
Simplício estava se preparando para levar Angeline para conhecer alguns economistas ortodoxos em São Paulo quando ouviu no Jornal Nacional a notícia de que a economia brasileira se tinha comportado muito bem no segundo trimestre, batendo todas as economias do mundo, exceto a da China. Era algo a ser comemorado. Estranhamente, não foi o que aconteceu na televisão. O comentário padrão dos economistas ortodoxos ouvidos pela Globo era que era preciso fazer mais, isto é, aumentar os juros.
– Amor, disse Angeline para Simplício, interrompendo a Globo, por que será que todo economista ouvido pela Globo tem uma opção preferencial pelo aumento da taxa de juros? Se a economia vai mal, tem que aumentar a taxa de juros. Se a economia vai bem, tem que aumentar a taxa de juros. Se a economia fica no mesmo lugar, tem que aumentar a taxa de juros. Por que será?
– Muito provavelmente porque a Globo ouve economistas, geralmente de bancos ou de consultorias privadas, que têm interesse próprio em aumentar a taxa de juros, respondeu Simplício lembrando-se do que ouvira de alguns economistas heterodoxos.
– Simples assim?
– É, simples assim. Claro, os economistas ortodoxos que insistem em forçar o governo a aumentar a taxa de juros, e ganham dinheiro com isso, não são muito explícitos. Em geral, são capazes de justificar suas opiniões com modeles matemáticos sofisticados e raciocínios engenhosos. Mas tudo é uma farsa.
– Puro charlatanismo, então?, disse Angeline, que gostava de dar nome aos bois.
– Seria apenas uma mistificação a mais do sistema de economia política neoliberal se por trás de cada meio ponto de aumento da taxa de juros não estivesse alguma s dezenas de milhares de desempregados e famílias na miséria. Claro, o povo não sabe as causas.
– Se soubesse, não sairia da rua. E em vez de ficar cutucando Cabral por conta de corrupção, acrescentaria uma avalanche de protestos, com ou sem mascarados, por conta da corrupção maior que é transferir bilhões de reais para especuladores financeiros toda vez que a taxa básica de juros sobe. Isso, sim, é escândalo impune. O coitado do vice-presidente do Lula, José Alencar, morreu protestando quase solitário contra isso. Infelizmente, na época, não havia manifestações na rua exigindo uma nova política. Agora temos, mas falta um Alencar para liderar os protestos. Exceto talvez o senador Roberto Requião.
– Como é que a gente acaba com essa farra?, perguntou Angeline, pensando logo em pintar uma faixa e sair arregimentando gente para obrigar o Banco Central a pensar duas vezes antes de continuar aumentando a taxa de juros, e menos de uma vez para reduzi-la.
– Muito difícil, Angeline. A gente tem que ser realista. Uma coisa é exigir passe livre, algo que diz respeito diretamente ao interesse das pessoas, e outra é exigir juros baixos, o que atinge as pessoas apenas indiretamente. Na verdade, o “sistema” se beneficia disso para perpetuar-se.
– Mas podemos colocar isso na agenda da campanha presidencial do próximo ano. A gente pode puxar uma fila de jovens cidadãos que só apoiarão candidatos que tenham por compromisso fundamental fazer do Banco Central um instrumento do desenvolvimento e da geração de emprego, e não apenas um protetor da especulação.
Simplício mostrou para Angeline o que acabara de escrever na agenda vermelha: “Vamos libertar o Banco Central dos banqueiros e submetê-lo ao povo.”
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