4 de junho de 2026

Da Bíblia, da ciência e questões paralelas

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Não vejo novidade nenhuma na pesquisa de Margareth Hunter, que percebe que a ordem de eventos no Gênesis é condizente com a ordem cronológica de eventos geológicos.

Já faz pelo menos algumas décadas, senão mais de um século, que são feitas tentativas de ponte entre Bíblia e Ciência, o que leva a interpretar a Bíblia como um livro de moral, leis, história e ciência de sua época. Qualquer semelhança com a wikipedia não é coincidência. Nesse contexto, cada dia do Gênesis deve ser visto como uma época histórica, deixando os humanos para o fim do processo. Metaforicamente estamos no 7º dia (algo como os últimos 200 mil anos?). Não é absurdo e recentemente (em 2010) Bento 16 se declarou fortemente a favor do evolucionismo (o fato de na mesma ocasião ele criticar a antropologia de gênero é toda uma outra discussão…)

Isso não quer dizer que essa parte em especial tenha inspiração divina. O que também não quer dizer que pessoas que tenham compilado a Bíblia não tenham recebido pelo menos alguma intuição espiritual.

Não é óbvio que Moisés tenha recebido conceitos e informações diretamente do Criador. Muito mais provável é que tenha recebido, de modo já filtrado e em sua vida, conhecimentos provenientes da observação de centenas de pesquisadores anteriores.

De qualquer modo, ressalvado que documentos religiosos NÃO DEVEM ser usados como base para legislação em sociedades laicas, como interpretar, grosso modo, tudo isso?

Eu vejo a Bíblia, que nunca li, da qual todos conhecem muitas passagens de tanto que é citada e/ou mostrada em filmes e/ou explicada em catecismos, como a compilação de todo o conhecimento da época. Pelo menos em torno do Mediterrâneo e Oriente Médio.

Isso envolveu a experiência e conhecimento de cientistas, juristas, filósofos que reuniram e analisaram o que ouviram e/ou leram até então. Envolve também mistificadores, claro (e a Wikipedia moderna também tem artigos ‘fake’.)

Temos então, repetindo, um livro de História, de Ética, de Direito, de folclore e, também, científico.

As discussões que sempre surgem – e nunca terminam – sobre a existência ou não de Deus, pouca razão têm para continuar se observarmos que se trata apenas de uma disputa de poder temporal, com um lado buscando atrair mais receptividade e credibilidade que o outro.

Podemos resumir mais ou menos assim:

– as eras geológicas são apresentadas na forma de dias de criação como uma metáfora. Cada dia do Gênesis representa um período de até centenas de milhões de anos. Eventos como o mito do Dilúvio podem ser associados a fatos verificáveis como degelos ou maremotos;

– a ciência reduz progressivamente o campo para as mistificações, encontrando explicações para quase tudo sobre o que paira (ou pairava) alguma dúvida. Doutrinas religiosas sérias aceitam a explicação científica quando esta for cabal e representar que alguma coisa equivocada em livros religiosos deve ser abandonada;

– religiosos devem aceitar que havia limitações para o conhecimento científico e de sociedade. Querer usar no século XXI interpretações ao pé da letra do que se falava há 3 mil anos atrás é contrário ao bom senso em muitas situações;

– cientistas ateus podem se conformar de que não encontraram ainda uma explicação cabal e definitiva para o Big Bang e/ou origem de tudo. Por seu turno, teólogos podem se conformar que, a partir disso, tudo o mais encontra explicação na ciência laica;

– a Bíblia não é o único livro do seu gênero e o Cristianismo representa apenas cerca de 15% da Humanidade. É de bom tom, portanto, respeitar os demais, inclusive (e talvez principalmente) os não-crentes;

– fenômenos como a popularidade do criacionismo (entendido aqui não como origem divina da criação universal, mas o conjunto de crenças que levam pessoas a aceitarem que o homem possa, por exemplo, ter convivido com dinossauros) são apenas culturais. Essa crença em particular surgiu nos EUA no início do século XX. Apesar da visibilidade recente, nesse país e em outros, de teorias fundamentalistas como a do ‘Design Inteligente’, trata-se de algo histórica e geograficamente circunscrito;

– não há conflito em uma outra acepção do termo criacionismo (entendido agora como a origem divina do Todo) com o “Evolucionismo”, pensado a partir de Mandel ou Darwin, que explica satisfatoriamente os movimentos históricos e cientificamente comprováveis de especiação entre animais e plantas após o surgimento da vida (e/ou da “alma”). A paleontologia, a biologia e a física modernas não podem ser contestadas por interpretações religiosas e não vale a pena discutir isso;

– se é possível encontrar validação para passagens da Bíblia, também é tão fácil quanto encontrar contradições e erros;

– não apenas em ciências naturais se encontram confirmações ou superações de conhecimentos, o mesmo é válido para as ciências sociais. Basta pensar que o princípio jurídico de retaliação foi progressivamente substituído pela necessidade, apresentada em trabalhos recentes, de prevenção e redução racionais dos crimes. Um outro exemplo: toda a ideologia reprodutiva, permeada de machismo e que ainda sobrevive na ciência laica na forma de ‘psicologia evolutiva’, está sendo rapidamente desmontada pelos inconscientes coletivos, que não obedecem a discursos pseudomoralistas.

Sendo assim, de modo geral, é infrutífero ou mesmo desnecessariamente desgastante se preocupar demais com isso tudo. Basta ser respeitoso (sempre) e atento a eventuais manipulações (sempre e sempre.) O que é certo e verdadeiro sempre aparecerá. Quer seja por pesquisa científica, quer seja por algum modo de inspiração das intuições.

Como já lá se vão séculos em que cientistas, filósofos e teólogos estão discutindo isso tudo, dou pouca probabilidade de que surja um consenso em conversas de blog. Contanto que ninguém tente colocar religião em política e legislação já é um imenso benefício. Até porque boa parte do mundo é de não-teístas ou ainda não-monoteístas e… ninguém merece!

E fica a sugestão de trilha sonora pra essas discussões…

DNA

Gusttavo Lima

Ele tem, a química divina da transformação
Sabe onde tocar pra gerar ação
A vida dele é verbo, verbo faz viver

Ele vai, além do impossível e da utopia
Tem à mão a biotecnologia
A vida de quem vive e de quem vai nascer

O seu poder é soberano não dá pra falar
Ele faz a Terra flutuar e até girar
Ele agita o oceano, cria o vento, componentes da vida

Faz a nuvem virar chuva pra molhar o chão
A semente vira planta, se transforma em pão
faz o Sol iluminar a Terra e deixá-la aquecida

Ele faz, a lagarta do casulo não ser mais aquela
Transformando em borboleta branca ou amarela
Lhe dá asas e ainda lhe ensina a voar

Ele faz, em qualquer matéria orgânica a transformação
Mesmo ainda que o feto seja o embrião
Ele define aparências e como será

Ele conta os neurônios de uma mente humana
Ele multiplica células e uma membrana
Conhece nossa genética e nosso DNA

Nem no céu nem na Terra
Há um Deus maior
Ele faz, e refaz
Ele é Deus
O resto é pó (X2)

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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