Marilena Chauí: o efeito das manifestações

A REVOLTA URBANA
Por Aray Nabuco, Frédi Vasconcelos, Lilian Primi e Wagner Nabuco
Filósofa analisa as manifestações no Brasil, o momento político, a internet e defende a necessidade de uma Constituinte exclusiva para a reforma política
Marilena Chauí é uma das vozes mais contundentes nas análises sobre as manifestações que ocorreram neste ano, sobre o papel da classe média e do momento político e na defesa de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. Nesta entrevista exclusiva a Caros Amigos, sobrou também para seu partido, o PT, que ela acusa de ter-se tornado “uma máquina burocrática eleitoral” para a grande mídia, que “pretende ter o monopólio do espaço público”, e para os tucanos, “eles são realmente abomináveis”. Leia abaixo.
Caros Amigos – Professora, como a gente pode explicar as manifestações que ocorreram este ano no Brasil?
Marilena Chauí – Na minha análise, há três coisas a considerar. A primeira é que, no caso específico de São Paulo, foi uma conjuntura de recusa, de explosão do inferno urbano. A explosão dos automóveis, da falta de mobilidade total, a explosão dos condomínios e shoppings centers. Além disso, você tem a indecência mortífera indigna do transporte público. Só para ter uma ideia, no caso do metrô, estavam programados 450 quilômetros até 1994. Em 2013, tem 45 quilômetros. As frotas de ônibus são velhas, os empresários fazem aquelas linhas absolutamente longas porque são mais lucrativas, você não tem linhas interbairros, linhas no interior do centro, é um inferno. Então você é forçado também a usar o carro e tem uma situação explosiva na cidade, porque onde você vai é tudo intransitável, é tudo entupido… Além disso, você tinha um clima preparado de descontentamento com a cidade. Porque as empreiteiras não têm compromisso com o público, as imobiliárias também nenhum, as montadoras foram desoneradas e os cartéis de máfia do transporte coletivo também não têm nenhum compromisso.
Essa situação está dada há algum tempo, o que muda neste momento?
Eu acho que o que muda pura e simplesmente é o fato de que pela primeira vez em lugar de tocar o bumbo, tocar corneta, os meninos usaram o Twitter, a rede social, eles usaram essa forma imediata e amplíssima de convocação.
A ação da polícia também colaborou?
Não, a primeira manifestação já foi enorme. Você não pode dizer que foi por causa da polícia. A presença da polícia fez com que se ampliasse, porque num primeiro instante a mídia desceu o pau, junto com (o governador Geraldo) Alckmin, foi um estopim, mas não a causa. A causa é esse universo urbano. Por outro lado, se você prestar atenção ao que acontece aos sábados e domingos nos shoppings centers, os jovens estão lá, é a praça fechada, eles namoram, comem hambúrguer. Essa meninada da praça fechada foi para a praça aberta. É esse tipo de mobilização. Eu ouvi algumas entrevistas no início e tinha uma menina que disse assim: “Ah, meu namorado brigou comigo, tô muito triste, então vim pra rua”. Outro menino disse: “Ah, acho que vou ficar de recuperação em todas matérias e meu pai vai ficar muito bravo comigo. Então, antes que isso aconteça, eu vim pra rua.” Houve uma senhora no Grajaú que eu perguntei por que estava na manifestação, ela disse: “É o seguinte, subiu o aluguel, sou contra e vim manifestar”.(…)
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