4 de junho de 2026

Folha “turbina manchete” contra Haddad

Por razões óbvias,  Suzana Singer, ombudsman da Folha de S. Paulo, precisa usar de uma linguagem cheia de sutilezas (manchete apimentada, mérito da reportagem) e eufemismos (apostar na confusão) para dar o seu recado. Mas o que ela está dizendo é o mesmo que nós dizemos aqui todo santo dia: tal qual seus comparsas na mídia, a Folha mente, inventa, deturpa, distorce a notícia, sempre contra um partido (PT), seus aliados, seus candidatos, seus membros e simpatizantes. E sempre a favor de outro partido, o PSDB, ou quem quer que esteja disposto a aliar-se a seus propósitos golpistas.

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Manchete turbinada

Título da Folha coloca palavras na boca do candidato petista e ofusca mérito da reportagem

Por SUZANA SINGER (ombudsman da Folha), na Folha de S.Paulo 

O noticiário político está pegando fogo com a disputa acirrada pelo segundo lugar na corrida eleitoral em São Paulo e com o julgamento do mensalão caminhando para a sua fase mais crítica.

Num momento de ânimos muito acirrados, a manchete da Folhade quarta-feira passada teve o efeito de uma bomba. No impresso: “Haddad diz que associá-lo a José Dirceu é degradante”. No site: “Haddad diz que é degradante ser ligado a Dirceu e Delúbio”.

Quem lesse só os títulos concluiria, como disse um leitor, que o candidato petista, num momento confessional, admitiu algo que estava entalado na garganta.

Não era isso. A campanha de Fernando Haddad tinha tentado proibir na Justiça Eleitoral uma propaganda de José Serra que afirmava que votar no adversário implica trazer de volta José Dirceu, Delúbio Soares e Paulo Maluf.

“Sabe o que acontece quando você vota no PT? Você vota, ele volta. Fique esperto. É o velho PT, agora em nova embalagem”, dizia a inserção dos tucanos.

Os advogados da campanha petista argumentaram que o anúncio era “degradante porque promove uma indevida associação entre Fernando Haddad e pessoas envolvidas em processos criminais e ações de improbidade administrativa”. A ligação seria “indevida”, porque Haddad não é réu no mensalão nem responde a acusações de corrupção.

A frase que virou manchete foi pinçada da medida judicial e editada como se fosse uma declaração do ex-ministro da Educação (“Haddad diz que…”). Um título correto poderia ser “Haddad tenta barrar comercial que o associa a Dirceu”.

A diferença não é sutil. “Fui juiz eleitoral e percebi logo que a manchete foi tirada de um processo. Nenhum político diria que a relação com um aliado é degradante. É uma linguagem do direito eleitoral, já que a própria lei usa o termo degradante para caracterizar um tipo de propaganda que é vedada”, explica Flávio Luiz Yarshell, 49, professor titular de direito processual da USP.

Ele compara a situação à de Luiza Erundina, que desistiu de ser vice do PT depois que se anunciou a aliança com Maluf. “Ela afirmou categoricamente que estava desconfortável com a situação. Haddad não disse isso e não cabe ao jornal fazer esse tipo de presunção”, diz.

A Secretaria de Redação não concorda que a manchete tenha sido “turbinada”. “As argumentações dos advogados de Haddad na Justiça equivalem à manifestação do próprio candidato. Ele é o responsável e o principal interessado em qualquer intervenção de sua campanha. O mesmo raciocínio vale para outras atividades, como a arrecadação de recursos”, afirma.

O efeito de um título apimentado pode ser devastador, principalmente na internet, onde se lê muito o que está em letras grandes e pouco o que vem logo abaixo. A reportagem ficou entre as mais lidas na quarta-feira e foi a que recebeu mais comentários no dia (1.042).

A mão pesada da edição ofuscou o mérito da reportagem. AFolha percebeu que a medida judicial contra a propaganda tucana explicita a contradição que existe no esforço do PT de se desligar de parte do próprio PT -e de Paulo Maluf, cujo apoio foi celebrado em encontro no jardim da casa do ex-prefeito.

Sem colocar palavras na boca do candidato, o jornal conseguiria atingir o mesmo objetivo. A duas semanas do primeiro turno, é hora de ajudar o eleitor a decidir, não de apostar na confusão.



Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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