4 de junho de 2026

A trilogia “qatsi”, por Godfrey Reggio

Do Estadão.com.br

Godfrey Reggio encerra sua trilogia “qatsi”

Quinta-feira, 17 de Outubro de 2002, 09:56

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Foram 20 anos de espera para concluir Naqoyqatsi, que teve ajuda de Soderbergh. O filme está na programação da Mostra de Cinema de São Paulo

No fim dos anos 70, um ex-monge se impôs o desafio de criar uma linguagem cinematográfica que, sem recorrer à palavra ou à linearidade narrativa, fosse capaz de condensar o impacto do homem diante das maravilhas e tragédias do mundo moderno. O resultado desse esforço ganhou a forma de uma trilogia de filmes-concerto, iniciada com Koyaanisqatsi (1983) e Powaqqatsi (1988) e que só agora, quase 20 anos depois, chega ao final com o igualmente extravagante Naqoyqatsi (2002), atração da 26.ª Mostra BR de Cinema de São Paulo. Por trás do projeto está o americano Godfrey Reggio, de 62 anos, um sujeito de vocação humanista, que atravessou a década de 90 tentando encontrar parceiros para o capítulo conclusivo, que expressa ao mesmo tempo deslumbramento e horror pelo fenômeno da globalização. 

O socorro chegou na forma do entusiasmo de Steven Soderbergh, que ligou para o diretor após ler artigo no New York Times, no qual Reggio falava sobre as dificuldades de levantar o financiamento para realizar a produção.

Soderbergh, em alta em Hollywood desde Erin Brockovich, usou o seu prestígio para convencer a poderosa Miramax a entrar como sócia no projeto. “Eu me considero um cara de sorte. Meus amigos achavam que eu iria enlouquecer porque passara anos em busca do meu Santo Graal. Mas, para fazer um filme como esse a gente tem de ser paciente. Poderia aceitar convite para dirigir em Hollywood e assim conseguir dinheiro, mas não tenho carreira para isso e não me interesso pelo tipo de filme que eles fazem”, confessa Reggio em entrevista ao Estado. 

Além de paciente, Reggio tem incrível bom senso. Reconhece as dificuldades mercadológicas para vender o conceito da trilogia qatsi. Os títulos são inspirados pela linguagem hopi, antiga cultura indígena americana – Koyaanisqatsi e Powaqqatsi significam, respectivamente, “vida em desequilíbrio” e “vida em transformação”. Os filmes em si são colagens de imagens capturadas da vida real e que ganham uma unidade narrativa musical “montadas” a partir das partituras do conterrâneo Phillip Glass. 

Koyaanisqatsi era um compêndio frenético de cenas extraídas da paisagem urbana e da natureza dos Estados Unidos. Powaqqatsi era um caleidoscópio do impacto do progresso tecnológico em países do Terceiro Mundo – Brasil, Índia e Nigéria entre eles. Quais as chances de emplacar no circuito de multiplex um filme sem história ou atores conhecidos? 

Mas, no caso de Naqoyqatsi ou, na língua hopi, “a guerra como meio de vida”, a espera por patrocinadores teve lá suas vantagens práticas. Ao contrário dos episódios anteriores, composto por material próprio captado por Reggio, cerca de 80% de Naqoyqatsi foi construído a partir de material de fontes alheias, aqui retratadas ou reprocessadas digitalmente. O diretor lançou mão de filmes científicos e militares, desenhos animados, programas e comerciais de TV, vídeos institucionais e cinejornais para compor painel do novo mundo globalizado, no qual se confrontam seres humanos e computadores, dinheiro e valores morais e vida real e virtual. No final dos anos 80, a tecnologia para isso ainda não existia. 

“Fui ingênuo ao pensar que, em 1989, quando concebi Naqoyqatsi, poderia fazê-lo com tecnologia análoga. Essa longa espera, portanto, trouxe benefícios”, explica Reggio. “No início dos anos 90 percebi que teria de usar tecnologia digital, porque o assunto do filme é a imagem manufaturada, a linguagem do mundo globalizado. Os outros dois filmes anteriores, portanto, eram diferentes, não somente entre si, mas também em relação a este. Nos dois primeiros filmamos a aparência do mundo real, intermediada pela ilusão da foto e então editamos aquele material. Em Naqoyqatsi, as locações em si eram imagens ícones, que reavivamos, torcemos, de maneira irreverente, e as colocamos em outro contexto, fazendo novas associações.” 

Naqoyqatsi é a radicalização de um estilo em si revolucionário, mas que, desde o primeiro filme, influenciou outros departamentos do audiovisual, como o vídeo musical. No cinema, gerou um filhote mais comercial – ou menos reflexivo – o Imax, aquelas projeções em telas gigantescas que buscam emoções fortes e elementares (medo, vertigem, excitamento) na platéia. Reggio chegou a pensar um de seus projetos para os padrões Imax, mas os donos do formato não se interessaram pela idéia. 

“Pode parecer absurdo, mas sinto que a trilogia qatsi é um equivalente do Imax em 35 mm. Porque quando assistimos a um filme comum, a lente de 35mm, que está olhando para atores, é que nos serve como guia, certo? Os olhos do público são atraídos para aquelas pessoas dentro do quadro porque, como seres humanos, se identificam com elas”, explica o diretor. “Num filme como Naqoyqatsi, substituo o que compõe o espetáculo tradicional, os atores, a trama, pelo background. Como estamos acostumados a procurar pela figura humana, nossos olhos tendem a ir a todos os pontos da tela. Portanto, vemos um filme diferente a cada nova projeção, porque nossos olhos estão livres para ir aonde quer que queiram no quadro, como em um filme Imax”, diz Reggio. 

Reggio concebeu Naqoyqatsi como partitura musical em três atos. No primeiro, o diretor explora temas como a substituição do mundo real pela realidade virtual, o universo dos “.com”. No segundo, batizado como “circus maximus”, descreve o estilo competitivo do estilo de vida desse início do século 21, que tem transformado a vida num jogo no qual o que importa são as marcas, a vitória, a fama. No terceiro, sugere que a aceleração eletrônica tem obscurecido a percepção humana, levando à violência civilizada. Suas idéias são ousadas. 

Nas sessões do Festival de Veneza, em setembro, onde o filme foi exibido como evento especial, muitos enxergaram semelhanças no segmento dedicado ao atletismo com Olímpia, libelo à perfeição física ariana de Leni Riefenstahl, a cineasta preferida de Hitler. “Não sei se fiquei horrorizado ou apenas chocado com a comparação”, lembra Reggio. “Concordo que o trecho sobre esportes parte do mesmo princípio do filme de Leni. O filme dela oferecia uma visão fascista da atividade. Em Naqoyqatsi a motivação é outra. Não uso o esporte para promover a honra de algum reino ou de algum governo, mas para questioná-lo. Vejo o esporte organizado como uma atividade fascista. As olimpíadas modernas não têm nada a ver com o Monte Olimpo, ou com os gregos, ou o seu significado. Os EUA conceberam as olimpíadas, como a exemplificação do poder do Estado, do super-humano. É uma mera competição, no qual os atletas representam um império. Representa a perfeição do corpo humano sem a mente.” 

A mensagem deixada por Naqoyqatsi é mais abrangente: a felicidade humana está sendo redefinada pela capacidade de acesso ou não ao aparato tecnológico. “A opressão tecnológica que mostro é uma pressão que também sinto e acho que todos sentem. Nossas vidas têm sido limitadas por essa tecnologia. O curioso é que tentei expressar esse sentimento de opressão, essa ditadura da tecnologia em nossas vidas, usando a própria tecnologia. No final das contas, todos nós somos vítimas dela. O verdadeiro ato de liberdade é ter consciência do que nos controla”, conclui Reggio.


Por Assis Ribeiro

Do site Filmes com legenda

Trilogia Qatsi (Koyaanisqatsi / Powaqqatsi / Naqoyqatsi) 1983~2002

(Créditos: Angelica Hellish)

Sinopse: A trilogia Qatsi é composta por documentários dirigidos por Godfrey Reggio, com música composta por Philip Glass e cinematografia por Ron Fricke. São compostos basicamente de câmera lenta, lapsos de tempo, fotografia de muitas cidades e paisagens naturais. A trilha sonora deste documentário possui grande importância, pois o desenrolar tem a velocidade e o tom ditados por ela. Não existem diálogos e também não são feitas narrações durante todo o documentário. Os filmes levam a refletir sobre os aspectos da vida moderna que nos fazem viver sem harmonia com a natureza, bem como a pressão exercida pelas inovações tecnológicas que tornam o cotidiano cada vez mais rápido.

Filmes:
Koyaanisqatsi: Vida Fora de Equilíbrio (Koyaanisqatsi: Life out of Balance) 1983
“Koyaanisqatsi” lida com aspectos da indústria tecnológica hipercinética do Hemisfério Norte. A palavra “Koyaanisqatsi” tem origem na língua Hopi e significa “vida louca, vida em turbulência, a vida fora de equilíbrio, a vida desintegrando, um estado de vida que apela para uma outra forma de vida”.

Powaqqatsi: Vida em Transformação (Powaqqatsi: Life in Transformation) 1988
“Powaqqatsi” já tem um cunho bem mais sociológico, lida com culturas de moralidade, de tradição e da existência artesanal – culturas da simplicidade no hemisfério sul e países asiáticos. Neste Reggio viajou pelo mundo – inclusive no Brasil, com locações em Serra Pelada e São Paulo – para mostrar como países do Terceiro Mundo são explorados pelos poderosos. O filme é de um colorido impressionante, com imagens de grande força, novamente associadas à música envolvente de Philip Glass.

Naqoyqatsi: Vida como Guerra (Naqoyqatsi: Life as war) 2002
“Naqoyqatsi” completa a trilogia com a grandiosidade de abordar o planeta como um todo, conectado, globalizado, mergulhado na tecnologia que encurta distâncias e acelera processos de destruição devido ao mal uso da tecnologia. “Naqoyqatsi vem da língua Hopi e quer dizer “a vida como uma guerra” ou “a guerra como um meio de vida”.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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