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  1. Webster Franklin

    15 de agosto de 2016 4:49 am

    La Jornada: o golpismo dos corruptos

    Carta Maior

    La Jornada: o golpismo dos corruptos

     

    A destituição de Dilma Rousseff é uma simulação para encobrir o golpe de Estado orquestrado pelos setores mais corruptos da classe política do país.

     

    Editorial do La Jornada, do México

     

      Lula Marques / Agência PT

     

    Após uma sessão de 15 horas, na madrugada entre os dias 9 e 10 de agosto, o pleno do Senado brasileiro decidiu dar luz verde ao julgamento definitivo da presidenta Dilma Rousseff, o que tende a se traduzir em sua destituição do cargo, dois anos e meio antes do que seu mandato previa. Com 59 votos a favor e 21 contra, a decisão configura um cenário adverso para a votação final, que se dará nos últimos dias deste mês, concluindo o procedimento de impeachment que mantém Rousseff suspensa desde o dia 12 de maio, e encerrando um ciclo de 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores (PT).
     
    Tal procedimento foi montado a partir de uma base legal e institucional que, em outras circunstâncias, poderia parecer meritória. Efetivamente, a necessidade de rendição de cotas por parte da mandatária, a fiscalização constantes e a função de contrapeso exercida pelos poderes Legislativo e Judiciário, e o processamento expedito dos funcionários que comentem faltas graves ao mandato popular, constituem todos elementos imprescindíveis para o funcionamento de um regime verdadeiramente democrático.
     
    Entretanto, nas atuais circunstâncias observadas no Brasil, a destituição de Rousseff é uma simulação dirigida a encobrir o golpe de Estado orquestrado pelos setores mais corruptos da classe política do país contra a presidenta. Pode-se afirmar isso não só pela ausência de qualquer sustentação jurídica para justificar a destituição, e pelos informes recentes de funcionários técnicos do Ministério Público e do próprio Senado, que desacreditaram os delitos atribuídos a ela, mas também porque a parte acusadora está integrada por um Congresso onde dois de cada três legisladores enfrentam causas abertas por todo tipo de escândalos – em casos que, diferente das falsas acusações contra a presidenta, podem sim justificar legalmente a destituição e processamento dos seus autores. A conveniência do setor majoritário do Legislativo e a conivência com o Poder Judiciário e do Ministério Público, para administrar os tempos processuais dos legisladores acusados enquanto acelera o trâmite da destituição da chefa de Estado, constitui uma manipulação dos procedimentos institucionais que se pode definir como crime organizado.
     
    Se abre, assim, um panorama de incertezas e ingovernabilidade, pela irrupção de um grupo que carece de respaldo popular e social, com a maioria de seus membros desacreditados, e que é ilegítimo por definição, ao impulsar um projeto contrário ao que foi eleito nas urnas em 2014, com os votos de 54 milhões de brasileiros. O governo – até agora interino – de Michel Temer sofre um uma enorme desaprovação. A grande maioria dos brasileiros o rejeitam, como mostram todas as pesquisas de forma consistente, e como ficou claro aos olhos do público mundial na inauguração dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, na semana passada, durante a qual o chefe do Executivo foi sonoramente vaiado pelo público presente.

    O estratagema se mostra ainda mais complexo quando vemos que, além da remoção de Dilma Rousseff, o afã dos políticos golpistas também está voltado a tentar inabilitar politicamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio de um processo igualmente fraudulento, a fim de impedir que ele possa se apresentar nas próximas eleições presidenciais.
     
    Contudo, as derrotas experimentadas pelo governo do PT não necessariamente garantem que o golpismo corrupto seja capaz de consolidar um governo estável, não só pelas diferenças que podem surgir dentro na nova coalizão de direita, formada recentemente com a única determinação de tirar Rousseff da presidência – e que agora terá que criar unidade em torno de um projeto em comum, que consiste em um desafio diferente que a mera conveniência política –, mas também pela resistência e pela mobilização de setores populares organizados que se opõem ao golpe, além do isolamento internacional que o novo governo já percebeu que enfrentará. Diante destas circunstâncias, a ingovernabilidade parece ser um cenário mais que provável no maior país da América Latina.
     
    Tradução: Victor Farinelli

    http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/La-Jornada-o-golpismo-dos-corruptos/4/36607

     

  2. Webster Franklin

    15 de agosto de 2016 4:56 am

    O golpe e a escalada autoritária

    Carta Maior

    O golpe e a escalada autoritária

     

    São muitas e perturbadoras as evidências de que o Estado de Direito está seriamente ameaçado de ser substituído por um regime autoritário.

     

    Jeferson Miola

     

     

       Beto Barata

     

    O golpe é a solução escolhida pelo mercado para derrubar uma Presidente inocente e empossar em seu lugar um governo usurpador, integrado pelos personagens mais conservadores, corruptos e misóginos da política brasileira.
     
    O golpe é o remédio empregado pela burguesia para desempatar, a seu favor, o conflito distributivo instalado no Brasil com a crise capitalista mundial que teve início em 2008 nos EUA e na Europa. Com o golpe, a oligarquia realça sua índole reacionária e conspirativa, que rebrota ferozmente sempre quando sente seus privilégios ameaçados.
     
    O conflito distributivo colocou em xeque o modelo “ganha-ganha” dos governos Lula e Dilma; modelo baseado na conciliação de classes [com traidores e conspiradores], no qual os ricos ficaram mais ricos e os pobres, menos pobres.
     
    A burguesia recupera, com o golpe, o controle direto do Estado para executar as políticas favoráveis principalmente à sua fração financista. Ampliará a taxa de retorno e de lucratividade do capital, assim como intensificará o repasse da renda pública nacional para o sistema financeiro internacional com as verbas que deixarão de ir para o SUS, para a educação, para o Bolsa-Família e para os investimentos necessários ao desenvolvimento soberano do país.

    O plano do governo usurpador é selvagem: entrega do petróleo pré-sal e da Petrobrás; abandono da política de conteúdo nacional e de defesa da indústria e da engenharia nacional; desvinculação orçamentária da saúde, educação, ciência e tecnologia; flexibilização de direitos trabalhistas [jornada de trabalho, férias e 13º salário]; reforma previdenciária regressiva; sabotagem do MERCOSUL para a subordinação da política externa às potências imperiais; e retomada do programa de doações do patrimônio público com privatizações lesivas ao interesse nacional.
     
    Em menos de três meses, foram adotadas medidas de impacto estratégico negativo para o país, como a venda aviltada da área de pré-sal Carcará para a petroleira holandesa Statoil: com valor estimado em US$ 6,5 bilhões, foi doada por apenas US$ 2,5 bilhões.
     
    O governo usurpador também prometeu ao mercado aprofundar as medidas anti-populares e anti-nacionais depois das eleições municipais de outubro.
     
    Com tal agenda conservadora, o golpe só se viabiliza num contexto autoritário, de exceção institucional e de supressão das liberdades políticas e civis – preço que a oligarquia golpista demonstra estar disposta a pagar, como fica evidenciado no enquadramento de ativistas sociais na Lei Anti-terrorismo e na proibição de manifestações “Fora Temer” nos estádios das Olimpíadas.
     
    A resistência ao golpe e à restauração neoliberal conservadora é combatida com forte violência policial e repressão política. A ofensiva do Gilmar Mendes para extinguir o PT e a caçada patológica de setores do Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário ao Lula, são dois traços de uma mesma lógica fascista que vai se banalizando.
     
    Sérgio Moro defende abertamente o uso de provas ilegais e ilícitas em processos judiciais porque tem certeza de que não será punido pelo Conselho Nacional de Justiça, pela OAB e tampouco pelas instâncias superiores do Judiciário.
     
    É impressionante, por outro lado, a blindagem do condomínio jurídico-midiático-policial ao Temer, Serra, Jucá, Aécio, Sarney, Padilha e outros golpistas, sobre quem existem provas robustas de corrupção. Isso configura uma realidade de exceção, de proteção da criminalidade.
     
    São muitas e perturbadoras as evidências de que o Estado de Direito está seriamente ameaçado de ser substituído por um regime autoritário. Abundam os sinais de endurecimento e de embrutecimento repressivo. A escalada do autoritarismo passou a ser uma possibilidade lógica deste período histórico aberto com o golpe.
     

    Créditos da foto: Beto Barata

    http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-golpe-e-a-escalada-autoritaria/4/36592

     

  3. romério rômulo

    15 de agosto de 2016 5:02 am

    Manifestações contra Macri em Mar del Plata: Victor H. Morales

    http://www.victorhugomorales.com.ar/c5n-mar-del-plata-balas-de-goma-gases-y-heridos-en-protesta-contra-macri/

    romério

  4. Almeida

    15 de agosto de 2016 8:07 am

    O Brasil ficou barato e o mundo ficou caro.

    O Brasil ficou barato e o mundo ficou caro

    – Notas sobre o superávit recorde do comércio externo brasileiro

    por Octávio Linera e José Martins [*]

    O saldo comercial no comércio exterior é a diferença entre as vendas de mercadorias (exportações) e as compras (importações). Quando as exportações superam as importações ocorre superávit . Se as importações forem maiores que as exportações ocorre déficit . No mês de julho, as exportações superaram as importações em US$ 4,578 mil milhões, valor 91,8% superior ao alcançado no mesmo período de 2015 (US$ 2,387 mil milhões). De acordo com os números divulgados segunda-feira (1º/08/2016) pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), este foi o terceiro maior saldo registrado para meses de julho. Em 2006, o superávit foi de US$ 5,7 mil milhões e em 2005, de US$ 5 mil milhões.

    De janeiro a julho de 2016 o Brasil acumulou superávit de US$ 28,230 mil milhões. O valor é o maior já registrado para os primeiros sete meses do ano. No mesmo período do ano passado, o superávit havia sido de pouco mais de US$ 4,615 mil milhões. O recorde anterior foi registrado em 2006 (US$ 25 mil milhões). Calcula-se que o superávit neste ano possa alcançar a extravagante soma de US$ 50 mil milhões. É moeda esterilizada que se soma às reservas internacionais estocadas nos cofres do Banco Central. Devem alcançar aproximadamente US$ 400 mil milhões no fim do ano.

    SUPERÁVITE É APLICADO EM TÍTULOS DO TESOURO DOS EUA

    Essa montanha de moedas internacionais conversíveis (“fortes”) serve para algum tipo de investimento na economia interna? Nem um centavo. Quase a totalidade é direcionada para comprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Quer dizer, direcionada para alavancar (financiar) a dívida pública da maior economia do planeta. E o que esta última faz com essa montanha de dólares emprestada do Brasil? Usa para ativar sua economia, subsidiar exportações produzir armamentos, fazer mais guerras e aumentar a miséria das grandes economias emergentes – Brasil, China, Índia, Indonésia, e outras campeãs do neomercantilismo e seus danosos superávits comerciais.

    Essa ciranda maldita é boa para mais alguém? Sem dúvida. Para os “investidores” externos, em primeiro lugar, que ficam mais seguros que no curto prazo, pelo menos, não vão levar calote dos devedores brasileiros – tanto governo, quanto empresas privadas. É por isso que, pelas regras do mercado, as reservas internacionais devem ser esterilizadas e aplicadas em ativos de baixíssimo risco (títulos dos EUA), pois são uma espécie de fiança depositada para garantir eventuais atrasos ou calotes no “aluguel” do capital. Diminui a “aversão ao risco” dos parasitas. Mas aumenta sobremaneira a dívida interna, desvalorização da moeda, déficit público, manutenção das maiores taxas de juros do mundo, austeridade fiscal, reforma da previdência, trabalhista, etc.

    A ECONOMIA AO SERVIÇO DO RENTISMO PARASITÁRIO

    Por isso, essa ciranda de superávit comercial e de esterilização econômica imposta pelo sistema imperialista também é boa para os rentistas nacionais em geral. Não só os impopulares banqueiros, mas cerca de 15% da população brasileira vive desta ciranda imperialista – capitalistas industriais, comerciais, serviços, proprietários fundiários rurais e urbanos, classe média assalariada de gerentes, supervisores, alta burocracia, militares, pastores, padres, ideólogos de esquerda e de direita, etc. A sobrevivência da propriedade privada de todas essas camadas improdutivas no Brasil depende não só do aumento da dívida pública, como se passa também em outros países, mas, principalmente, da acumulação de reservas internacionais e das indecentes taxas de juros. Particularidade de burguesias dominadas. Algo em torno de 30 milhões de patriotas cidadãos verde-amarelos encarnam essas classes dominantes, improdutivas e esterilizadoras da economia brasileira, enquanto 85% (170 milhões de residentes) encarnam o exército industrial de reserva de trabalhadores vermelhos explorados na produção de riqueza e de capital no Brasil. Essas diferenças quantitativas e qualitativas entre as diferentes classes sociais fazem com que os interesses da fatia populacional improdutiva sejam radicalmente opostos e crescentemente antagônicos aos interesses da fatia populacional produtiva.

    É no quadro de grave crise econômica e agudização da luta de classes e de ingovernabilidade que a burguesia brasileira e outros parasitas festejam nesta semana o novo recorde do superávit comercial externo. As pessoas que pensam por conta própria lamentam profundamente. Sabem que o superávit é apenas uma categoria contábil e que a coisa começa a perder seu brilho quando se verifica como evoluíram as variáveis reais (exportações e importações) que a sustentam.

    No mês de julho , as vendas externas brasileiras foram de US$ 16,331 mil milhões, com retração de 3,5% sobre julho de 2015 e crescimento de 2,2% em relação a junho deste ano, pela média diária. As importações foram de US$ 11,752 mil milhões, com quedas de 20,3%, em relação a julho do ano anterior e de 3,6% sobre junho último, também pela média diária.

    No acumulado de 2016 , as exportações foram de US$ 106,583 mil milhões, com retração de 5,6% em relação ao mesmo período de 2015. As importações atingiram US$ 78,353 mil milhões, o que representa queda de 27,6% sobre o mesmo período do ano passado. A corrente de comércio – soma de exportações e importações – alcançou US$ 184,937 mil milhões, representando queda de 16,4%, no mesmo período comparativo.

    DERROCADA DO FLUXO DE COMÉRCIO

    Ao contrário do que é propagandeado pelos economistas capitalistas e grande mídia, os sucessivos superávits comerciais brasileiros nos últimos quinze ou dezoito meses baseiam-se em brutal enfraquecimento e desabamento da capacidade comercial e competitiva da produção nacional no comércio internacional. Isso é representado pela derrocada da corrente de comércio de mais de 16 % na comparação com o ano anterior. Com esse tipo de pedalada, eles podem contabilizar impunemente sucessivos superávits mesmo com queda das exportações, pois a queda das importações acontece a um ritmo cinco vezes mais rápido. As exportações caem em progressão aritmética e as importações em progressão geométrica. Neste carrossel dos desesperados o superávit tende ao infinito. Basta exportar um dólar e importar zero!

    Quanto mais depreciada a moeda nacional (real) frente ao dólar menor o preço unitário das mercadorias exportadas e maior o preço das mercadorias importadas. O Brasil fica barato e o mundo fica caro. Essa é forma de economias dominadas como Brasil, China y cia bella se adaptarem ao pesado e letal processo deflacionário global que ora se desenrola no mercado mundial. O limite desta política mercantilista suicida é quando não apenas o valor, mas também o volume da corrente de comércio (exportações + importações) começa a desabar em termos absolutos. A produção industrial entra em parafuso. A economia brasileira (e a chinesa também, de maneira menos visível devido à manipulação das estatísticas pelos burocratas de Pequim) ilustra neste momento esse limite absoluto do neomercantilismo, esse patológico fenômeno que só ocorre nas economias dominadas do sistema imperialista. Nesta terça-feira (03/08/2016) foram publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) os números da produção industrial brasileira no mês de junho, mostrando que a taxa anualizada (indicador acumulado nos últimos 12 meses) com a queda de 9,8% em junho de 2016, acelerou o ritmo de perda frente ao registrado em maio (-9,5%) e assinalou a perda mais intensa desde outubro de 2009 (-10,3%).

    INGOVERNABILIDADE DO ESTADO BURGUÊS BRASILEIRO

    Essa derrocada da produção industrial está organicamente relacionada com a irresponsável política cambial da burguesia brasileira. No mesmo dia em que o IBGE publicou seu relatório da produção industrial nacional como um todo, noticiou-se também na imprensa que a falta de autopeças paralisa a Volkswagen do Brasil. A montadora alemã Volkswagen paralisou totalmente a produção de carros no país. (Valor Econômico: “Falta de Autopeças Paralisa a Volkswagen”, 01/08/2016). A grande responsável pela paralisação da Volkswagen do Brasil é o conflito de preços entre a montadora e seus grandes fornecedores – a maioria também alemães com fábricas no Brasil. Com o encarecimento das peças importadas devido à absurda desvalorização do real induzida pelo governo brasileiro os fornecedores de autopeças não podem mais garantir os preços registrados nos contratos de fornecimento para a Volkswagen. Para esta última, aceitar essa correção implicaria em queda inaceitável da taxa de lucro. O caso foi para a justiça. É aqui que se inicia e assim que se forma, por obra também de capitalistas alemães, a ingovernabilidade do Estado burguês brasileiro.

    O mundo ficou caro e o Brasil ficou barato. E a produção vai para o vinagre. O aumento dos superávits comerciais poderá continuar por mais algum tempo. Mas não será resultado da ilusão vendida pelos economistas à opinião pública de que o ajuste fiscal está dando certo e por isso a produção nacional está mais competitiva. Ao contrário, será resultado, tanto da perda de competitividade real da produção nacional no quadro da deflação global, quanto, como podemos assistir no caso da Volkswagen, do próprio desmantelamento da sua logística de integração comercial e catastrófica paralisação da produção.
    03/Agosto/2016

    Ver também:

    Comércio internacional em tempo real: confirma-se tendência de profunda deflação mundial

    O original encontra-se em http://www.criticadaeconomia.com.br/noticia/detalhes/324 (os inter-títulos são de resistir.info)

    [*] Economistas, brasileiros.

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.

  5. Gilberto Cruvinel

    15 de agosto de 2016 11:45 am

    Brasil importa políticas de segurança racistas e falidas …

     

    Brasil importa políticas de segurança racistas e falidas implantadas nos EUA do século passado

    por

    do The Intecept

     

    A CIDADE ESTAVA o caos entre 1980 e 1990. Com a “epidemia de crack”, os índices de criminalidade subiram assustadoramente e pessoas usavam droga nas ruas, à luz do dia. Os governantes se viram obrigados a agir: muito dinheiro investido para a repressão, usuários presos, operações policiais constantes nos subúrbios e periferias.

    O cenário descrito acima são os Estados Unidos do século passado, mas também poderia ser o Brasil de 2011, quando o país investiu cerca R$4 bilhões na campanha”Crack, é possível vencer“. Quando importamos as políticas proibicionistas de drogas, importamos também seus reflexos no sistema carcerário, na construção de políticas públicas que ignoram a saúde pública e apostam no belicismo.

    Pressionados por pesquisadores e movimentos sociais – principalmente negros – parece que os Estados Unidos estão começando a entender que esta guerra é falida. Estados legalizaram o comércio e uso de maconha (medicinal e recreativa), o presidente Barack Obama perdoou pena de condenados por tráfico, pesquisas são feitas com usuários e testes com drogas são feitos em laboratórios. John Ehrlichman, o então chefe de política doméstica do presidente Nixon, admitiu para o jornalista Dan Baum o teor racista da política de drogas ao afirmar:

    “Na campanha presidencial do Nixon em 1968, e depois na Casa Branca, nós tínhamos dois inimigos: a esquerda anti-guerra e as pessoas negras. Entendeu? Sabíamos que nós não podíamos criminalizar quem era anti-guerra ou negro, mas convencendo a população a associar hippies à maconha e negros à heroína, e depois criminalizando fortemente os dois, poderíamos desestabilizar ambas as comunidades. Poderíamos prender seus líderes, invadir suas casas, impedir suas reuniões e caluniá-los todas as noites nos jornais noturnos. Sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim.”

    Temos mais em comum com os EUA do que parece. A professora Deborah Small deixa isso claro abaixo. Não é um problema nos espelharmos em políticas públicas implantadas em outros países. Mas por que importamos iniciativas fracassadas do século passado?

    Negros são principais vítimas

    [video:https://youtu.be/T55-8kfywGY%5D

    Nos EUA, a discussão sobre raça é o centro da discussão da guerra às drogas. Movimentos de mulheres como o Break the Chains debatem o assunto prioritariamente sob esse prisma, uma vez que, de acordo com o Censo Americano, negros são cerca de 14% da população americana, mas representam, de acordo com levantamento do Washington Post, 26% das pessoas mortas por policiais e 12% da população que usa drogas. São, porém, 38% dos presos e 59% dos que são enviados a presídios federais, segundo a National Association for the Advancement of Colored People. Panorama bem semelhante ao do Brasil, onde negros foram presos cerca de 1,5 vez a mais que brancos (último dado disponível relativo à 2012), e jovens negros entre 19 e 24 anos têm 4,67 mais chances de morrer vítimas de arma de fogo que um branco. Os dados são do Mapa do Encarceramento: os Jovens do Brasil e Programa de Redução da Violência Letal, respectivamente.

    Na guerra às drogas estamos todos do mesmo lado: o lado dos perdedores. E as mulheres – especialmente as negras e periféricas – têm carregado este fardo há muito tempo. “São nossos filhos, pais, irmãos que tem sido presos e encarcerados, marcados por estas políticas. Mulheres não desistem. Quando elas se importam, elas não desistem”, explica Small .

    Vidas negras importam, mesmo quando o sangue é azul

     

    [video:https://youtu.be/YdxcBmHiaK0%5D

    Imagens adicionais: Coletivo Papo Reto e Maré Vive

    Nos EUA, o Black Lives Matter ganhou força reiterando a importância da vida de negros assim que assassinatos começaram a ser gravados e os vídeos divulgados, gerando enorme pressão popular. Em muitos casos, imagens são usadas como provas, com peso determinante em alguns deles – diferentemente do que ocorre aqui, quando nem diante da imagem de execução  há comoção pública.

    Em abril de 2015 , Michael Slager, um policial branco de 33 anos, foi demitido depois de ser acusado de assassinar Walter Scott, um homem negro de 50 anos que estava desarmado e foi atingido várias vezes pelas costas quando fugiu de Slager após uma abordagem. A demissão aconteceu antes mesmo do julgamento final.

    Em fevereiro do ano passado, Alan de Souza Lima, 15 anos, foi morto na Favela da Palmeirinha, em Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro. Quando foi baleado, ele estava fazendo um vídeo com mais quatro amigos. Caiu, e o celular continuou gravando.

    No vídeo, é possível ouvir vozes, que, segundo os meninos, eram de policiais militares perguntando por que eles haviam corrido. “A gente tava brincando, senhor”, responde um dos garotos. Em nota divulgada no dia seguinte, a Polícia Civil afirmou que os jovens foram feridos durante um confronto com PMs e que, na ação, foram apreendidos um revólver e uma pistola. Ainda segundo a nota, Chauan Cezário – um dos amigos filmados – foi autuado em flagrante por porte de arma e resistência. Três dias depois, o vídeo foi publicado pela organização Rio Consciente e causou uma reviravolta no caso. O então comandante da Polícia Militar do Rio, coronel Alberto Pinheiro Neto, determinou que os nove PMs envolvidos na ocorrência fossem investigados internamente pela corregedoria. Um dia depois, o comandante do 9º batalhão, onde os PMs eram lotados, foi exonerado. Os nomes dos PMs não foram divulgados, e eles estão fazendo trabalhos internos. Cezário, que, como Alan, é negro, também foi baleado e, quando recebeu alta médica, foi preso por porte ilegal de arma. Depois de conseguir um habeas corpus, está em liberdade.

     

    “São policiais pobres negros matando outros negros pobres. Então, as autoridades não se importam. Eles não se importam com negros.”

    Em setembro do mesmo ano, o soldado da PM Bruno Rodrigues Pereira, 30 anos, foi morto por traficantes em uma favela de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ele levou um tiro nas costas e, ainda estava vivo, quando foi arrastado, amarrado a um cavalo, por cerca de um quilômetro. Tudo foi gravado. Ele trabalhava na UPP Formiga, na Tijuca, e estava na PM desde 2012. Foi o 53º policial morto naquele ano. “Fica tranquila porque eu volto vivo”, dizia diariamente à esposa, que ficou sozinha para criar um filho de 11 anos no Parque Columbia, na Pavuna, Zona Norte do Rio.

    Apesar da brutalidade do crime, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, não se manifestou publicamente sobre o caso e nem compareceu à cerimônia fúnebre. O governador, Luiz Fernando Pezão, também permaneceu calado.

    Nos EUA, atualmente, é mais comum ver autoridades indo a público expressar repúdio. Foi o que aconteceu na Filadélfia, também em 2015, quando um policial foi morto num assalto. O Comandante Geral da Polícia veio a público lamentar e o governador do estado lastimou o ocorrido no Twitter.

    RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 22: Demonstrators march through the Manguinhos favela to protest against police killings of blacks on August 22, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. Every year, Brazil's police are responsible for around 2,000 deaths, one of the highest rates in the world. Many of the deaths in Rio involve blacks killed in favelas, also known as slums. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

    Moradores da favela de Manguinhos protestam contra violência policial no Rio de Janeiro, em agosto de 2014

    Foto: Mario Tama/Getty Images

    Exatamente no mesmo dia em que Bruno morreu, 29 de setembro de 2015, foi divulgado um vídeo em que um policial militar põe uma arma na mão de um adolescente baleado e faz dois disparos. Ao todo, cinco PMs forjaram o crime, que ocorreu no Morro da Providência, Centro do Rio. O crime foi incialmente registrado como “auto de resistência”. A primeira audiência de instrução do caso foi há cinco meses, e os policiais sustentaram a tese de confronto, que foi desmentida por peritos. Foi a partir da divulgação do vídeo pelas redes sociais que o chefe de Polícia Civil determinou que o caso fosse designado para a Delegacia de Homicídios e que fosse determinado o flagrante. O comandante da UPP Local à época disse que “os cinco policiais têm fichas disciplinares negativas, sem nenhuma punição disciplinar” e classificou a ação de subordinados de “procedimento irregular“. O processo segue na justiça.

    No relatório da Human Rights Watch “O bom policial tem medo”, divulgado este ano, foram identificados 64 casos nos últimos oito anos, nos quais a polícia do Rio tentou acobertar massacres ilegais e que deixaram 116 mortos, incluindo ao menos 24 crianças. No Rio, metade da população é negra – assim como três quartos das vítimas da polícia. Segundo o documento, o Ministério Público, que tem a função de fiscalizar o trabalho da polícia, apresentou denúncia em apenas quatro – ou 0,1%  dos 3441 casos de homicídios cometidos pela polícia que foram registrados entre 2010 e 2015. Para cada policial que morreu em serviço em 2015, a polícia matou 24 civis, uma taxa duas vezes maior que na África do Sul e três vezes maior que nos Estados Unidos.

    “São policiais pobres negros matando outros negros pobres. Então, as autoridades não se importam. Eles não se importam com negros”, reitera Small.

    Aqui, há uma interseção que não acontece por lá: os mortos, de ambos os lados, são negros. Enquanto comandantes e políticos – majoritariamente brancos e de extrato social diferente dos praças – assinam acordos negociando a vida alheia, na guerra às drogas, dos dois lados, vidas negras continuam sem importância. De acordo com o livro ”O negro na Polícia Militar: crime, cor e carreira no Rio de Janeiro”, que levantou dados entre 2000 e 2001, 66% dos praças da PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro) e 42% dos oficiais são negros.

    Apesar disso e da similaridade socioeconômica das vítimas abatidas no front – majoritariamente negros, moradores de bairros pobres – os movimentos sociais de vítimas não conversam. No Brasil, temos, de um lado, movimentos como o recém-criado Esposas Sangue Azul, formado por mulheres de Policiais Militares mortos, e, de outro, as Mães de Maio, que reúne mães que perderam seus filhos durante os “ataques” em maio de 2006, em São Paulo. Enquanto isso, o Estado e sua política de segurança pública baseada na proibição das drogas segue promovendo violações de direitos fundamentais e baixas dos dois lados.

    A violência em comunidades “pacificadas”

    [video:https://youtu.be/evO59HxnYyI%5D

    Do início do ano até dia 10 de agosto, 269 policiais foram feridos e 66 morreram no Rio de Janeiro. Deste total, 90 foram atingidos em áreas com Unidades de Polícia Pacificadora; três feridos integram a Força Nacional, destacada para os Jogos Olímpicos. De acordo com o ISP (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro), 25 pessoas morreram em áreas “pacificadas” em 2015 – 17 por “auto de resistência”. No Complexo do Alemão, foram nove mortes – três por “homicídio proveniente de oposição à intervenção policial”. Número diferente do contabilizado pelo jornal fundado por moradores Vozes da Comunidade, que apontou 21 mortos até agosto de 2015. De acordo com levantamento feito pelo veículo, este ano, 17 moradores e 10 policiais ficaram feridos e 10 moradores e 1 policial morreram.

    Estses dados, referentes a áreas que, tecnicamente, contam com um policiamento mais humano, de proximidade, fizeram Deborah Small questionar: “O que um outro policiamento pode ser? O que isso me mostra é que não há respeito pelas pessoas daquela comunidade. Como você vai passar a impressão de que você se importa com aquelas pessoas se você trata todos – inclusive crianças – como criminosos?”.

    FERGUSON, MO - AUGUST 11:  (EDITORS NOTE: Image contains profanity) Police force protestors from the business district into nearby neighborhoods on August 11, 2014 in Ferguson, Missouri. Police responded with tear gas and rubber bullets as residents and their supporters protested the shooting by police of an unarmed black teenager named Michael Brown who was killed Saturday in this suburban St. Louis community. Yesterday 32 arrests were made after protests turned into rioting and looting in Ferguson.  (Photo by Scott Olson/Getty Images)

    Polícia aborda cidadão em Ferguson, Missouri (EUA) em agosto de 2011, após série de protestos que acabou com 32 pessoas presas. Cidade ficou em alerta após um policial matar Michael Brown, um jovem negro que estava desarmado.

    Foto: Scott Olson/Getty Images

    Esse modelo se assemelha à política Stop and Frisk (Pare e Reviste, em tradução livre), cujo objetivo seria revistar pessoas, mesmo sem suspeição aparente, e que, desde 2002, revistou mais de 5 milhões de nova-iorquinos. Cerca de 80% deles negros e 9 em 10, inocentes. Em 2013, uma juíza declarou a iniciativa inconstitucional, por violações da Constituição e “listagem racial indireta” de milhares de cidadãos. O programa continua operando.

    Para o jurista e ex-governador do Rio de Janeiro (1994-95), Nilo Batista, “a UPP, antes de mais nada, é uma iniciativa completamente inconstitucional, que tem o apoio da grande mídia acrítica”. Isto, levando em consideração as restrições impostas a moradores de favelas em decorrência da militarização, que, de acordo com ele, só seriam possíveis se fosse decretado estado de sítio ou estado de defesa, consultado o conselho da república, o conselho de defesa e o Congresso Nacional.

    E aqui temos um ponto comum crítico: Bill de Blasio, democrata prefeito de Nova York desde 2014, e Dilma Roussef, tecnicamente de esquerda, ambos tidos como progressistas preocupados com violações de direitos, não barraram tais iniciativas. De Blasio tem sido questionado sobre o não cumprimento da promessa de campanha de dar fim ao Stop and Frisk e Dilma não apenas apoiou as UPPs, que viviam sua época de ouro, mas prometeu instalar unidades quando fosse eleita. Discurso que só foi abandonado quando a aliança política com o então governador do Rio, Sérgio Cabral, se desgastou.

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