“O mal que os homens fazem sobrevive depois deles. O bem é quase sempre enterrado com seus ossos.”
(Marco Antonio, “Julius Caesar” de Shakespeare)
Este discurso é uma das mais belas peças oratórias fúnebres. É talvez o momento mais emocionante da tragédia Julius Ceasar de Shakespeare, e um dos mais exigentes testes de eloquência para as legiões de intérpretes de Marco Antônio ao longo da história.
Este discurso foi interpretado de forma inesquecível por Marlon Brando, no filme dirigido por Joseh L. Mankiewicz, em 1953
Frente ao corpo de César
http://youtu.be/gnz8TGRJgPk]
Nas escadarias do Senado
[video:http://youtu.be/7X9C55TkUP8
O discurso foi pronunciado por Marco Antônio, nas escadarias do Senado Romano, em frente ao corpo de Cezar, assassinado a facadas pela conspiração de Brutus e Cassius
Para se entender o lance político do discurso é preciso explicar um pouco o contexto em que foi feito. O assassinato de César havia sido bem aceito pela população, já que a explicação dada por seus autores foi a de que César estava prestes a dar um golpe e se auto-nomear Rei, o que em Roma era absolutamente inaceitável.
Júlio César foi traído por Brutus e Cassius
Marco Antônio era muito próximo de César, correu o risco de morrer junto com ele, e, para evitar que reagisse ao ataque, foi distraído por um dos senadores da conspirata para uma conversa fora do local do crime.
Consumado o assassinato de César, Marco Antônio, procurado pelos conspiradores, acertou com eles que falaria no Senado em prol da pacificação dos ânimos. Preservou assim a sua prerrogativa de fazer o discurso fúnebre de César.
Neste discurso, frente a uma massa de cidadãos que até há pouco apoiavam e admiravam a César, mas que agora o condenavam, Marco Antônio começa dando razão aos conspiradores, para ganhar tempo e ser ouvido pela massa.
Seguindo uma estrutura em que: na primeira frase condena Cezar, reitera que Brutus é um homem honrado, para na próxima frase dizer “mas…”, e dar um exemplo real da grandeza, bondade, lealdade e do amor que Cezar tinha pelo povo de Roma, pouco a pouco Marco Antônio consegue mudar o estado de espírito da massa voltando-a contra os assassinos de Cezar.
O orador, com invulgar habilidade, inicia submetendo-se ao sentimento dominante (anti-César), mas encontra uma forma sutil de dialéticamente afirmar ao mesmo tempo a crítica e a observação positiva. Como esta última é mais poderosa que a primeira, aos poucos vai recuperando a imagem positiva de César, relembrando suas boas ações, seu patriotismo, suas virtudes, de forma a deixar para o povo a conclusão da enormidade do crime praticado não mais contra César, mas sim contra Roma e o povo romano.
O César odiado volta a ser o César amado, e ressurge para a vida política com os que lhe permaneceram fiéis, e no ódio aos seus inimigos. É tentador lembrar a dramática mudança da reação popular à morte de Getúlio, depois dos discursos de políticos como Tancredo e Brizola. O Getúlio impopular de um dia atrás, ressurgia para a política nas palavras dos seus representantes, e na emoção popular.
O discurso
“Amigos, romanos, conpatriotas ouçam-me. Eu vim para enterrar César e não para exaltá-lo. O mal que os homens fazem sobrevive depois deles, o bem é quase sempre enterrado com seus ossos. Assim seja com César.
O nobre Brutus lhes disse que César era ambicioso. Se isso é verdade, foi uma falta grave e gravemente César respondeu por ela. Com a permissão de Brutus e dos demais, porque Brutus é um homem honrado, assim eles todos, todos homens honrados, venho eu aqui falar nos funerais de César. Ele era meu amigo, leal e justo comigo. Mas Brutus disse que era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.
Ele trouxe muitos prisioneiros para Roma cujos resgates encheram os cofres públicos. Era nisto que César parecia ambicioso? Quando os pobres choravam, César chorava. A ambição devia ser de uma substância mais dura. Mas Brutus disse que era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.
Todos vocês viram que nas Lupercais, três vezes eu lhe ofereci a coroa real e três vezes ele recusou? .Era isto era ambição? Mas Brutus disse que ele era ambicioso e sem dúvida alguma Brutus é um homem honrado.
Eu falo não para desaprovar o que Brutus falou. Mas estou aqui para falar o que sei. Todos vocês o adoravam e não sem motivo. Que motivo os impede então de chorar por ele agora?”
Áudio
O ator Juca de Oliveira interpreta o discurso de Marco Antonio
Programa Devaneio da Radio Band News FM
Fontes:
1. Marco Cito – http://www.marcocito.com.br/opiniao.php?nid=1229
2. “Discurso fúnebre de Marco Antônio em homenagem a César” – Política para políticos –
wenceslau da cunha
23 de janeiro de 2017 5:56 pmDiscurso de Marco Antonio
Este texto de Shakespeare me comove.
Silvio
9 de julho de 2025 9:23 pmQue discurso! Simplesmente fascinante a maneira que ele fala bem do Cezar enquanto Brutus o condena.