Uma série de procedimentos investigatórios instaurados pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) e de promotorias da Justiça Militar, colocou sob escrutínio a maior reorganização administrativa da história recente da Polícia Militar paulista. A reforma, promovida em fevereiro de 2024 pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sob influência direta do secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, substituiu de uma só vez mais da metade dos coronéis da ativa e fortaleceu oficiais egressos de tropas de elite, como a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). O foco das apurações do MP sobre suspeitas de facilitação ao crime organizado e blindagem de desvios funcionais alcança hoje nomes centrais que ascenderam nessa reestruturação.
Na época, as mudanças provocaram forte reação dentro da corporação. Coronéis experientes foram retirados de funções estratégicas, enquanto oficiais identificados com a linha de atuação de Derrite, especialmente oriundos da Rota, passaram a ocupar posições-chave na cadeia de comando. Nos bastidores, oficiais da ativa e da reserva classificaram a medida como uma ruptura com a tradição de promoções baseadas na antiguidade e na sucessão técnica, enquanto especialistas apontaram um fortalecimento do perfil operacional da nova cúpula.
O Governo de São Paulo sustentou oficialmente que a reestruturação visava à “renovação da carreira e otimização operacional”, negando qualquer ingerência política nas indicações.
A existência das investigações não estabelece, por si só, vínculo direto entre a reorganização administrativa e eventuais práticas ilícitas dos apurados. Contudo, a coincidência entre a ascensão de determinados quadros e o avanço dos inquéritos fez a reestruturação da cúpula militar voltar ao centro do debate institucional no estado.
A reforma de fevereiro de 2024
No dia 21 de fevereiro de 2024, o Palácio dos Bandeirantes oficializou a movimentação. Dos 63 coronéis do alto comando da PM-SP, 34 foram removidos, transferidos ou enviados para a reserva sem aviso prévio.
A medida afastou nomes tradicionais da cúpula, incluindo o então corregedor da corporação, coronel Edson Luís Simeira, e alterou os comandos operacionais da capital, da Baixada Santista e de batalhões de choque. Conforme registrado em apurações da imprensa à época, como a cobertura do ICL Notícias sobre a reforma de Derrite e reportagens do G1, a troca em massa rompeu com a histórica tradição de movimentação por antiguidade e critério técnico sucessório.
Ao mesmo tempo, oficiais ligados à Rota passaram a ocupar cargos centrais. Além de Coutinho, destacaram-se as nomeações do coronel Fábio Sérgio do Amaral para a Corregedoria, de Valmor Saraiva Racorti para o Comando de Choque e de Gentil Epaminondas de Carvalho Júnior para a Coordenadoria Operacional (CorOp), responsável pelo direcionamento do policiamento ostensivo no estado.
José Augusto Coutinho: o principal elo
Nenhum nome simboliza melhor a conexão com Derrite do que o coronel José Augusto Coutinho.
Até fevereiro de 2024, Coutinho comandava a Rota, unidade de elite da Polícia Militar onde também construiu parte de sua trajetória Guilherme Derrite. Com a reforma promovida por Tarcísio, foi escolhido para substituir o então subcomandante-geral da PM, tornando-se o número dois da corporação. A promoção foi considerada um dos movimentos mais relevantes da reorganização administrativa.
A relação entre Coutinho e Derrite é antiga. O coronel foi instrutor do então futuro secretário na Academia do Barro Branco e, posteriormente, seu comandante na Rota, vínculo que consolidou uma relação de confiança ao longo da carreira.
Em abril de 2025, Coutinho assumiu o comando-geral da Polícia Militar, consolidando-se como o principal responsável pela execução das diretrizes estabelecidas pela Secretaria da Segurança Pública e tornando-se o principal elo institucional entre Derrite e a estrutura operacional da corporação.
Posteriormente, deixou o comando em meio ao avanço de investigações envolvendo integrantes da corporação. O governo negou que a substituição tivesse relação com as apurações.
Ele deixou o comando-geral da corporação depois de ser citado em um inquérito da Corregedoria que apurava a atuação de policiais militares na escolta de uma empresa de ônibus investigada por suposta ligação com o PCC. Agora, Coutinho também aparece mencionado nos documentos da Operação Janus.
Centralização dos afastamentos de policiais investigados
Meses após a reformulação de nomes, o Governo de São Paulo promoveu uma alteração procedimental crítica no controle interno da tropa. Uma nova portaria da Secretaria da Segurança Pública retirou dos comandantes regionais a prerrogativa de afastar temporariamente policiais sob suspeita de crimes, abusos ou desvios funcionais.
Como detalhado em investigação publicada pela Revista Piauí sobre o controle do Subcomando, essa competência passou a ser exclusiva do Subcomandante-Geral, cargo então ocupado por Coutinho.
A mudança na prática: Se um batalhão local identificasse indícios de extorsão ou violência ilegal cometida por um subordinado, o comandante da área não podia mais suspendê-lo do trabalho de rua sem aval prévio e centralizado da alta cúpula. A medida gerou críticas de órgãos como a Ouvidoria das Polícias e entidades de direitos humanos, que apontaram risco de blindagem e esvaziamento das apurações de base.
As apurações do MPSP e o cerco aos oficiais: Operação Janus amplia pressão
A reestruturação de 2024 voltou a ser tensionada à medida que inquéritos do MPSP e do GAECO avançaram sobre esquemas de infiltração do crime organizado e irregularidades operacionais na Polícia Militar.
A Operação Janus é um desdobramento de investigações anteriores, entre elas as operações Recidere, Bazaar e Sallus et Dignitas, voltadas ao combate à lavagem de dinheiro do PCC. Segundo o MP, o grupo investigado atuava por meio de empresas de fachada, operadores financeiros e contratos de segurança privada para movimentar recursos da facção e manter interlocução com agentes públicos.
Os relatórios que embasaram a operação indicam que operadores do esquema mantinham contatos frequentes com oficiais da alta patente da Polícia Militar. Entre os militares mencionados aparecem José Augusto Coutinho, o coronel Luiz Carlos Pereira Martins e um terceiro oficial identificado apenas como “Patrício”. O MP afirma que mensagens, áudios, registros de reuniões e planilhas financeiras apontam uma relação de proximidade entre os investigados e esses oficiais. Nenhum deles, entretanto, foi alvo das prisões ou das buscas realizadas na Operação Janus.
Um dos documentos apreendidos pelos investigadores registra uma planilha financeira de dezembro de 2019 na qual consta um pagamento de R$ 1 mil destinado a um coronel identificado como “Patrício”. Para o Ministério Público, o registro integra o conjunto de elementos analisados na investigação. Até o momento, contudo, a anotação não resultou em denúncia ou acusação formal contra o oficial citado.
Ainda assim, a trajetória de José Augusto Coutinho sintetiza a transformação promovida na corporação: saiu do comando da Rota para a subcomandância, assumiu posteriormente o comando-geral da PM e tornou-se a principal ponte entre a estratégia implementada por Tarcísio e Derrite e a estrutura que hoje está sob escrutínio do Ministério Público.
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