Comentário ao post “A crítica aos conceitos téoricos da sociologia”
Não li o livro, mas fiquei curioso e certamente vou ler. Como cientista social e professor de universidade pública fico tentado a concordar, de pronto, com as críticas do autor. Mas terei cuidado. Às vezes, teses muito bombásticas como essa escondem certo desejo de autopromoção. Até porque mexe com gente boa como Sérgio Buarque e Florestan, mas veremos. Ninguém está imune às reavaliações teóricas e o teor da crítica pode ser adequado, ou exagerado. Só o tempo e a saraivada de críticas dirão.
Em princípio, porém, concordo com a noção de que há um descolamento das Ciências Sociais em relação à realidade que pretendem revelar. Desde que, felizmente, a metafísica morreu para as ciências, pelo menos teoricamente, a verdade começou a passar pelo crivo da verificabilidade. O diabo é que em Ciências Humanas isto às vezes se confunde com uma espécie de estética compreensiva amparada num insuportável contorcionismo verbal. Explico: Descobre-se uma bela imagem metafórica, preenchem-se os espaços vazios com um sem número de pressupostos teóricos que dialogam com autores anteriores e os desconstroem, e “voilá”, temos uma abordagem teórica com grandes possibilidades de sucesso no mundo acadêmico!
Estou farto dos modismos teóricos, dos chavões estilizados (démarches, cartografias, etc.). Há alguns anos tivemos que agüentar a idéia de que tudo se explicava a partir dos “rizomas” de Deleuze e Guattari. Uma chatice sem tamanho e incompreensível. Parecia que teríamos que voltar aos bancos escolares e aprender, novamente, botânica para atualizarmo-nos como sociólogos. Antes disso dominou o imaginário de Cornelius Castoriadis. Agora, tudo se explica pela “liquidez” da vida, da modernidade, das relações humanas, porque Zygmunt Bauman. Descobriu esta metáfora maravilhosa.
Claro que não quero ser injusto e jogar todo mundo na vala comum. Muitas das teorizações geradas nos últimos vinte ou trinta anos são muito boas. Entretanto, acho que o uso que a academia faz delas é que se tornou o grande problema e isso tem relação com o que esta academia se tornou, mas este é outro problema.
Lembro-me de ter lido, há uns dez anos quando ainda fazia doutorado, um autor de cujo nome não me recordo e que estou meio sem vontade de procurar a referência, que dizia algo como: “Uma teoria não deve ser somente verdadeira. Ela também tem que ser bonita”. Recordo-me bem disso porque a frase motivou um debate entre mim e o professor de metodologia muito acirrado. É a isso que chamo de estética compreensiva. Os conceitos, os títulos, as expressões de impacto tornaram-se muito importante para a formatação das teorias. Mais importantes, até que a descoberta do real. É algo semelhante ao que ocorre no universo jornalístico, Nassif, onde o repórter não necessariamente tem maior compromisso com o relato, mas com o impacto que a notícia deverá causar ao leitor. Outros tempos? Sei lá…
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