Do Blog do Rui Daher Terra Magazine
O futuro da produção agrícola na África
Os dois artigos sobre a produção agrícola no continente africano, aqui postados em 29/03 e 02/04, deveriam fazer parte de uma reflexão a ser aprofundada por gente com mais talento, conhecimento e capacidade de divulgação do que este desprestigiado blogueiro.
Comparando o suposto continente Brasil e o real africano, tentei lançar algumas questões sobre trabalho e ocupação rural, compra de terras por empresas e fundos estrangeiros, e o papel da tecnologia na promoção de segurança alimentar e energética para o planeta.
Na essência, queria chegar à recorrente discussão de como serão alimentados e movimentarão suas máquinas os nove bilhões de pessoas que estarão por aqui em 2050, já livres de mim.
Claro que não esperava repercussão retumbante. Reconheço a minha limitação e de temas como este junto ao universo digital.
Mas, tanto em Terra Magazine, através de um comentário e dois e-mails, como na gentil divulgação que me concede o jornalista Luís Nassif em seu blog, li comentários apropriados e que induzem a questões importantes para reflexão futura.
Tais observações trazem implícitos dois pontos essenciais: como conquistar produtividade sem devastar o ambiente e harmonizar os diferentes padrões federativos em Brasil e África.
O primeiro ponto, tanto aqui como no Luís Nassif Online, aparece na forma de preocupação com a perda da pureza na Mama África, algo que o Brasil, como ingênua Luzia, deixou na horta muito tempo atrás ao ceder espaço às multinacionais fabricantes de transgênicos e agroquímicos.
Estranhem sempre se depois dessa preocupação não perguntarem: como iremos alimentar os nove bilhões de bisnetos do Rui, em 2050, apenas na pureza das ideias da genial Ana Primavesi ou programas voltados à agricultura familiar?
O segundo ponto é cruel, vindo de leitor do Nassif. Vou de aspas: ”Já existe algum órgão ou entidade tentando coordenar a ocupação e uso dos solos, em macroescala, sem as interferências sociopolíticas de cada país”?
Viram a crueldade? Não? Pensemos primeiro no Brasil.
Somos uma República Federativa, formada pela União, Distrito Federal, estados e municípios. Embora o exercício político de forma independente nessas instâncias, suas ações são regidas por uma só Constituição.
Deveria ser fácil, certo? Pois não é. Vocês conhecem muito bem o angu de caroço que foi e ainda é chegar ao atual estágio da agropecuária. Aos tropeções.
A África é formada por 54 países independentes. Na sua grande maioria, conquistas recentes, como também o são constituições, leis, regimes políticos próprios e baixos desapegos às economias e culturas das antigas metrópoles.
Assim, o trabalho em direção a um pan-africanismo é lento e conflituoso.
A agricultura africana vai da mais pobre produção para subsistência tribal até os grandes latifúndios, com origem nas plantations da era colonial, dedicados à exportação de commodities.
Apenas quatro países (Nigéria, Egito, Etiópia e África do Sul, na ordem) respondem por 48% da produção de cereais do continente. Tomando as 20 principais culturas produzidas na África, um terço é de mandioca.
Daí que coordenar as ações para a construção de uma agricultura com produtividade, e ainda preservacionista, na África, me parece um horizonte muito distante.
Por enquanto, o continente ficará por conta dos esparsos programas de apoio da ONU, incursões dos últimos governos brasileiros com a Embrapa, e sem qualquer planejamento ou zoneamento agrícola.
No mais, penso que deverá ser a compra de terras por grandes grupos que ativará a cobiça das grandes multinacionais produtoras de sementes, fertilizantes e agrotóxicos, todas já estabelecidas nos países mais promissores.
Assim, muito a contragosto tenho a impressão de que o mesmo que fez a Luzia brasileira, a partir da década de 1970, a Luzia africana também terá que dar uma chegadinha até a horta.
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