4 de junho de 2026

A voz de quem saiu às ruas para se manifestar e teve de fugir da polícia – parte 3

Na última quinta-feira (13), acuados pela violência policial, manifestantes que participavam da passeata pela diminuição da tarifa de ônibus entraram em um prédio na região próxima ao Estádio Paulo Machado de Carvalho para se proteger dos ataques policiais, das bombas e do gás lacrimogênio.

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Mais calmos, aos poucos, alguns deles conseguiram falar sobre o que viram e sentiram. Os pensamentos às vezes vinham rápidos demais, ficavam um pouco confusos, mostravam a tensão do que foi a perseguição policial daquela noite. É possível perceber em suas falas que questão, para eles, está se transformando em algo maior do que a redução da tarifa de ônibus. A luta não é mais apenas para que o aumento dos 20 centavos da tarifa seja retirado, mas por diálogo e por causas que antes escondidas começam a surgir. “Se você não dialoga, se você não faz o seu papel como representante, ele [o movimento] vai se transformar, ele vai incorporar muitas outras causas”, diz F.M. em seu depoimento.  

F.M., 28 anos

Depoimento a Tatiane Correia

“Eu estava na Consolação depois que o movimento recebeu porrada e repressão. Desde a frente da praça roosevelt, jogaram a gente pra Augusta. Depois jogaram a gente pra Consolação, onde fomos recebidos pela cavalaria e pelo choque, em cima.

Na esquina do cemitério da Consolação, o movimento começou a sentar no chão para demonstrar que era pacífico e que não íamos para cima dos policiais.

Eu vi três bombas de gás lacrimogêneo na nossa direção. Foi aí que [que o movimento] começou a dispersar em direçaõ ao Pacaembu. Primeiro, a gente veio para cá (próximo ao estádio do Pacaembu), e depois a gente foi até a parte debaixo do pacaembu. O choque veio da Doutor Arnaldo, a gente voltou e entrou aqui, voltou pra cá.

O movimento que saiu do teatro, caminhou pela 7 de abril e foi até a República, era um movimento absolutamente pacífico. Inclusive com muita gente saudando dos prédios. Vi várias cenas de gente jogando suco, jogando água, jogando toalha, assim… Estavam claramente junto com a gente.

No momento em que a gente chegou na esquina da (avenida) Ipiranga com a Consolação, o movimento começou a andar mais devagar, subindo à Consolação. Aí é que [aconteceu] a ação mais brutal da polícia. Então, o choque veio pela frente, o movimento começou a descer. Do lado de trás, embaixo do túnel da Radial Leste, de lá começou a sair polícia. Quando a gente chegou lá, foi o momento da dispersão.

Na frente da Consolação, começaram a jogar bomba de gás lacrimogêneo em gente sem reagir. E a gente começou a descer lá para o lado da praça Charles Miller.Depois decidimos subir para a Doutor Arnaldo, mas da Doutor Arnaldo começou a descer muito policial, então a gente voltou para o pacaembu e a gente veio parar aqui. Assim, mas lá de baixo, pelo menos até o começo da consolação, a frente da praça roosevelt estava seguindo tranquilamente.

Eu não consigo contar, mas me lembro que a [região] da rua Sete de Abril, do teatro [municipal] até a República [estava] totalmente tomada, pelo menos mais duas quadras depois da República tinha mais gente. Eu não sei calcular essa quantidade de gente, mas era o maior movimento de que eu já participei. Já participei do próprio Passe Livre em outros anos e, principalmente, nesse no primeiro dia, quando o movimento foi brutalmente reprimido lá na 23 [de maio].

Eu acho que isso vem acontecendo nos últimos dias, que nem massa de bolo. Quanto mais você quiser reprimir, mais gente vai se identificar com quem tá sendo reprimido. É curioso porque não tem quem seja a favor de um aumento que desde 94, tá acima da inflação. Não tem ninguém a favor disso. Então é óbvio que as pessoas tem que tomar a rua.

O que é um absurdo total é o nosso prefeito simplesmente se furtar ao diálogo, comprar o discurso da grande imprensa, dizer que não vai conversar enquanto houver violência.A violência hoje partiu claramente da polícia, desde o início. O movimento estava absolutamente pacífico, inclusive incorporando gente no caminho, e a polícia simplesmente fechou todos os lados que podia com gás lacrimogêneo, e fez a gente ir para o caminho que eles precisassem. Esse tipo de coisa é que gera pessoas desesperadas, que vão pegar qualquer coisa que tenha na frente pra se proteger. é este tipo de situaçaõ de terror, e é um estado de terror. A gente está ouvindo até agora os helicópteros aqui, não pode sair, história de gente sendo presa no busão, no metrô, presa por quê? Por se manifestar? Não faz o menor sentido.

Na verdade, a ineficiência dos nossos políticos em dialogar, em simplesmente dialogar, aquilo que o Haddad falou que ele tem que fazer, porque ele não pode se furtar de fazer nas primeiras entrevistas… A ineficiência deles é que gera uma série de outras discussões, que é como a polícia age – que aí, enfim, a gente não espera nada, porque são treinados para não dialogar, para simplesmente oprimir.

Daí, o que começa como uma luta contra o aumento começa a virar uma luta em que a gente claramente vê que somos oprimidos por meio do transporte público, todos os dias, porque faz anos que o aumento vem acima da inflação e não há melhora, pelo contrário, no geral o transporte público só vem piorando. Então, sem dúvida começou com uma discussão menor e vai indo para outros lugares, que eu acho que é como aconteceu em outros lugares do mundo, inclusive.

Se você não dialoga, se você não faz o seu papel como representante, ele [o movimento] vai se transformar, ele vai incorporar muitas outras causas.

A minha visão final, sinceramente, é de que amanhã vai ter muito mais”.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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