4 de junho de 2026

Os dilemas da aplicação da lei da inclusão

Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O Dilema da inclusão no Trabalho de Pessoa com deficiência.

A Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991 estabeleceu uma cota de vaga no mercado de trabalho para portador de deficiência. Um avanço para inclusão social destes profissionais.

Da criação da Lei e sensibilização e conscientização dos empresários sobre a situação de exclusão destes cidadãos, muita água passou por baixo da ponte. Os primeiros dez anos de criação da lei tiveram poucas contratações por parte das empresas privadas. A alegação é que as mesmas precisavam de um tempo maior para adequar o ambiente de trabalho para receber estes profissionais com necessidades especiais. Os concursos públicos e convênios de entidades de portadores de deficiência com alguns órgãos públicos ofereciam mais oportunidades de inclusão. Neste período o foco das vagas eram mais nas funções administrativas, operacionais, serviços gerais, limpeza, etc. Trabalhos que exigiam pouca escolaridade. Ou seja, mão de obra barata. A alegação governamental e empresarial era que a maioria dos portadores de deficiência não tinha qualificação profissional nem boa escolaridade. Esta realidade não é privilegio só de portador de deficiência. Mas serviu na época e serve até hoje como alegação para manter o portador de deficiência fazendo sempre o trabalho menor ou de menos relevância no processo produtivo. Mesmo que muitos tenham boa formação escola, e qualificação profissional.

Tive meu primeiro emprego através da cota em 1991, ou seja, peguei a lei saindo do forno. Era um convênio de uma entidade de portador de deficiência com uma empresa de telefonia. De lá para cá sempre tive outros trabalhos me valendo das vagas da cota. Como falei acima, sempre em trabalhos operacionais, mas continuei meus estudos e me formeiem Comunicação Social/jornalismo pela UEPB – Universidade Estadual da Paraíba. Dei o tão esperado passo a frente na minha qualificação profissional e educacional. Com o tão sonhado e suado “Canudo-Diploma” nas mãos, coloquei o “pé na estrada” rumo a São Paulo. Cheguei em 2000 imaginando que formado e “beneficiado” com a cota seria “mamão com açúcar” arrumar um emprego legal na capital dos negócios e dinheiro. Fiz o dever de casa atendendo a solicitação dos empresários que diziam ser impossível encontrar um portador de deficiência formado. Mas logo percebi que a realidade era um “Ouro de Tolo”. Em 20 dias procurando trabalho: Encontrei-o. Mas para minha surpresa era trabalho operacional. Mas para quem tem filhos pequenos, é pegar ou chorar. Depois desse, passei por outros, todos operacionais. Essa realidade durou seis anos, e ai pensei algo estar errado. Enquanto estava empregado em funções abaixo da minha qualificação acadêmica e profissional. Agora, podia dizer que tinha uma profissão ou uma qualificação profissional tão almejada. Analisando a engrenagem do sistema da cota percebi que o trabalho oferecido no mercado privado continuava sendo OPERACIONAL e BRAÇAL, nada contra estas funções, passei por elas quando não tinha a tal QUALIFICAÇÃO ACADÊMICA E PROFISSIONAL.

Em 2006 já decido a “chutar o pau da barraca” e ou entrar na carreira de formação ou volta para roça. Comecei a dispensar categoricamente todas as oportunidades operacionais das agências de emprego que nem liam meu currículo e muitas ignoravam minha formação acadêmica. Enfim duas oportunidades em empresas de comunicação, depois de seis anos mandando currículo religiosamente em intervalos de seis meses. Mas para minha surpresa a primeira era OPERACIONAL. Mas ponderei, é o primeiro degrau. Ledo engano, em três meses eu percebi que a escada só tinha um degrau. Mas para minha surpresa fui selecionado para a segunda oportunidade. Pela primeira vez em seis anos e dez meses de formação minha carteira foi assinada como: REPÓRTER. Enfim minha profissão. Mesmo que neste período já exercesse esta na minha revista musical. Mas ter a carteira assinada por uma empresa de comunicação de grande porte foi um gol olímpico aos 50 do segundo tempo. Foi passando os anos e mudando de redações e percebendo que o primeiro degrau na carreira de repórter era perpetuo. Em contatos com outros portadores de deficiência na mesma empresa e em área administrativa a realidade era a mesma: Estagnação na Carreira. E em comum um sentimento que o cargo que assumíamos era vinculado à Cota. Ou seja, contratado para aquela função perpetua. Algo, como se sinta feliz por estar aqui. Em condições de igualdade e competência profissional com os “normais” estariam bem longe daqui. A impressão que dar é que a maioria dos chefes não avalia a capacidade profissional, mas acham privilegio a vaga pela cota. Na prática não propõem desafios para testar o profissional contemplado pela Cota, mas fácil pré-julgar a incompetência obvia imaginada por eles. É um dilema, antes tinha ocupação abaixo da minha capacidade mental e profissional. E conheci o outro lado, ter possíveis desafios para enfrentar e crescer profissionalmente. Mas recebi a carta prévia de incompetência como referência futura. E fica o sentimento que atravessei uma ponte e cheguei ao mesmo ponto inicial.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados