4 de junho de 2026

Finalmente em CD o melhor disco de samba de todos os tempos

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Axé!” foi o canto do cisne de Candeia. O melhor disco de samba já feito. O mestre viria a falecer em 1978 antes de vê-lo nas lojas. Talvez esta ânsia final explique a força deste disco que sai pela primeira vez em CD como foi lançado. Já era possível garimpar as faixas em coletâneas vagabundas, mas só agora a Warner nos concede o favor de lançar o disco por completo. O encarte é merreca, mas para nossos amigos do Samba & Choro publico a capa e o encarte originais. O (re)lançamento é na coleção Dose Dupla, junto com outro disco, o bom Luz da Inspiração. Veja algumas lojas onde comprar o disco. Faça-o antes que a tiragem acabe. É um item obrigatório na discoteca de quem gosta de música brasileira.

Mas o que me leva à contundente afirmação de que este é o melhor disco de samba? Afinal de contas, o que não falta é disco de samba bom por aí. Os motivos são vários.

O disco coroa a trajetória redentora de Candeia. O antigo policial truculento é baleado, se queda em uma cadeira de rodas, e se torna líder de seu povo. Um dos principais defensores da cultura brasileira, não o fazia apenas na sua arte. Para combater a mercantilização do carnaval arregimentou sambistas de várias escolas para fundar uma agremiação não competitiva, a Quilombo .

As participações especiais do disco são estrelares. Cantam as grandes damas Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara e os baluartes portelenses Alvaiade, Chico Santana e Manacéa. O coro, peça fundamental nos arranjos, é nada menos que a Velha Guarda da Portela.

repertório é primoroso. Quase todas as músicas são de Candeia, algumas com parceiros como Casquinha, Martinho da Vila e Waldir 59, as demais são de compositores importantes como Alcides “Malandro Histórico”, Paulo da Portela, Casquinha, e os imperianos Aniceto e Mulequinho. As canções são fortes lamentos, belas, políticas, cantando a vida de nosso povo, celebrando o Samba e sua arte. Versos de arrepiar, como os de “Pintura sem Arte” em que leciona que “não basta fazer uma linda canção/ pra cantar samba se precisa muito mais/ Samba é lamento/ é sofrimento/ é fuga dos meus ais” e arremata agradecendo à saudade em seu seu peito que o permite compor. Todas as músicas, sem exceção, se tornaram clássicas e são cantadas até hoje nas boas rodas de samba do Brasil.

É batucada de primeira. Dos 14 instrumentistas, 9 são percussionistas de elite: Luna, Marçal, Gordinho, Arnô Canegal, Wilson das Neves, Doutor, Carlinhos, Testa, Geraldo Bongô. Completam o time o violão de João de Aquino, o sete cordas de Valter, o cavaco de Volmar, a flauta de Copinha e o bandolim de Niquinho.

Mas o principal motivo deste ser o melhor disco de samba já feito é outro. Um velho filósofo alemão ao analisar as primeiras gravações argumentava que elas não tinham a aura das apresentações ao vivo. Quem já participou de uma autêntica roda de samba sabe o quanto isto é verdade. Bom é com todos de pé em volta dos músicos. Quando todo mundo bate palma e canta junto. Quando a plateia também se torna artista. Quando se torna algo mágico.

Nunca se capturou tão bem em uma gravação o espírito de uma roda de samba como em “Axé!”. E, caraca, que roda! Os arranjos de João de Aquino são estupendos. As músicas emendam uma na outra, sem deixar a animação cair. O coro — a Velha Guarda da Portela! — entra forte nas músicas, nos fazendo querer soltar os pulmões juntos. Se ouve até o barulho das cervejas geladas e dos copos.

Ao se colocar o CD para tocar, o feitiço começa. O chão do apartamento vira um terreiro ancestral, no meio da sala crescem a jaqueira da Portela, a tamarineira do Cacique e a mangueira da Estação Primeira. Ouvindo os tambores, nos encontramos dentro desta roda encantada em que a música se torna reza e comunhão. O Mestre nos alerta: “Olha a cadência, olha a cadência…”

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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