4 de junho de 2026

Quando denunciar o golpe pode virar uma ameaça no mercado de trabalho

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Jornal GGN – O jornalista Felipe Pena (GloboNews) publicou no Extra um relato sobre a pressão que tem sofrido, até mesmo de amigos e colegas de trabalho, para parar de “denunciar o golpe” do impeachment nas redes sociais. Um dos argumentos usados para fundamentar o pedido é de que ele pode ficar sem emprego se continuar nadando contra a corrente.

Por Felipe Pena

O Macarthismo brasileiro e a espiral do silêncio

No Extra

“Felipe, você tem que parar com esse Diário do Golpe no facebook” – aconselha um amigo, muito preocupado com minha carreira. “Vão te boicotar em todas as mídias” – acrescenta, para, em seguida, citar roteiristas, escritores e professores que estão numa suposta lista de excluídos que ousaram chamar o processo de impeachment pelo seu verdadeiro nome: golpe.

Não estou preocupado com isso, respondo. Falo sobre a inexistência do crime de responsabilidade de Dilma, atestada pelo Ministério Público Federal e pela perícia do senado. Falo sobre as gravações de senadores dizendo que precisavam tirar a presidente para barrar a operação lava-jato. Falo sobre o inciso 39 do parágrafo 5º da Constituição para embasar juridicamente meu argumento. Mas não adianta. Meu amigo é sincero, só está preocupado comigo, não quer saber de política. Ele próprio apagou postagens em redes sociais para não ser excluído da empresa onde é roteirista. “Eu já desisti” – conclui, aliviado.

Com exceção da parte tecnológica, parece uma conversa travada na década de 1950. Sinto-me vigiado pelo senador MacCarthy em plena guerra fria. Pior ainda, percebo nas palavras de meu amigo a exemplificação da espiral do silêncio, conceito criado pela pesquisadora Noelle-Neuman para explicar como as interações sociais tendem a priorizar opiniões dominantes, ou melhor, opiniões que parecem dominantes, consolidando-as e ajudando a calar as diferenças.

Para Neuman, as pessoas tendem a esconder opiniões contrárias à ideologia majoritária, o que dificulta a mudança de hábitos e ajuda a manter o status quo. A opção pelo silêncio é causada pelo medo da solidão social, que se propaga em espiral e, algumas vezes, pode até esconder desejos de mudança presentes na maioria silenciosa. Só que esses desejos acabam sufocados pela espiral do silêncio.

Em outras palavras, as pessoas não são apenas influenciadas pelos o que os outros dizem como também pelo que imaginam que eles poderiam dizer. Se acharem que suas opiniões podem não ter receptividade, optam pelo silêncio.

Os golpistas contam com a espiral do silêncio. Meu amigo, que antes era combativo e atuante, foi tragado por ela e busca a integração social através da observação da opinião dos outros, procurando se expressar dentro dos parâmetros que o cercam para evitar o isolamento.

No caso dele, há um agravante: o isolamento também pode ser profissional, o que inviabilizaria o sustento de sua família. É aí que entra a técnica macarthista. Listas ou suposições de listas servem como chantagem para os que ousam nadar contra a corrente.

A ameaça de exclusão alimenta a espiral do silêncio. Ela é o vetor totalitário que perpassa a construção de um falso consenso e constrói a ponte para o passado. Ela é o terror das vozes dissonantes. Ela é o atraso.

O #DiárioDoGolpe é apenas um registro de quem se recusa a ser tragado pela espiral. Será publicado, diariamente, numa TL perto de você.

* Felipe Pena é jornalista, escritor e psicólogo. Professor de roteiro na UFF, foi comentarista do Estúdio I, na GloboNews, e é autor de 15 livros.

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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12 Comentários
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  1. Frederico69

    19 de julho de 2016 9:07 pm

    novos tempos,

    onde em vez da esperança e alegria, tristeza e medo!

  2. Alan Souza

    19 de julho de 2016 9:58 pm

    Pois então pensem nisso

    E pensem onde as coisas chegariam num serviço público sem estabilidade, como se pregou em outra coluna hoje, aqui no blog, como argumento para modernizar e arejar o discurso da Esquerda.

  3. Emma

    19 de julho de 2016 10:40 pm

    Coragem

    Os comentários do Felipe Pena no Estúdioi , na GN, faziam o contraponto dos outros participantes. Ele sumiu de um dia pro outro, sem explicações, como sumiu também minha vontade de assistir o programa.

    1. nice maria

      20 de julho de 2016 8:11 pm

      artigo “coragem”

      Tenho horror de pessoas, empresas, instituições que não são democráticas, que não são capazes de respeitar a opinião de uma maioria, ainda que essa opinião não coincida com a sua. Foi o que aconteceu com esse golpe do Temer e do psdb, que quiseram tomar o poder à força. Sinto profunda tristeza em perceber que vou passar uma vida inteira por aqui e não vou ver esses senhores serem banidos da política brasileira, que, a 500 anos, é a mesma !!! Não deixam o país se desenvolver porque não lhes interessa ver a nação e as pessoas crescerem, porque isso lhes diminuiria a possibilidade de continuar fazendo o que e do modo como bem entenderem, engordando cada vez mais suas contas bancárias e a de seus herdeiros. Pobre país !!! Poderia ser grande, forte, com menos pobreza, menos violência, com as pessoas vivendo muito melhor, mas eles não deixam. Se for buscar a fundo, são eles os herdeiros, dos herdeiros, dos herdeiros dos coronéisde sempre !!! Infelizmente, somos uma sociedade doente, na qual já não acredito mais. Só consigo sentir um grande pesar ….

  4. Jofran Oliva

    20 de julho de 2016 1:59 am

    A mídia brasileira de direita. . .

    A mídia brasileira de direita: Globo, Band, Editora Abril, Folha e Estadão, patrulham seus empregados, que são obrigados a pensar, falar e agir pela cartilha dos patrões, muitas vezes operando contra si próprios, já que não passam de trabalhadores que não podem defender seus direitos, mas só os direitos do patrões.

  5. Edna Baker

    20 de julho de 2016 3:08 am

    Estamos vivendo uma situaçã

    Estamos vivendo uma situaçã deplorável no Brasil. Numa consulta médica no consultório de um dos melhores oftalmologistas do Rio de Janeiro ao saber o médico que era eu uma cliente de esquerda me senti tratada com o maior desrespeito nāo aceitando minha escolha de lado e sugerindo o assassinato da presidente Dilma. Saí do consultório em estado de choque e o médico ainda mandou a secretária me cobrar 500,00 reais indevidos pois era aquela uma volta para mostra de resultados de exame. Sou, era cliente dele há dez anos e nāo resta dúvida que aquele foi um ato de expulsão por parte do médico.  Fui expulsa do consultório por ser de esquerda. Socorro!!!

  6. Edna Baker

    20 de julho de 2016 3:08 am

    Estamos vivendo uma situaçã

    Estamos vivendo uma situaçã deplorável no Brasil. Numa consulta médica no consultório de um dos melhores oftalmologistas do Rio de Janeiro ao saber o médico que era eu uma cliente de esquerda me senti tratada com o maior desrespeito nāo aceitando minha escolha de lado e sugerindo o assassinato da presidente Dilma. Saí do consultório em estado de choque e o médico ainda mandou a secretária me cobrar 500,00 reais indevidos pois era aquela uma volta para mostra de resultados de exame. Sou, era cliente dele há dez anos e nāo resta dúvida que aquele foi um ato de expulsão por parte do médico.  Fui expulsa do consultório por ser de esquerda. Socorro!!!

  7. Tadeu Silva

    20 de julho de 2016 3:26 am

    Espiral

    Ela traga primeiro os mais dependentes economicamente. Questão de barriga cheia ou vazia.

  8. alexis

    20 de julho de 2016 10:29 am

    Em compensação….

    Dirigentes lojistas e empresários, de qualquer área, se juntam ao redor do pato amarelo. Há casos de “birra” e teimosia em “não” investir até não sair Dilma do poder, desde concluídas as eleições de 2014.

  9. Geraldo Hasse

    20 de julho de 2016 11:52 am

    A opressão conservadora vem

    A opressão conservadora vem de cima para baixo e vice-versa. A espiral neutraliza as ações progressistas. A mídia não registra tudo o que vem acontecendo nos bastidores do Poder. Um exemplo simples: o economista Paul Singer, uma das melhores cabeças da esquerda brasileira, foi substituído em seu cargo federal por um escrivão da polícia aposentado. A espiral abafa.

  10. Em tempo de espionagem, sou ninguem

    20 de julho de 2016 12:19 pm

    Minha experiencia

    Eu sou funcionario publico, criei um serviço que nao existia no orgao e o chefiei por alguns anos. Em 60 dias ja estavamos recebendo certificaçao de qualidade, resumindo, perdi o cargo (nao que me importe com isso) e sou taxado pela nova direçao golpista (PMDB) de funcionario ruim e que incita boicotes e nao quer o bem geral da empresa, motivo: Colaborei num abaixo assinado com 60% dos mil trabalhadores pedindo a saída do PMDB entreguista da direção de nossa empresa. O percentual só não foi maior porque a meta nossa era essa. Quem puder, tem que resistir o golpe em sua casa, na rua, no trabalho. Já derrubamos 2 diretores em 3 meses. Minas Gerais está numa situação identica à de Brasilia.

  11. fabio xavier

    20 de julho de 2016 2:35 pm

    o orgão de maior dor de

    o orgão de maior dor de qualquer pessoa é sempre o bolso, não importa a ideologia dominante

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