5 de junho de 2026

A Petrobras e o Pré-sal: entre o curto e o longo prazo, por William Nozaki e Rodrigo Leão

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A Petrobras e o Pré-sal: entre o curto e o longo prazo

por William Nozaki 

e Rodrigo Leão

Não é de hoje que as principais correntes teóricas da ciência econômica – clássica e heterodoxa – divergem quanto à dinâmica de funcionamento de uma economia capitalista. Em recente artigo veiculo pelo jornal Folha de São Paulo, Luiz Gonzaga Belluzzo e Pedro Paulo Zaluth Bastos expõem essas diferenças: “[A teoria neoclássica] herda a previsão feita por Adam Smith e radicalizada pelo modelo de equilíbrio geral que, mantidos livres em sua interação, os indivíduos alcançariam um equilíbrio estável e maximizador, orientados pelo sistema de preços para alocar recursos escassos. (…) Ao invés de reduzir a ação a um indivíduo representativo, [na teoria heterodoxa] os indivíduos são classificados e posicionados em uma estrutura que os divide como sujeitos sociais cuja harmonia não pode ser pressuposta: trabalhadores e capitalistas, empresários, banqueiros e rentistas. A estrutura é assimétrica pois certos indivíduos controlam a riqueza, mas é mutável e interage com as estratégias de organizações empresariais, classes e grupos sociais, Estados e sistemas econômicos nacionais que têm poder desigual e que não podem ser previstas”.

A partir dessas premissas, cada uma das teorias enxerga o horizonte temporal de modo completamente distinto: para a teoria neoclássica, se os agentes econômicos tiverem plena liberdade para realizar alocações de recursos, a economia tende ao equilíbrio no longo prazo, enquanto que para a teoria heterodoxa, a estrutura assimétrica e incerta da economia capitalista, num cenário de ausência de coordenação, pode gerar longos períodos de depressão econômica.

A atual estratégia para a condução do setor de petróleo, confeccionada pelo governo Temer, materializa essa divergência entre a visão neoclássica e heterodoxa. Entre 2003 e 2014, principalmente até 2011, a política do setor petrolífero seguiu uma visão mais heterodoxa privilegiando um conjunto de ações para fortalecer e integrar uma série de cadeias da indústria nacional – metal-mecânica, naval, petroquímico, biocombustíveis etc. – utilizando a Petrobras como o principal agente indutor dessas ações. Nesse sentido, a política de conteúdo nacional, a transformação da empresa numa companhia fortemente verticalizada de energia e a forte expansão dos investimentos foram aspectos fundamentais para a consecução dessa estratégia. Junto dessa política, encontra-se também uma mudança na regulação do setor com a criação de novas regras de exploração e produção, principalmente após a descoberta do pré-sal.

A descoberta do pré-sal em 2007 foi considerada uma das ações estratégicas mais importantes do setor petrolífero, apenas uma das reservas, a de Libra, anunciada em 2010, tinha volume superior à de todas as reservas brasileiras de petróleo à época. O pré-sal foi recebido pelo governo Lula como um elemento fundamental para a soberania do país, e a lei que regulamentou sua exploração determinava que os royalties (compensação financeira paga pelos produtores em troca do direito à extração do petróleo) deveriam ser investidos em educação e saúde. De acordo com a regra vigente até hoje todos os poços do pré-sal devem ser explorados obrigatoriamente sob a liderança da Petrobrás, que deve atuar como operadora única.

Em suma, a nova legislação do setor e a atuação a Petrobras assumem um papel central para a geração de riqueza e articulação da economia nacional no longo prazo. Os investimentos de longuíssimo prazo e elevada diversificação da Petrobras permitem que a empresa exerça um papel contracíclico no longo prazo, isto é, por meio das diversas cadeias integradas de produção a empresa dinamiza diferentes setores da economia. Nesse cenário, cabe ressaltar que a existência de funding para o financiamento dessas cadeias é um instrumento complementar e fundamental para o sucesso dessa política. Além disso, a nova legislação do pré-sal permite que o Estado Nacional, em detrimento da lógica de curto prazo e fortemente direcionada pela maximização de ganhos do mercado, controle a forma de exploração deste recurso considerando a evolução do preço do petróleo, da demanda internacional entre outros, alem de gerar uma expansão da renda em outros setores. Assim, a exploração do pré-sal fica condicionada aos interesses de longo prazo ao invés da lógica de maximização curto prazista.

Com a gestão Temer-Parente, essa visão se altera profundamente. A lógica passa a ser exclusivamente de curto prazo, desprezando os desafios de longo prazo, a fim de atender dois objetivos: valorizar os ativos da empresa o mais rápido possível e gerar caixa para readequar os indicadores financeiros da companhia aos bons parâmetros estabelecidos pelo mercado. Em outras palavras, perde-se o sentido de olhar a Petrobras no longo prazo, uma vez que o sucesso financeiro de curto prazo levaria “naturalmente” ao êxito num período mais longo. Nesse sentido, duas ações ganham grande relevância: i) o desinvestimento de negócios menos rentáveis ou mais “afastados” do core da Petrobras e; ii) condução das políticas financeiras da empresas – determinação do preço do combustível e condução do grau de endividamento, por exemplo – alinhada às boas práticas do mercado. Outras duas iniciativas que complementam essa estratégia são o desarranjo da Petrobras como centro indutor da indústria e a mudança da legislação do pré-sal – que desobriga a participação da Petrobras no consorcio de exploração do pré-sal. Novamente, busca-se maximizar o retorno de curto prazo, ou seja, a Petrobras fica desobrigada de fomentar cadeias nacionais – mesmo que não seja financeiramente mais rentável no curto prazo – e a exploração do pré-sal passa a ser conduzida num ritmo mais acelerado dada a disponibilidade de recursos das empresas do setor.

Portanto, os desinvestimentos, a alteração do papel de indutor da Petrobras e a mudança de legislação do pré-sal compõem um mesmo pacote: valorização dos ativos no curto prazo e adequação da atuação da empresa e do setor petróleo as boas praticas de mercado. Com isso, ganha espaço uma visão de que todas as ações devem sinalizar ganhos de curto prazo e liberdade de atuação de qualquer agente econômico, independente do papel estratégico do setor.

Em suma, o que fica claro é que duas visões distintas estão em jogo: uma, que articula a Petrobras ao desenvolvimento estrutural de longo prazo e visa fortalecer os instrumentos internos para atenuar momentos de depressão da economia capitalista e, outra, que foca excessivamente no curto prazo a fim de gerar valor do setor e da Petrobras o mais rápido possível. A questão é: para a sociedade brasileira, qual a visão que mais adéqua aos desafios e necessidades colocados para o desenvolvimento nacional?

 

William Nozaki

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8 Comentários
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  1. vera lucia venturini

    26 de outubro de 2016 11:53 am

    Vamos falar sério e parar de
    Vamos falar sério e parar de emoldurar essa traição a nação brasileira. Lá tem lógica ou estrategia econômica na entrega do pré sal por esse governo ilegal? São interesses das petrolíferas casado com a corrupção dos serras, parentes e temers. Essa é a verdade real e não estratégia de longo ou curto prazo. É roubo, crime de lesa pátria e pronto.
    É corrupção misturado com interesses estratégicos por parte dos paises centrais. No Iraque, Líbia houve guerra para o roubo. No Irã, na Russia, Venezuela governos fortes defenderam os interesses nacionais e são demonizados pela midia mundial. Aqui, com a porta podre dessa elite ordinaria e um povo desinformado e malemolente nada disso foi necessário. Vão nos roubar e pronto.
    Nem um centavo dessa riqueza nacional será utilizado pelo povo brasileiro.

  2. Marcos Oliveira

    26 de outubro de 2016 12:28 pm

    Aposta errada…
    Sem entrar no mérito das políticas de proteção a indústrias nascentes que foram articuladas no caso do pré-sal (no Brasil elas têm um histórico questionável, para dizer o mínimo), o fato é que qualquer texto que coloque o petróleo como elemento relevante para o desenvolvimento da economia brasileira no longo prazo e não escreva uma linha sobre a transição tecnológica em curso, na forma dos carros elétricos e autônomos, automaticamente perde bastante o crédito.

    Basta lembrar: a Noruega já baniu a venda de veículos a combustão a partir de 2025; a Europa está considerando bani-los a partir de 2030; até mesmo nos EUA, vorazes consumidores de petróleo, as metas CAFE de consumo de veículos são cada vez mais exigentes, e a iminente vitória democrata não vai mudar isso; e a China sofre em seus grandes centros com a poluição, o que é um forte driver para a adoção de tecnologias limpas de mobilidade. Tudo isso leva a um cenário de estabilização e eventual queda no consumo de petróleo e derivados. Como eu ouvi ontem, “a idade da pedra não acabou por falta de pedra” – a indústria petrolífera vai continuar a existir, mas terá que se reinventar em uma base possivelmente muito mais modesta.

    Então, ao invés de usar o poder de compra governamental para incentivar tecnologias do passado, o Brasil tem que olhar para a frente e fomentar as indústrias do amanhã. A heterodoxia pode sim dar certo, mas exige governos com visão de futuro, que no Brasil têm sido uma absoluta exceção na sua história.

    1. MARCELOH

      26 de outubro de 2016 1:00 pm

      Mas o senhor so se esqueceu
      Mas o senhor so se esqueceu que o petrolo nao e so combustivel, e mutio mais coisas tais como :
      Quando refinado,ele se transforma em querosene, óleo diesel, óleo lubrificante, solventes, tintas, asfalto, plásticos, borracha sintética, fibras, produtos de limpeza, gelatinas, remédios, explosivos e fertilizantes, parafina, GLP, produtos asfálticos, nafta petroquímica, querosene, solventes, óleos combustíveis e combustível de aviação.

      1. Marcos Oliveira

        26 de outubro de 2016 3:27 pm

        Não esqueci não!

        Do comentário original: “a indústria petrolífera vai continuar a existir, mas terá que se reinventar em uma base possivelmente muito mais modesta”.

        Sem contar que o óleo diesel e óleos combustíveis também terão quedas de consumo, e que há alternativas renováveis para petroquímicos…

    2. vera lucia venturini

      26 de outubro de 2016 4:04 pm

      Você vê que coisa! A Noruega

      Você vê que coisa! A Noruega baniu a venda dos veículos a combustão. Quero ver agora a Noruega fabricar um carro sem plástico com um pneu sem borracha sintética.

      Essas tecnologias do passado, esse petróleo que tem que ser entregue… Acorda modernoso!

      1. edmorc

        26 de outubro de 2016 4:38 pm

        O nosso petróleo é tão sem

        O nosso petróleo é tão sem perspectivas que a estatal norueguesa comprou da Petrobrax um campo na bacia das almas.

  3. MARCELOH

    26 de outubro de 2016 1:06 pm

    Mas não esqueção  que o
    Mas não esqueção  que o petroleo nao e so combustivel(gasolina e Diesel) , e mutio mais coisas quando refinado,ele se transforma em querosene, óleo diesel, óleo lubrificante, solventes, tintas, asfalto, plásticos, borracha sintética, fibras, produtos de limpeza, gelatinas, remédios, explosivos e fertilizantes, parafina, GLP, produtos asfálticos, nafta petroquímica, querosene, solventes, óleos combustíveis e combustível de aviação.

  4. mls

    26 de outubro de 2016 2:06 pm

    Eles querem o fim dos

    Eles querem o fim dos combustiveis fosseis até 2025 , 2030 mas será que vão conseguir essa é a questão..

    Foi realizada uma pesquisa onde  usando todas as terrras agriculturaveis da terra para uso  de   biocombustiveis 

    só se conseguiria subsituir o PETROLEO  em 30 % .. Portanto não será facil substituir o Petroleo por isso essa corrida 

    entreguista . Exemplo é  o Campo de Carcará  que possui 470metros de coluna de Petroleo isso acho que não tem nem na

     Arabia    Saudita  , veja que o campo de LIBRA tem coluna de 400 metros de Petroleo  e  deve  ter entre 12 Bilhões de Barris 

    ou seja tudo que já foi produzido no Golfo do Mexico até hoje .. Portanto o Campo de Carcará deverá ter muito mais do que

    isso .. ( 2,5 Bilhões) .. Temos que aprender muito com a  NORUEGA   

     

     

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