3 de junho de 2026

Uma explicação sobre a meia verdade jornalística

Como se processa a mentira jornalística Em meu “O jornalismo dos anos 90” escrevo um capítulo sobre as ferramentas de manipulação da notícia pela mídia.

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Um dos recursos poderia ser batizado de “o jogo de juntar pontos”. Como no jogo, jogam-se vários pontos em uma página em branco. Alguns pontos são verdadeiros – e nem por isso, relevantes. Com base nos pontos verdadeiros, o repórter “investigativo” junta os outros pontos formando o desenho que bem entender, mesmo que todos os demais sejam falsos.

A cobertura do Dossiê Cayman, pela Folha, ou a série de matérias de Veja-Cachoeira valeram-se desse estratagema. Por exemplo:

  1. O embaixador cultural de Cuba mandou uma caixa de rum para o PT em São Paulo. Verdadeiro.
  2. A caixa veio em um jatinho que saiu do aeroporto de Brasilia. Verdadeiro.
  3. O jatinho desceu em Cumbica. Verdadeiro
  4. A caixa foi levada para a sede do PT. Verdadeiro.
  5. A caixa continha dólares guardados nas garrafas. Falso e inverossímel.

Apesar de totalmente inverossímil, ganhou ares de veracidade devido aos detalhes (insignificantes) acoplados à história.

Outra capa clássica da Veja, sobre o caso Cacciola:

  1. Os Bragança eram amigos de Chico Lopes (presidente do BC). Verdadeiro.
  2. Um dos Bragança tinha dois telefones celulares, declarados no Imposto de Renda. Verdadeiro.
  3. O Banco Pactual tem um registro junto ao FED de Nova York. Verdadeiro.
  4. O Pactual obtinha informações privilegiadas dos Braganca. A conferir.

A partir daí, o então repórter Policarpo Jr criou a seguinte história: o Pactual pagava Bragança por informações privilegiadas; o pagamento se dava através da conta xis (na verdade, o que tinha era o número de registro do Pactual em NY); as informações eram passadas através dos dois celulares, um com Bragança, outro com Chico; Cacciola passou a grampear o celular para ter acesso às informações; no dia aziago do fim da banda cambial, o grampo não funcionou.

Toda essa maluquice foi possível pela adição de detalhes alguns verdadeiros, outros não, porém insignificantes para a comprovação da tese.

As leis das meias verdades

Dois estudiosos norte-americanos – Daniel Kahneman e Amos Tversky -, especalistas em probabilidade, tem um interessantíssimo estudo sobre a questão da verdade e da meia verdade, dentro da teoria da probabilidade. Esse estudo mostra porque esses detalhes insignificantes (falsos ou verdadeiros) são importantes para dar veracidade a uma meia verdade.

Ambos conduziram um experimento no qual descreviam uma jovem, enquanto universitária. Depois apresentavam um teste para que determinado número de pessoas analisassem a probabilidade do que a jovem poderia ter se tornado:

  1. Uma feminista.
  2. Uma feminista bancária.
  3. Uma bancária.

Por qualquer análise que se faça, a probabilidade da jovem ser OU feminista OU bancária era maior que ser feministsa E bancária. No entanto, a maioria absoluta dos pesquisados cravou na opção B.

A conclusão de ambos era a de que ser feminista era a opção mais provável, a partir da descrição que fizeram da jovem, quando universitária. Mas quando se acrescentava o emprego de bancária, mesmo sem ter nenhum ingrediente capaz de induzir ao palpite, aumentava a credibilidade da situação.

Concluíram eles:

“Se os detalhes que recebemos se adequarem à imagem mental que temos de alguma coisa, então, quanto o maior o número de detalhes numa situação, mais real ela parecerá e, portanto, consideraremos que será mais provável – muito embora o ato de acrescentarmos qualquer detalhe do qual não tenhamos certeza a uma conjectura, a torne menos provável”

Dá para entender, por aí, a gênese da parceria Veja-Carlinhos Cachoeira.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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