4 de junho de 2026

Darwin Dib e os mecanismos de combate à inflação

Do Estadão

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E se a inflação veio da oferta?

Fernando Dantas

Darwin Dib, economista chefe da corretora e gestora de recursos CM Capital Markets, vai logo avisando: “O que estou dizendo não tem nada de heterodoxo, está nos livros textos de macroeconomia”. E, com efeito, Dib, que era o analista voltado para as contas externas no Departamento de Economia do Itaú antes do seu atual emprego, não tem nada de heterodoxo, nem é visto pelo mercado como tal.

Mas ele hoje defende um ponto de vista que pode ser considerado uma heresia por muitos economistas ortodoxos: o de que o Banco Central (BC) vai manter a Selic, a taxa básica, em 7,25% até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff e que, melhor do que isso, o BC está certo. Bastante firme na sua opinião, Dib considera que a heresia, na verdade, vem sendo cometida por outros economistas que defendem uma alta mais forte da Selic e veem uma séria inflação de demanda ameaçando a economia brasileira.

O economista está divulgando um relatório em que detalha a sua posição. O seu ponto fundamental é simples de ser entendido: ao crescer 0,9% em 2012, a economia brasileira claramente ficou muito abaixo do seu potencial, que é estimado em cerca de 3% pelos economistas mais conservadores.

Dessa forma, houve necessariamente um grande hiato do produto, isto é, a economia cresceu menos que o potencial, deixando fatores de produção ociosos. Isto, para ele, significa que a inflação não pode ser um fenômeno ligado à demanda, estando, portanto, ligada à oferta. E, derivada da oferta, a inflação atual não pode ser combatida com alta dos juros.

Ao BC, portanto, só resta esperar. “É como uma virose, tem de esperar passar – ao não fazer nada, o Banco Central está fazendo muita coisa”, ele diz.

Dib nota que os livros de economia tratam dos dois fenômenos, a inflação proveniente da oferta e da demanda, acrescentando que “ela quase sempre é um fenômeno de demanda superaquecida, e raramente um deslocamento da oferta”. O fato de ser um caso mais raro, porém – continua o economista –, não quer dizer que nunca aconteça.

E Dib é taxativo: uma economia que cresce apenas 0,9%, com potencial de 3%, não pode ter provocado inflação de demanda. “A não ser que os números do IBGE estejam totalmente errados”, afirma. Mesmo as tradicionais revisões do PIB, acrescenta, não vão levá-lo de forma alguma para perto do potencial.

A inflação de oferta, para o economista, foi provocada por um choque na confiança empresarial no final de 2011, por causa do agravamento naquele momento da crise europeia. Para ele, houve um erro generalizado no planejamento da produção do ano passado, que colocou a oferta bem abaixo da demanda, provocando as pressões inflacionárias.

“O sistema de decisão no capitalismo é pulverizado, e não costuma haver grandes erros pelo lado da curva de oferta, mas de vez em quando acontece”, ele avalia. Para Dib, esse choque de confiança empresarial explica por que a inflação foi generalizada, tendo uma dispersão acima de 70%.

O economista contesta a visão de que houve inflação de demanda provocada por uma recomposição setorial da economia, em que a indústria sofreu contração e os serviços ficaram aquecidos. Ele nota que os serviços cresceram apenas 1,7% em 2012, o que também é muito longe do potencial do setor, por qualquer critério que se tome.

O fato de a inflação de serviços estar muito alta, em 8,7% no acumulado de 12 meses até fevereiro, para ele é uma simples decorrência de que os preços industriais são contidos pela competição internacional (tendo em vista um câmbio relativamente estável a partir de meados do primeiro semestre de 2012). Assim, tanto proveniente da demanda quanto de um choque de oferta como o que ele acredita ter havido, a inflação só pode se expressar com o preço dos serviços subindo acima do preço dos manufaturados (ou, mais precisamente, o preço dos produtos não transacionáveis internacionalmente subindo mais do que o dos transacionáveis).

Dib também diz que a economia não está de forma alguma em pleno emprego, ou muito próximo dele, porque isto é incompatível com o fato de que o PIB cresceu muito abaixo do potencial.  Ele contrapõe o recorde de baixa do desemprego na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) com o fato de que os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que registra o emprego formal, está há um ano com tendência de queda.

Quanto aos reajustes salariais acima da inflação, ele pondera que são dados “anedóticos” (isto é, não uma variável calculada agregadamente), e que podem estar ligados inclusive ao poder de determinados sindicatos de conseguir reposições acima da inflação alta provocada pelo choque de oferta.

O economista reconhece que o juro real da economia (em torno de 2%) deve estar abaixo do juro neutro (aquele que não acelera nem desacelera a demanda). Mas ele frisa que a teoria econômica mostra que o juro abaixo do neutro só causa inflação por levar a economia a crescer acima do potencial. Enquanto isto não ocorrer, explica Dib, não se pode dizer que o juro baixo esteja provocando inflação. “Nada desta inflação foi produzido pelo juro real abaixo do neutro”, afirma categoricamente.

Dib lembra ainda que o BC, nas últimas duas atas do Comitê de Política Monetária (Copom), diagnosticou que o desaquecimento está ligado à oferta, em relação à qual nada pode ser feito pela política monetária. Para ele, isto significa não só que a autoridade monetária não vai baixar a Selic para estimular a economia, mas que também não deve subir, porque a alta da inflação também estaria ligada ao choque de oferta.

Ele nota, finalmente, que nos oito anos do governo Lula era comum atribuir o sucesso econômico ao ambiente externo favorável, mas que agora os mesmos analistas subestimam a piora do cenário internacional e enfatizam fatores domésticos.

Quanto ao porquê de outros países latino-americanos estarem crescendo mais do que o Brasil, e aparentemente não terem sido afetados da mesma forma pelo fator externo, Dib diz que costuma responder a este questionamento com “não tenho a menor ideia”. Ele acrescenta que não acompanha em detalhes esses países, que certamente têm suas peculiaridades e que não são base de comparação para o Brasil.

Para Dib, não é ele que tem de explicar por que outros países reagem de forma diferente do Brasil, mas sim os economistas que defendem a alta da Selic que tem de explicar como uma economia que cresce bem abaixo do seu potencial pode estar sofrendo inflação de demanda.

Esta coluna foi publicada hoje (quarta, 3/4/13), na AE-News, da Broadcast.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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