou o grande bode expiatório do fracasso.

Em entrevista à BBC anos depois, ele relembrou o assédio que a seleção sofreu no dia do jogo.

“Para vocês terem uma ideia, no dia do jogo sentamos para almoçar e eu consegui comer um pedaço de bife e um alface”.

“Vieram seis ou sete políticos, inclusive Ademar de Barros, que era candidato à Presidência. A coisa ficou tão ruim que quando o Flávio (Costa, técnico) viu que a gente não ia conseguir comer, nos colocou no ônibus e fomos para o Maracanã comer sanduíche”.

Na manhã do jogo, os jogadores, que haviam sido transferidos da calma concentração de São Conrado, na Zona Sul, para a movimentada sede do Vasco da Gama, em São Januário, foram acordados para participar de uma missa às 7h.

Poucas horas depois, o prefeito do Rio de Janeiro Mendes de Morais faz um discurso se referindo aos jogadores como “campeões”.

Apesar de cenário semelhante parecer improvável nos dias de hoje, é inegável que o time atual esteja sofrendo a mesma pressão que pesou sobre Barbosa, Zizinho, Ademir e companhia.

Pé no chão

Carlos Alberto Torres, capitão da lendária seleção tricampeã de 70, recomenda cautela.

“O Brasil jogando em casa é uma faca de dois gumes. Pode até atrapalhar de tanta pressão. Sou contrário a que o Felipão e o Parreira fiquem toda hora na televisão anunciando o favoritismo do Brasil”, disse em entrevista à BBC Brasil.

“Isso não é bom. É necessário que tenhamos confiança, porém muito pé no chão e respeito aos adversários”, afirmou, acrescentando que o Brasil tem condições de estar entre os quatro melhores do campeonato.

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, cedido à BBC Brasil, Ademir, artilheiro de 50 com nove gols, lembrou como o clima de “já ganhou” atrapalhou o time:

“Eu tive a maior decepção que o futebol pode dar a um atleta. Mas foi uma lição muito proveitosa, a de que no futebol não existe vitória antecipada”.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

8 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. anarquista sério

    7 de junho de 2014 2:49 pm

     
    Carlos Alberto Torres é um

     

    Carlos Alberto Torres é um poço de ignorância. E nem levo em conta este comentário.da mesmice tipo: “Eu tive a maior decepção que o futebol pode dar a um atleta. Mas foi uma lição muito proveitosa, a de que no futebol não existe vitória antecipada”.

    UAU!! Que novidade!! Quanta profundidade!!!

    Sua ignorância é lendária. Desde os primórdios…

     

     

  2. sergio m pinto

    7 de junho de 2014 3:19 pm

    Com “tanta gente” enchendo o

    Com “tanta gente” enchendo o saco dos jogadores, por enquanto interrompendo treinos, é possível que seja recriado o clima da copa de 50, onde colocaram 200 kilos de peso na camisa dos jogodores. A partir disso, fica uma pressão enorme sobre o time, que é capaz de não render o que pode.

    Depois, virá a caça às bruxas. Dessa vez, pelo menos, o goleiro é branco.

  3. Orlando

    7 de junho de 2014 3:45 pm

    Nada a ver

    A discussão é anacronica e já caducou. Boa parte do jogadores brasileiros da copa de 1950 já morreu. Bem como boa parte dos torcedores. Ademais, depois de 1950 o Brasil já foi campeão 5 vezes. Trauma do quê?

    1. anarquista sério

      7 de junho de 2014 3:59 pm

      Orlando: Meus dedos estavam

      Orlando: Meus dedos estavam engatilhados pra escrever exatamente isso.

               Aí li seu comentário e desiti.

                   Depois de 5 copas ganha( ninguém no mundo ganhou 5) que trauma é esse?

                     Isso é trauma que a imprensa pretende colocar em nós.

                           E de uma maneira sórdida, porque parece que precisamos resgatar algo que não existe.

                              Seria absolutamente normal ,nós perdermos a Copa.E nem assim seriamos superados em quantidade de títulos.

                                Trauma ? Mas que mané trauma?

                                     Ganhando ou perdendo,ainda seremos o maior ganhador de Copas do Mundo.

                                              Papo furado,meu.

  4. Celso Junqueira

    7 de junho de 2014 4:10 pm

    1950

    1950 já faz parte da História. Nada poderá mudá-la. O Brasil pode ganhar quantas Copas puder sempre derrotando os uruguaios que não fará diferença nenhuma. NADA apagará o Maracanazzo.

  5. implacavel

    7 de junho de 2014 5:33 pm

    Complexo de Vira-latas

    Em 1950 o complexo de vira-latas só apareceu após a derrota para o Uruguay, atualmente o complexo de vira-latas rege a conduta de nossa mídia e parte da polulação brasileira.

  6. Adelina

    7 de junho de 2014 9:32 pm

    a visão do outro lado

    Há poucos dias, zapeando pela tv, assisti uma reportagem legal, sim pasmem no sportv. Mérito da jornalista que encontrou vários uruguais que souberam externar opiniões bem interessantes. Um dos entrevistados foi um cineasta que estava lançando um documentário sobre o maracanazo e o que ele disse foi que basicamente se aprende melhor com as derrotas, disse que o Brasil superou o trauma sim, ao se tornar uma potência no futebol com 5 títulos mundiais; enquanto o Uruguai ficou preso nesta glória do passado e não avançou. Só a última seleção do Uruguai, que foi ao mundial da África do Sul voltou a empolgar, com seu 4º lugar. Uma uruguaia disse outra coisa interessante, que eles sabem que são pequenos em todos os sentidos (país com 3,5 milhões de habitantes), que ficam entre os 2 maiores países da América do Sul, em território, em população e no protagonismo no futebol. Argentina e Brasil sempre disputam como favoritos. Os uruguais só querem que sua seleção jogue com garra, se ganharem estão no lucro.

  7. -Charlie-

    8 de junho de 2014 3:57 am

    Em 1950 meu pai tinha dois

    Em 1950 meu pai tinha dois anos de idade.

    Hoje ele tem 66, faz 67 no final do ano.

    Não se lembra de absolutamente nada daquela copa; aliás, pouco se recorda da de 58, a primeira que vencemos, pois tinha apenas 10 anos.

    Ou seja, um senhor quase septuagenário não tem nenhuma lembrança da copa de 50.

    Mas nossa “grande mídia”, faz questão de lembrar todos os dias essa desgraça, de reavivá-la, de dizer que existe um “fantasma”… Mesmo depois de termos ganhado 5 títulos, 2 na américa do norte, 1 na do sul, 1 na europa e 1 na ásia, coisa que ninguém chegou nem perto… Mesmo sendo recordista de títulos, apesar de não ter ganhado em casa (todos os demais campeoes mundiais ganharam um título em casa, salvo a Espanha).

    Enfim, a “nossa” mídia regurgitando o seu vira-latismo e complexo de inferioridade de sempre. 

Recomendados para você

Recomendados