
na Caros Amigos
por Frei Betto
(Artigo escrito em 24 de janeiro de 2017, por ocasião da internação de Dona Marisa Letícia)
Se há uma mulher que não pode ser considerada mero adereço do marido é Marisa Letícia Lula da Silva. Conta a fábula que, tendo sido coroado, o rei nomeou para o palácio um lenhador que, na infância, fora seu companheiro de passeios pelo bosque. Surpreso, o pobre homem escusou-se frente à tão inesperada deferência, alegando que mal sabia ler e não possuía nenhuma ciência que justificasse sua presença entre os conselheiros do reino. “Quero-o junto a mim – disse o rei – porque preciso de alguém que me diga a verdade”.
Marisa não tem a vocação política de Lula, mas sua aguçada sensibilidade funciona como um radar que lhe permite captar o âmago das pessoas e discernir as variáveis de cada situação. Por isso, é capaz de dizer a Lula verdades que o ajudam a não se afastar de sua origem popular nem ceder ao mito que se cria em torno dele. A simplicidade talvez seja o predicado que ela mais admira nas pessoas.
Nascida em São Bernardo do Campo, numa família de pequenos sitiantes, ela guarda a firmeza de caráter de seus antepassados italianos. Comedida nas palavras, a ponto de preferir não dar entrevistas, não faz rodeios quando se trata de dizer o que pensa, doa a quem doer. Por isso não pode ser incluída entre as tietes do marido. Nos palanques, prefere ficar atrás e não ao lado de Lula. A admiração recíproca que os une não impede que, ao vê-lo retornar de uma maratona de reuniões, às 3 da madrugada, ela o convoque para criticar o desempenho dele numa entrevista na TV ou compartilhar decisões domésticas.
| “Tanto quanto Lula, Marisa conhece as dificuldades da vida. Décima filha de Antônio João Casa e Regina Rocco Casa, cresceu vendo o pai carregar a charrete de verduras e legumes que ele plantava e vendia no mercado” |
Marisa é, com certeza, a única pessoa que, no cara a cara, não corre o risco de se deixar enredar pela lógica política do marido. Defensora intransigente de seu próprio espaço, não chega a ser o tipo de esposa que compete com o parceiro. Sabe que seus papéis são diferentes e complementares. Mas ninguém é aceito na intimidade dos Silva sem passar pelo crivo dela, que sabe distinguir muito bem quem são os amigos do casal e quem são os amigos de Lula.
Tanto quanto Lula, Marisa conhece as dificuldades da vida. Décima filha de Antônio João Casa e Regina Rocco Casa, cresceu vendo o pai carregar a charrete de verduras e legumes que ele plantava e vendia no mercado. Se o sítio era pequeno, suficiente para assegurar a precária subsistência da família de onze filhos, o coração dos Casa era grande o bastante para acolher os necessitados. Dona Regineta – como era tratada sua mãe – ficou conhecida como benzedora em São Bernardo do Campo pois, na falta de médicos e de recursos, muitas pessoas a procuravam, especialmente quem padecia de bronquite.
A filha estudou até a 7ª série. Ainda criança, viu-se obrigada a conciliar a escola com o trabalho, empregando-se como babá na casa de um sobrinho de Portinari. Aos 13 anos de idade, tornou-se operária na fábrica de chocolates Dulcora. Do setor de embalagem Marisa foi promovida a coordenadora de seção antes de, aos 20 anos, trocar a Dulcora por um cargo na área de educação da prefeitura de São Bernardo do Campo, onde trabalhou enquanto solteira.
Em 1970, ela se casou com Marcos Cláudio dos Santos, motorista de caminhão. Seis meses depois, ele morreu assassinado, quando dirigia o táxi do pai, deixando Marisa grávida do filho Marcos, que Lula considera seu primogênito. Em 1973, ao recorrer ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo para obter um pecúlio deixado pelo marido, Marisa conheceu Lula. De fato, foi paquerada dentro de um verdadeiro cerco estratégico montado pelo presidente do sindicato, que ouvira falar de uma “lourinha muito bonita” que andava por ali. Lula tentou convencê-la de que também era viúvo, sem que a moça acreditasse, até ver o documento que ele, de propósito, deixara cair no chão. A primeira mulher de Lula, Maria de Lourdes, morrera em 1971, com o filho que trazia no ventre, em consequência de uma hepatite mal curada. Em maio de 1974, Lula e Marisa se casaram. Da união nasceram os irmãos de Marcos: Fábio, Sandro e Luís Cláudio.
Depois de deitar os filhos, ela acompanhava as telenovelas sem entusiasmo. E, com razão, se queixava da difícil tarefa de atender a mais de cem telefonemas por dia, muitas vezes sem conseguir convencer os interlocutores de que ela não controla a agenda do marido, não sabe se ele poderá ou não participar de um evento em Porto Alegre ou no Recife e, muito menos, o que ele pensa do último pronunciamento do ministro da Fazenda.
Em abril de 1980, ela passou pela prova de fogo, quando Lula esteve preso no DEOPS de São Paulo, devido à greve de 41 dias. Preocupada com a segurança dele, sempre fez questão de abrir a porta quando estranhos batiam, evitando expor o marido. No mesmo ano, fez o curso de Introdução à Política Brasileira, promovido pela Pastoral Operária de São Bernardo do Campo. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, abriu sua casa para as reuniões do núcleo petista que se organizara no bairro Assunção, onde moravam. O engajamento da mulher levou Lula a participar mais diretamente das tarefas domésticas. Mas é ela quem cuida das finanças da casa.
| “Embora Marisa prefira, em política, o papel de assessora mais íntima do marido e não goste de fazer discursos e nem mesmo ser o centro das atenções, ela não dispensa a oportunidade de participar de conversas políticas” |
Embora Marisa prefira, em política, o papel de assessora mais íntima do marido e não goste de fazer discursos e nem mesmo ser o centro das atenções, ela não dispensa a oportunidade de participar de conversas políticas. Seja qual for o interlocutor, Lula jamais pede a Marisa que se retire, exceto para buscar um café. No fogão, ela prefere o trivial: arroz, feijão, bife e salada de alface com tomate, embora o seu prato predileto seja camarões e um bom copo de vinho. O cardápio especial fica por conta do marido que, de italiano, só tem o apetite: espaguete a carbonara. Para quem chega, há sempre uma xícara de café. Sair sem aceitá-la é considerado quase uma ofensa. E ela se compraz em ler toda a correspondência que o marido recebe nos comícios, bem como em distribuir estrelinhas do Partido às crianças.
Habilidosa na arte do silk-screen, Marisa fez a primeira bandeira do PT, num tecido vermelho trazido da Itália. Em 1981, montou em casa uma pequena oficina para estampar camisetas com símbolos do Partido, inclusive criações de Henfil. Para a campanha de Lula a deputado federal, em 1986, ela chegou a estampar cerca de vinte mil camisetas, vendidas para angariar fundos. Ciosa de sua privacidade familiar vira uma fera quando a imprensa tenta entrar pela porta de sua casa ou incluir seus filhos no noticiário. Em tais situações, só o cuidado das plantas é capaz de acalmá-la.
Desprovida de vaidade, Marisa se veste pelo figurino do bom gosto, evitando a sofisticação. Compra a roupa que lhe agrada, sem conferir a etiqueta. Ela sempre foi sua própria manicure e pedicure. Avessa a protocolos, gosta mesmo é de ficar entre amigos, cercada de muita planta e água, em qualquer lugar em que os filhos possam se divertir, livres das normas de segurança. Um bom jogo de buraco, o papo solto, o marido de bermudas ao seu lado e o telefone desligado – é o que basta para deixá-la em paz.
Frei Betto é escritor, autor de Um hoemem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros

teresinha
2 de fevereiro de 2017 8:29 pmChe il Signor la riceva con
Che il Signor la riceva con amore
Robson Santos
2 de fevereiro de 2017 8:42 pmA cada depoimento – de
A cada depoimento – de desconhecidos ou de alguém que já admiro – lido sobre Marisa Letícia Lula da Silva, mais me enterneço e percebo o porquê deste grande homem sempre querer ter ao lado tão admirável mulher… Sinto por sua passagem e pela grande perda familiar. O Brasil ficou ainda mais pobre, menos humanitário… perdemos todos.
Anna Dutra
2 de fevereiro de 2017 10:05 pmCompanheira
Recebida pelos afetos, quedará à espera do esposo. O que o amor uniu, nada separa.
Uma vida, tantas vidas, bafejadas pela força e maternal presença. Que esteja agora com os seus e em Paz.
maria rodrigues
3 de fevereiro de 2017 12:06 amE Dona Marisa Letícia virou
E Dona Marisa Letícia virou uma Estrelinha. Onde ela se encontra agora? Está, por certo, como contam os que passam por esse estado, dento de um túnel iluminado, livre de dores, vendo imagens de santos, e sendo conduzida para um lugar tranquilo, cheio de plantas, de muita paz e felicidade. É o que desejo a essa Mulher grandiosa, maravilhosa, que sempre admirei e até invejei pelo modo com ela soube ser cativante por um marido que só soube lhe dar amor e muita segurança.
Que Deus conforte coração de Lula, de seus filhos, e de todos, que mais próximos foram de Dona Marisa, também compreendam os desígnios de Deus.
Estou muito, muito triste com a partida de Dona Marisa, que tinha tudo pra continuar vivendo, acompanhando seu marido. Mas, seja oq ue tenha acontecido para levá-la ainda tão jovem e bonita, que nada no mundo seja capaz de manchar a imagem dela.
jose carlos lima...
3 de fevereiro de 2017 8:58 amLembro de Dona Marisa pé no chão
Lembro de Dona Marisa pé no chão sorridente numa passeata descendo na rua aqui perto de casa, gostei do seu jeito simples.
classe media bizarra se deliciando em cima do cadaver de Dona Marisa enquanto os verdadeiramente corruptos, que tomaram de asalto o poder, lhes roubam o quanto podem e da forma como podem….assim nosso pais sob a batuta destes imbecis vai parando e parece que não percebem: em goiania o BRT, obra da Dilma, foi parado por força do uso politico da Lava Jato para destruir o pais e as empreiteiras brasileiras que serao substituidas pelas estrangeiras mais corruptas ainda….e enquanto o pais é parado pela Lava Jato que poupa os tucanos, Temer doa bilhoes de reais as teles.
E certos classes media festejando a morte de uma mulher sabidamente honesta
por falar nisso o Eike pagou 16 milhoes em propinas esta preso….e o Serra q recebeu 23 milhoes em propinas esta solto…
mas o problema era Dona Marisa! Muitos não sabem o que é lawfare, o uso das leis e das Instituições como arma de guerra contra desafetos políticos, segue links
Direito Penal do Inimigo, da Alçada a Lava Jato
https://jornalggn.com.br/blog/jose-carlos-lima-spin/direito-penal-do-inimigo-da-alcada-a-lava-jato
O Cafezinho: Zanin explica na espanha o que o lawfare
http://www.ocafezinho.com/2017/01/28/video-exclusivo-em-amsterdam-zanin-relata-bizarrias-kafkianas-do-processo-contra-lula/
Em 2004 Moro pensou a Lava Jato como operação de guerra (do PSDB, cujos interesses ele Moro representa, contra o PT).
http://www.cartacapital.com.br/politica/como-a-lava-jato-foi-pensada-como-uma-operacao-de-guerra-5219.html
Brnca
3 de fevereiro de 2017 12:44 pmEstrelas
Se este país tiver algum astrônomo de porte alto ao descobrir daqui para a frente uma nova estrelinha brilhando na imensa abóboda celeste que nos cobre deveria chamá-la (sim por que não?) Donamaris. Estrelas que sempre brilharam por aqui pelo seu coração enorme também brilham por lá.