4 de junho de 2026

França: A Derrota Da Direita Nas Eleições Francesas

Eleições na França 
O aprofundamento da crise do regime político burguês

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A direita francesa recebeu a sua pior votação dos últimos 30 anos. François Hollande, do PSF, e os partidos da frente popular deverão conter os trabalhadores e implementar as medidas impostas pelos especuladores 

23 de abril de 2012

 

De acordo com os resultados preliminares divulgados pelo Ministério do Interior da França, o candidato do PSF (Partido Socialista Francês), François Hollande, obteve a maior votação no primeiro turno das eleições presidenciais, realizadas no dia 22 de abril, com 28,4% do total dos votos válidos. O candidato da direitista UMP (União por um Movimento Popular), o atual presidente da República e candidato à reeleição, Nicolas Sarkozy, ficou em segundo lugar com 25,5% dos votos.

Sarkozy tornou-se o primeiro candidato a uma reeleição presidencial que não consegue vencer o primeiro turno em 30 anos e, provavelmente, deverá perder o segundo turno para Hollande por ampla margem conforme está sendo prognosticado por todas as agências de pesquisa eleitoral. A queda da direita ocorre como consequência do aprofundamento da crise capitalista no País, da mesma maneira que tem acontecido em outros países europeus, como a Itália, Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha.

O programa de governo de Sarkozy, quando venceu as eleições de 2007, com 5% de votos a mais que os obtidos no primeiro turno que em 2012, focava a implementação das clássicas receitas neoliberais que acabaram levando o capitalismo à pior crise da sua história: a desregulamentação do mercado financeiro; o desenvolvimento das hipotecas imobiliárias e de empréstimos subprime; os mesmos que levaram ao colapso capitalista dos EUA; a redução dos impostos pagos pelos ricos; o chamamento ao endividamento das famílias e os ataques contra os direitos dos trabalhadores sob a propaganda de “liberalizar” e “modernizar” o mercado de trabalho.

Como resultado dos cinco anos de governo do presidente Sarkozy, alguns dos resultados têm sido: um milhão de trabalhadores desempregados a mais; o aumento da dívida pública em € 500 bilhões; o dobro do déficit fiscal; a perda da nota máxima AAA da divida pública; a forte desaceleração industrial; o aumento da idade da aposentadoria de 60 para 62 anos; o corte de 150 mil funcionários públicos, conseguido mediante a reposição de somente uma vaga a cada dois aposentados; a reforma financeira das universidades, que aumentou o controle das empresas sobre o ensino; a ofensiva para acabar com a educação pública; uma lei que permite a criação facilitada de empresas, sem quase controles; a sensível diminuição dos impostos sobre as grandes fortunas e os lucros das multinacionais; ataques xenofóbicos contra os imigrantes e a deportação de ciganos. 

Perspectivas para o segundo turno das eleições presidenciais e a crise da direita 

François Hollande tem se convertido no candidato favorito da burguesia imperialista francesa em decadência, após Sarkozy ter colocado o País a reboque do imperialismo alemão e os seus níveis de popularidade terem atingidos os piores níveis desde 1950.

Figurões da direita francesa, tais como o ex presidente Jacques Girard, têm expressado a sua discordância com as políticas de Sarkozy e têm declarado o seu apoio à candidatura Hollande.

Todas as pesquisas apontam a vitória de Hollande no segundo turno com uma diferença de 8% até 15% dos votos.

A candidata da ultradireitista FN (Frente Nacional) obteve 20% dos votos, o dobro dos obtidos pelo seu pai no primeiro turno das eleições presidenciais de 2007, o que representa o fortalecimento das correntes fascistas como uma “carta na manga” da burguesia imperialista, que poderá vir a ser usado no futuro para enfrentar o avanço das massas trabalhadoras. De acordo com as pesquisas, apenas 40% desses votos deverão ser direcionados à candidatura de Sarkozy no segundo turno; o restante resultará no aumento do abstencionismo que, neste ano, alcançou, no primeiro turno, 20% do total de 44,5 milhões de eleitores habilitados, um aumento em quatro pontos percentuais em relação a 2007.

O candidato François Bayrou, do direitista União para a Democracia Francesa, obteve apenas 8,5%, a metade dos que tinha obtido em 2007.

Eva Joly, a candidata do Partido Verde (Os Verdes, Confederação Ecologista – Partido Ecologista), que é membro do PVE (Partido Verde Europeu) e tradicional aliado do PSF, teve 2% dos votos.

O partidos da esquerda burguesa da frente popular também sofreram um retrocesso eleitoral em relação às expectativas. O candidato Jean-Luc Mélenchon, do PE (Partido de Esquerda ou Partie Gauche), recebeu 11,7% dos votos, após ter chegado a ter até 19% nas pesquisas e ter recebido ampla cobertura pela imprensa burguesa, e já negociou o seu apoio a Hollande no segundo turno das eleições. O relativo avanço do PE representa o crescimento de um instrumento que no futuro poderá servir como base para a formação de um governo de coalizão da esquerda burguesa francesa com o objetivo principal de conter o avanço das massas trabalhadoras.

A votação dos setores da esquerda pequeno burguesa, que formam a ala esquerda da frente popular, foi inexpressiva, principalmente no caso do candidato Philippe Poutou, da antiga Liga Comunista Revolucionária (LCR) mandelista, o principal partido do SU (Secretariado Unificado), hoje chamada NPA (Novo Partido Anticapitalista), que teve em torno de 1,2% das intenções dos votos, muito longe dos 5% obtidos por seu candidato, Olivier Besancenot, nas eleições presidenciais de 2002 e 2007. 

O programa de governo de Hollande 

A expectativa dos setores da burguesia imperialista francesa que estão conduzindo Hollande à presidência na França, principalmente ligados aos setores industriais e militares, é que Hollande consiga, em primeiro lugar, conter o avanço das massas trabalhadoras perante o iminente aprofundamento da crise capitalista no País.

Hollande tem feito uma campanha muito tímida, focando principalmente promessas relacionadas a questões domésticas sem detalhar muito como conseguirá implementa-las e de maneira alguma vinculadas a um programa político de governo específico diferenciado intrinsicamente do governo anterior.

Propostas como a taxação parcial, e ínfima, da especulação financeira e a priorização do desenvolvimento frente aos planos de austeridade, impostos pelo imperialismo alemão e os especuladores financeiros, serão de dificílima implementação sem romper com os especuladores imperialistas, o que será muito difícil de acontecer devido a que o PSF é um representante do imperialismo francês, que se encontra profundamente inserido na especulação financeira mundial. O setor industrial francês foi fortemente afetado devido à enorme queda da demanda  por produtos franceses no exterior provocada pela crise capitalista e ao congelamento do plano para a implementação da UDM (União do Mediterrâneo), com o objetivo de explorar a mão de obra mais barata dos países mediterrâneos, sob o controle francês, para concorrer com o imperialismo francês devido ao mesmo motivo.

A campanha do imprensa imperialista mundial, liderada pelos imperialistas anglo norte-americanos e alemães está a todo vapor contra qualquer nova taxação e regulamentação dos mercados financeiros, assim como qualquer medida que se oponha aos interesses do imperialismo alemão, a potência hegemônica da zona do euro. Em 1981, trás a vitória de François Mitterand, a Bolsa de Paris despencou 17%. Agora, os fatores financeiros de pressão imediatos são muito mais críticos: a disparada dos juros; o rebaixamento da nota da dívida pública; o enorme endividamento público e privado; o gigantesco déficit público; o domínio da política monetária pelo BCE (Banco Central Europeu), que está sob o controle do imperialismo alemão; e as fortes amarrações e integração aos títulos da dívida pública espanhola, portuguesa, irlandesa e grega, e aos derivativos que contêm títulos públicos e franceses que estão nas mãos dos especuladores financeiros.

A solução do direitista Sarkozy para enfrentar a crise capitalista em disparada na França foi o atrelamento ao imperialismo alemão. A solução Hollande dificilmente conseguirá mudanças substanciais, além das meramente cosméticas, devido à enorme crise do imperialismo francês que tem enfrentado o seu contínuo  enfraquecimento desde as derrotas no Vietnã e na Argélia na década de 60 e que, no presente período, aparece como a potência imperialista de primeira ordem mais enfraquecida. Medidas como a retirada antecipada das tropas do Afeganistão ou a eventual contenção do ritmo da implementação das medidas neoliberais não conseguirão resolver os problemas relacionados com o aprofundamento da crise capitalista na França e no mundo que, na prática, não têm solução, devido à crise histórica do capitalismo, e que somente têm conduzido à disparada do parasitismo e ao estancamento econômico.

O choque entre o PSF e os setores que comporão a frente popular contra os trabalhadores deverá aumentar no próximo período quando o novo governo será obrigado a implementar os planos de austeridade, inclusive o que Sarkozy já deixou aprovado, e não conseguirá reativar a economia, pois isso é impossível de ser realizado sem romper com imperialismo mundial.

A classe operária francesa deverá construir o seu próprio partido, como expressão da sua política de classe, em cima de um programa revolucionário e socialista, com o objetivo organizar a sua luta pela expropriação da burguesia e pela implantação da ditadura do proletariado e a construção do socialismo.

Redação

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