
Simplício suspendeu temporariamente a investigação sobre os impostos e os gastos públicos no Brasil porque o ataque midiático do ministro Mantega ao diretor brasileiro no FMI – Paulo Nogueira Batista – se revelou um sinal de vassalagem tão grande aos neoliberais que tudo o mais na política econômica se revelou subitamente irrelevante.
— Afinal — pensou — Paulo Nogueira falou o óbvio: o FMI está estrangulando a Grécia na medida em que oferece dinheiro em troca de depressão e do maior desemprego na história do país. Paulo mostrou isso, o rei está nu.
Para se certificar de que o representante brasileiro no Fundo, e não Mantega, está com a razão, Simplício ligou para o professor Galileu, que concordou em recolher sua pipa na Praia do Flamengo e lhe dar uma rápida entrevista por telefone.
—Entenda uma coisa — explicou o professor — não confunda ajuda à Grécia com proteção dos credores europeus da Grécia. O que o FMI está fazendo é matar o povo grego de desemprego e fome para retirar dele até a última gota de sangue a fim de pagar uma dívida construída pelo governo grego para salvar os banqueiros da Europa.
—Simples assim?
—É Simplício, simples assim. O FMI quer que os gregos, assim como os espanhóis, portugueses e irlandeses se comportem como o dono do burro da fábula que decidiu treinar o animal para parar de comer: reduziu o capim à metade no primeiro dia, depois à metade da metade no segundo, a metade da metade da metade no terceiro, até que tirou todo o capim.
— E daí?
— Daí que o burro morreu!
— Por que então o Mantega atacou publicamente Paulo Nogueira?
— Sabe por quê? Porque ele adora cortejar os países ricos. Está doido para ser reconhecido como ministro-membro-do-clube-dos-ricos, ganhando o Brasil e ter direito a umas titicazinhas de votos. Isso daria ao país uns décimos de centésimos a mais nas decisões do Fundo.
— Mais voto para quê? — perguntou Simplício — Para concordar com os países ricos nas decisões do conselho diretor de ferrar com os pobres?
— Tu o dissestes — disse Galileu, ainda sentindo os ecos da visita do Papa.
— E a Presidenta, está de acordo com ele? — voltou Simplício.
— A Presidenta deve achar que ser uma boa menina aos olhos dos patrões tradicionais do FMI lhe dará mais votos no próximo ano do que defender o povo grego numa linha alternativa de política econômica para superar a crise europeia. A gente sabe que Mantega não se moveria nessa questão sem o consentimento dela. Ou seja, o Paulo Nogueira vai ser fritado até que algum fedelho das mobilizações de rua seja recebido no Palácio do Planalto e diga com todas as letras que a Presidenta não está preparada para exercer o cargo. Aí talvez ela reaja convocando um plebiscito sobre o voto no FMI.
Simplício escreveu na agenda vermelha:
“Será que o fedelho tem razão?”
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