Uma explicação sobre a meia verdade jornalística

Como se processa a mentira jornalística Em meu “O jornalismo dos anos 90” escrevo um capítulo sobre as ferramentas de manipulação da notícia pela mídia.

Um dos recursos poderia ser batizado de “o jogo de juntar pontos”. Como no jogo, jogam-se vários pontos em uma página em branco. Alguns pontos são verdadeiros – e nem por isso, relevantes. Com base nos pontos verdadeiros, o repórter “investigativo” junta os outros pontos formando o desenho que bem entender, mesmo que todos os demais sejam falsos.

A cobertura do Dossiê Cayman, pela Folha, ou a série de matérias de Veja-Cachoeira valeram-se desse estratagema. Por exemplo:

  1. O embaixador cultural de Cuba mandou uma caixa de rum para o PT em São Paulo. Verdadeiro.
  2. A caixa veio em um jatinho que saiu do aeroporto de Brasilia. Verdadeiro.
  3. O jatinho desceu em Cumbica. Verdadeiro
  4. A caixa foi levada para a sede do PT. Verdadeiro.
  5. A caixa continha dólares guardados nas garrafas. Falso e inverossímel.

Apesar de totalmente inverossímil, ganhou ares de veracidade devido aos detalhes (insignificantes) acoplados à história.

Outra capa clássica da Veja, sobre o caso Cacciola:

  1. Os Bragança eram amigos de Chico Lopes (presidente do BC). Verdadeiro.
  2. Um dos Bragança tinha dois telefones celulares, declarados no Imposto de Renda. Verdadeiro.
  3. O Banco Pactual tem um registro junto ao FED de Nova York. Verdadeiro.
  4. O Pactual obtinha informações privilegiadas dos Braganca. A conferir.

A partir daí, o então repórter Policarpo Jr criou a seguinte história: o Pactual pagava Bragança por informações privilegiadas; o pagamento se dava através da conta xis (na verdade, o que tinha era o número de registro do Pactual em NY); as informações eram passadas através dos dois celulares, um com Bragança, outro com Chico; Cacciola passou a grampear o celular para ter acesso às informações; no dia aziago do fim da banda cambial, o grampo não funcionou.

Toda essa maluquice foi possível pela adição de detalhes alguns verdadeiros, outros não, porém insignificantes para a comprovação da tese.

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As leis das meias verdades

Dois estudiosos norte-americanos – Daniel Kahneman e Amos Tversky -, especalistas em probabilidade, tem um interessantíssimo estudo sobre a questão da verdade e da meia verdade, dentro da teoria da probabilidade. Esse estudo mostra porque esses detalhes insignificantes (falsos ou verdadeiros) são importantes para dar veracidade a uma meia verdade.

Ambos conduziram um experimento no qual descreviam uma jovem, enquanto universitária. Depois apresentavam um teste para que determinado número de pessoas analisassem a probabilidade do que a jovem poderia ter se tornado:

  1. Uma feminista.
  2. Uma feminista bancária.
  3. Uma bancária.

Por qualquer análise que se faça, a probabilidade da jovem ser OU feminista OU bancária era maior que ser feministsa E bancária. No entanto, a maioria absoluta dos pesquisados cravou na opção B.

A conclusão de ambos era a de que ser feminista era a opção mais provável, a partir da descrição que fizeram da jovem, quando universitária. Mas quando se acrescentava o emprego de bancária, mesmo sem ter nenhum ingrediente capaz de induzir ao palpite, aumentava a credibilidade da situação.

Concluíram eles:

“Se os detalhes que recebemos se adequarem à imagem mental que temos de alguma coisa, então, quanto o maior o número de detalhes numa situação, mais real ela parecerá e, portanto, consideraremos que será mais provável – muito embora o ato de acrescentarmos qualquer detalhe do qual não tenhamos certeza a uma conjectura, a torne menos provável”

Dá para entender, por aí, a gênese da parceria Veja-Carlinhos Cachoeira.

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