4 de junho de 2026

A proibição do crack pelo tráfico do Rio

De Ancelmo Góis / O Globo

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Especialistas falam sobre a proibição do crack pelo tráfico

Traficantes de drogas proibirem a venda de crack é mais ou menos como as farmácias decidirem suspender o comércio de remédios de tarja preta. Especialistas em segurança pública ainda não sabem explicar o que levou o tráfico de drogas a anunciar que vai proibir o crack em favelas do Rio, mas concordam que a estratégia é parte de mudança estrutural pela qual passa o crime organizado na cidade além da consequência do crescimento da repressão ao crack. Luiz Eduardo Soares, que acabou de lançar “Tudo ou Nada” (Editora Nova Fronteira) — que conta a história de um traficante internacional de drogas — afirmou que o anúncio da proibição de venda do crack pelos próprios criminosos é reflexo das transformações que vêm ocorrendo no tráfico do Rio em consequência também do projeto de pacificação de favelas.

— A UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) acaba promovendo a modernização do tráfico, que está se tornando cada vez mais nômade — afirma Luiz Eduardo, lembrando que os traficantes do Rio já haviam decidido não vender crack, mas voltaram atrás, possivelmente influenciados por parcerias com a maior facção criminosa de São Paulo.

Soares lembra que “os protagonistas da economia do tráfico são capazes de avaliações e certamente chegaram à conclusão de que o negócio com o crack tem alto risco e baixa lucratividade”.

— Os traficantes sabem que o crack liquida em pouco o tempo o consumidor. Persistir nesse negócio é como matar a galinha dos ovos de ouro — diz Luiz Eduardo.

O professor Michel Misse, outro pesquisador importante da área de segurança, observou que não se sabe o motivo da decisão do tráfico de drogas, mas há apenas hipóteses que explicariam a medida.

— O quadro de repressão ao crack com certeza é um dos fatores. Sendo assim seria uma decisão racional deixar de transacionar esse produto. Isso ajudaria a evitar a chamar a atenção para o negócio das drogas como um todo — diz Misse, acrescentando que a pesquisa de campo nas favelas tornou-se sido cada vez mais difícil, desde a morte do jornalista Tim Lopes, em 2002, e a partir do projeto de pacificação de favelas, em 2008.

A delegada-titular da Dcod (Delegacia de Combate às drogas), Valéria de Aragão Sádio, disse que já tinha obtido a informação de que os traficantes da maior facção criminosa iriam parar a venda de crack na Faixa de Gaza — favelas da Zona da Leopoldina, na Zona Norte do Rio, como revelou hoje a coluna de Ancelmo Gois.

— Se confirmada a informação é realmente uma vitória de toda a sociedade, não importa a intenção dos criminosos — afirmou a delegada, lembrando que é o momento de o poder público investir no tratamento dos dependentes químicos.

Isso também é assunto para outro post.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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