30 de junho de 2026

Vira Latas em Teerã, por Paulo Moreira Leite

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Da Istoé

Vira Latas em Teerã

por Paulo Moreira Leite

Acordo assinado em Genebra foi rascunhado por Lula, Erdogan e Ahmadinejad em 2010. O massacre foi geral 

O caráter colonizado de grande parte de nossos observadores diplomáticos teve poucos momentos tão vergonhosos como em maio de 2010. Naquele momento, Brasil, Turquia e Irã assinaram um acordo nuclear que, em seus traços essenciais, era um rascunho bem feito do acerto fechado ontem, em Genebra, com apoio de Estados Unidos, China, Reino Unido, França e Alemanha. 

Após três anos e seis meses de tensão e novas ameaças de confronto, o óbvio ficou um pouco mais ululante. 

Desmentindo o discurso imperial que em 2010 tentava apresentar uma intervenção militar como inevitável diante da “intransigência” iraniana para defender seu programa nuclear, o novo acordo confirma que era possível avançar numa solução pacífica, respeitando a vontade soberana daquele país. Apesar disso, quem não sofreu uma perda seletiva de memoria irá lembrar-se do que ocorreu há três anos. 

Com apoio inicial da Casa Branca, que voltaria atrás sob pressão de lobistas a serviço da extrema direita de Israel, Lula tomou a iniciativa de atrair o Irã e a Turquia para as conversas. Foi uma ideia do presidente brasileiro, a partir de conversas prévias com o então presidente do Ira, Mahmoud Ahmadinejad, em Nova York. Informado, Barack Obama aderiu a ideia, ainda que relutante. O chanceler Celso Amorim atuou nos bastidores entre os envolvidos. 

Quarenta e oito horas depois, enquanto os Estados Unidos propunham uma nova rodada de sanções contra o Irã, inviabilizando um pacto que bastante razoável, Lula tornou-se alvo de um massacre externo e, especialmente, interno. Fez-se o possível para ridicularizar sua atuação, como se fosse um caso patológico de caipirismo diplomático. Refletindo o tom geral, um comentarista chegou a mandar os pêsames para o presidente brasileiro. Como explicar essa postura? 

Um ponto, claro, era eleitoral. Cinco meses depois da viagem de Lula a Teerã, a população brasileira iria às urnas e era importante impedir qualquer vitória de seu governo, que poderia ajudar a eleição do ainda poste Dilma.

Outro aspecto é o complexo de vira-latas, que não consegue enxergar oportunidades que a conjuntura internacional pode oferecer ao país. Não se perdoou a indisciplina de Lula em relação a Washington. Já que Obama havia mudado de ideia, como é que o governo brasileiro se atrevia a teimar com seu projeto? 

Como escreveu o professor José Luiz Fiori, em 2010, “o que provocou surpresa e irritação em alguns setores,não foram as negociações, nem os termos do acordo final, que já eram conhecidos. Foi o sucesso do presidente brasileiro que todos consideravam impossível ou muito improvável. Sua mediação (…) criou uma nova realidade que já escapou ao controle dos Estados Unidos e seus aliados.”

O ponto principal envolve o caráter provinciano do pensamento diplomático estabelecido no país. Incapaz de enxergar novos horizontes quando a situação internacional permite – como estava claro em 2010 – nossos professores de fim de semana procuram sabotar uma diplomacia que, vê-se agora toda clareza, abria oportunidades. 

Chato, né?

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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9 Comentários
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  1. Francisco M

    26 de novembro de 2013 12:59 pm

    O óbvio

    Para mim, o apoio do Obama foi de fachada, pois tinha a certeza que o encontro não daria em nada. Quando as grandes potências perceberam que ocorrera um acordo, mesmo que frágil, trataram de se opor, principalmente para evitar a entrada de um novo ator na região, no qual consideram como sua área de influência. Tanto foi isso, que se movimentaram rapidamente e aprovaram as sanções logo em seguida. Ainda mais no caso do Brasil, que não até recentemente não tinha nenhuma relevância econômica e até hoje não têm nenhma importância militar. Vendo isso, fica claro a necessidade de forças armadas mais fortes, para aumentar a respeitabilidade…. infelizmente.

  2. Marco St.

    26 de novembro de 2013 1:07 pm

    O Acordo Lula/Irã era melhor

     

    O acordo Lula/Irã era melhor

    Clovis Rossi

    O acordo, efetivamente histórico, alcançado domingo entre o Irã e as seis grandes potências me obriga a voltar ao acordo de 2010 entre Brasil, Turquia e Irã.

    Do ponto de vista das potências, o acordo que Luiz Inácio Lula da Silva e Celso Amorim ajudaram a costurar era melhor.

    Explico: o entendimento previa, expressamente, o envio de 1.200 quilos de urânio pobremente enriquecido para enriquecimento na Turquia, para ser depois devolvido ao Irã preparado a um nível tal que lhe permitiria o uso para fins medicinais, mas impossibilitaria a utilização para fazer a bomba.

    Convém lembrar que, desde sempre, o objetivo das potências que negociam com o Irã é impedir que o país persa chegue à bomba.

    É bom lembrar também que foi o presidente Barack Obama quem, em carta a Lula, considerou “fundamental” a menção aos 1.200 quilos, no acordo que o Brasil então começava a costurar.

    A lógica desse item é simples de explicar: retirando de seus estoques os 1.200 quilos, o Irã não teria material suficiente para continuar trabalhando na bomba, se essa for a sua real intenção, como suspeita o Ocidente, mas que Teerã nega uma e mil vezes.

    Por que o acordo de 2010 é melhor que o de domingo? Também simples de explicar: o novo entendimento não tira do Irã um único quilinho de urânio. Logo, evitar que o país continue a enriquecer urânio a níveis suficientes para chegar rapidamente à bomba vai depender, única e exclusivamente, das inspeções internacionais.

    No acordo Irã/Turquia/Brasil, ao contrário, o enriquecimento –e unicamente até o patamar de uso pacífico– seria feito no exterior, sem necessidade de inspeções, sempre complicadas e passíveis de burla.

    Parêntesis: não creio que o Irã pretenda burlar as inspeções com as quais se comprometeu no domingo. Seria convidar os EUA e as demais potências a restaurarem as sanções que tanto dano provocaram ao governo e à população. Danos tamanhos que forçaram o regime à negociação com uma predisposição inédita em dez anos de impasse.

    Ainda assim, o acordo de 2010 daria mais segurança aos que temem que os aiatolás estejam mentindo quando dizem que não querem a bomba, até porque ela seria anti-islâmica.

    Havia ainda no entendimento da era Lula um item que falava na “oportunidade de começar um processo prospectivo, que criará uma atmosfera positiva, construtiva, não-confrontacional, conducente a uma era de interação e cooperação”.

    Ora, o acordo de domingo também cria essa “atmosfera positiva e construtiva”, mas com três anos e meio de atraso.

    A vantagem do acordo de 2010 não significa reduzir a importância do que foi alcançado no domingo.

    Com todas as ressalvas que possam ser levantadas, prevalece a análise do sítio “Al Monitor”:

    “A alternativa [ao acordo] seria mais sanções, que provavelmente resultariam em menos monitoramento, mais centrífugas, mais enriquecimento acima de 5% (…) e crescentes perspectivas de um ataque militar”.

     

  3. Motta Araujo

    26 de novembro de 2013 1:16 pm

    Nada a ver. A proposta de

    Nada a ver. A proposta de acordo do Irã encaminhada por Lula e Erdogan era completamente diferente do acordo fechado em Genebra. Previa transferencia do uranio do Irã para ser enriquecido na Turquia e na Russia, sem inspeção dos estoques remanescentes que ficassem no Irã, não foi sequer considerado pelo sexteto que negociava em nome da AIEA. Foi uma oferta  unilateral do Irã para tentar um acordo e não o draft de um acordo, que só poderia ser negociado entre as partes e não com intermediarios sem delegação.

    1. maurobrasil

      26 de novembro de 2013 3:18 pm

      Mentira

      É o bom e velho AA?

    2. "Seguidor" da Folha

      26 de novembro de 2013 3:36 pm

      Até aquele jornaleco “lulista” sabe o quanto “tem a ver”
      AA e suas recaídas. É só falar da sua pátria madrasta que surta com seu “nada a ver”.

      http://www1.folha.uol.com.br/mundo/741132-leia-integra-traduzida-da-carta-de-barack-obama-a-lula-sobre-acordo-com-o-ira.shtml

      O acordo de Lula foi exatamente o que Obama pediu à época (eu disse: pediu!).

      Depois “searrependeu-se”, por motivos certamente pouco louváveis.

      É obvio que apostou que ele (Lula) não conseguiria.

      Blefou, se deu mal e melou o jogo.

      Virou a mesa e saiu de fininho..

  4. Snaporaz

    26 de novembro de 2013 3:06 pm

    EUA e a direita vira-latas,

    EUA e a direita vira-latas, daqui,apostavam no fracasso a priori da missão Lula-Erdogan. Quando Teerã concordou, o pânico instalou-se, lá e cá. Americanos detestam  quando suas previsões não se concretizam. Ao passo  que a direita nativa  entra em histeria.Tudo  que possa  enterrar o Brasil  do “sim  sinhô”,é  visto com temor servil, conforme estrofe do hino…

  5. Fabio (o outro)

    26 de novembro de 2013 4:06 pm

    Por causa disso , à época um

    Por causa disso , à época um programa israelense fez piada ridícula e de mau gosto com o ex presidente :

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=jtUL0repR0o align:center]

     

  6. Henrique Settanni

    26 de novembro de 2013 4:27 pm

    Brasileiros,
     
    Respondam

    Brasileiros,

     

    Respondam rápido: Qual é a terceira potência em tamanho territorial, população e PIB ?

  7. Jose Saguy Tenorio

    26 de novembro de 2013 5:03 pm

    Uma Estrela

    Esse episódio me faz lembrar uma frase que vi nas eleições para prefeito de São Paulo, no ano passado, que dizia o seguinte: “Por mais alto que um Tucano voe, jamais ele atingirea uma Estrela”

    Esse pessoal pode tentar fazer de tudo, mas nunca consiguirá brilhar o quanto Lula brilhou.

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