Por Vera Moreira
Comentário ao post “A economia e as velhas-novas utopias“
Nassif
Em 2010 aqui no Sul, na Expointer, a mega feira do agronegócio, revelou-se uma tendência, do jovem rural que adquire conhecimento e volta ao campo para se estabelecer com a família e não quer mais deixar o interior. Se a industrialização foi um passo importante, difundindo tecnologia e permitindo a conservação de perecíveis em larga escala, o caminho inverso se revela possível com estes jovens que voltam ao campo, capacitados, e dão ênfase agora às técnicas de cultivo sustentável e aos alimentos naturais. Toma fôlego a agricultura familiar.
Morei em Gramado (RS) por sete anos e vi lá esse movimento, de outro jeito ainda. Até 1990 diminuía a população rural, mas a população urbana desde 2000 cresce menos acelerada. Há toda uma comunidade crescente de colonos espalhada pelo interior do município, que cultiva seus produtos e entendeu as novas conquistas com o alimento por pressão de demanda. Eles saíram do feijão com o arroz para as frutas e verduras orgânicas, cogumelos e flores para buquês, e já fabricam produtos sofisticados como queijo bursin, geléia de pimenta, manteiga e sal com ervas aromáticas, pães e biscoitos integrais e diferenciados. Tiveram um canal de comercialização para seus produtos através do turismo que é fortíssimo na cidade. Ganharam, no disputado (e, por vezes, polêmico…) calendário de eventos da cidade, uma Festa da Colônia e tiveram a chance de engordar sua receita expondo a produção rural para os turistas. Isso foi progressivamente aumentando a exposição e apreciação de seus produtos. Com o sucesso crescente da Festa, quando a cidade se enfeita de palha de milho e carros de boi, se instalou definitivamente no coração da área urbana uma Casa do Colono e fornos de barro, onde diariamente são assados centenas de pães e cucas, que vendem literalmente como pão quente. Foi construída depois uma ampla praça de comercialização para os colonos, ao lado da rodoviária, e todos os sábados eles estão lá com seus quitutes e também com batata, moranga, laranja, ovo caipira, mel, suco de uva, etc. E a população local se beneficia, assim como o comércio de gastronomia. Eu tinha uma pequena pousada e bistrô e fazia questão de comprar tudo o que podia, regularmente, dos colonos, o que deliciava meus hóspedes e me fazia muito feliz.
Acho um modelo ótimo. Para a produção familiar vingar é preciso canal de comercialização. O movimento de agricultura familiar é de extrema importância para que se ocupem todos os espaços possíveis. Andei lendo matérias de que banqueiros e especuladores dos países ricos estão comprando todas as terras agriculturáveis do planeta, de olho no bilionário mercado de alimentos que só até 2030 aumentará em 50%. O sonho é realmente pouquíssimo viável como estrutura econômica dominante. Mas, no caso, todo pequeno pedaço de terra cultivado com responsabilidade é um patrimônio da humanidade. E com certeza contribui para uma economia mais humana e solidária.
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