Da Galileu
O homem do tempo nos tribunais
Com formação de cientista e cabeça de detetive, meteorologistas forenses ajudam a justiça a desvendar crimes
por Andréa Murta
FAÇA CHUVA OU FAÇA SOL: Thomas Else, 36, meteorologista em New Jersey. “Testemunhar para juiz é algo tenso”
Quando entrou no apartamento do casal Arica Schneider e Samuel Holly, a polícia da pequena cidade de Troy, no Estado de Nova York, encontrou uma cena caótica. Os corpos dos dois estavam caídos na sala em meio a piscinas de sangue.
Arica, 18 anos, tinha 30 facadas. Samuel, de 27, foi morto com 32 golpes. Havia mais sangue no chão da cozinha e nas paredes. O crime aconteceu em 2002 e, na época, os exames de DNA encontraram sangue de uma terceira pessoa, identificada como Michael Mosley, um traficante que negociava crack junto com Holly na região. Mosley foi acusado e julgado pelo crime em julho de 2011. Para sua condenação à prisão perpétua, um depoimento foi crucial: o de um meteorologista forense, um profissional que investiga as condições climáticas do passado em vez de fazer previsões. Ele era Howard Altschule, 39 anos, que havia trabalhado em um canal de TV em Albany, no estado de Nova York, fazendo previsões, antes de abrir sua empresa de consultoria e partir para os tribunais.
Altschule faz parte de um grupo de cerca de 100 profissionais nos Estados Unidos. Ainda sem regulamentação, o meteorologista forense consegue, no máximo, a certificação de consultor pela Associação Americana de Meteorologia, o que o aprova para que ele seja contratado para investigações. O interesse na atividade, porém, vem crescendo e algumas universidades já começaram a incluir a matéria forense na grade dos cursos de meteorologia.
DETETIVE METEOROLÓGICO
No duplo homicídio em Troy, Altschule foi contratado pela promotoria para investigar um dos argumentos da defesa. O acusado, que negou até o fim, disse que havia se cortado praticando snowboarding antes do crime e que seu sangue manchou o local quando ele encontrou os corpos. Uma análise meteorológica descobriu que na data em que Mosley dizia ter feito snowboarding, a temperatura era de 11 °C e havia chovido a tarde toda. Não havia neve no chão, portanto. “Ajudei a mostrar ao júri que tinha algo errado com a história”, afirma Altschule, cujo depoimento acabou pesando na hora da condenação.
O trabalho de detetive começou com os dados meteorológicos arquivados por uma estação de observação de superfície a cerca de 3 quilômetros do parque citado pelo réu. Essas estações, espalhadas pelo mundo, colhem dados que podem ser verificados tempos depois. Os instrumentos usados, que vão de radares e satélites a relatórios de raios, são os mesmos que um meteorologista comum usaria. O que muda é sua aplicação e o fato de que, em vez de olhar para o futuro, os forenses reconstroem o passado. “É necessário usar técnicas de análise e preencher as lacunas”, diz o americano Steve Harned, que trabalhou por 36 anos no Serviço Nacional do Tempo antes de fundar, em 2004, a consultoria Atlantic States Weather Inc. Há cinco anos, a maior demanda da empresa é de investigações para advogados que representam clientes da Louisiana e do Mississippi. Eles perderam suas casas com a passagem do furacão Katrina, em 2005, e agora processam o governo ou as seguradoras. Harned avalia o quanto as propriedades estiveram expostas aos efeitos do furacão e depõe em tribunais.
EU JURO: O meteorologista Howard Altschule, 39 anos, ajudou a resolver um assassinato duplo em Albany, Nova York
ESCORREGADA
Na prática, poucos casos chegam à corte — a maior parte termina em um acordo. Uma das estrelas da profissão, o meteorologista Paul Gross, 50 anos, baseado em Michigan, que calcula ter atuado em mais de mil processos, só se sentou diante do juiz cerca de 40 vezes. Seu trabalho mais comum tem relação a escorregões por conta da neve acumulada. “Até hoje me lembro do primeiro caso em que testemunhei, em março de 2009, sobre uma pessoa que dizia ter se machucado após escorregar e processou o dono do local do acidente por não remover a neve no solo. Eu depus sobre formação de gelo no local. E foi de estourar os nervos.”
Quando chegam ao juiz, ainda que poucas vezes, os meteorologistas-detetives precisam estar preparados. Nenhum dado técnico adianta se não souberem traduzir o que enxergam nos relatórios diante de um júri de leigos. “É necessário aprender linguagem jurídica”, explicou Thomas Else, 36 anos, outro ex-homem do tempo que se tornou analista forense da consultoria Weather Works, de Nova Jersey, em 1996. “Testemunhar para um juiz e jurados é algo muito tenso.”
O TEMPO E O VENTO
O trabalho de Gross se concentra em descobrir se o frio e a neve comuns em Michigan contribuíram para acidentes diversos. Seu primeiro depoimento em um tribunal, em 1989, foi na investigação sobre uma motorista que morreu ao sair da pista em uma estrada. A família processou o estado, alegando que as condições da estrada causaram o acidente e a defesa quis investigar se não havia neblina nesse dia. O carro havia caído em um lago congelado e, ao sair do carro e andar pelo local, o gelo cedeu, ela caiu nas águas geladas e morreu. A pedido da defesa, Gross buscou dados sobre a velocidade e direção do vento naquele dia. Descobriu que não havia neblina na estrada: o vento, que soprava paralelamente à margem do lago, não empurraria a névoa até lá. O problema não foi a falta de visibilidade. Mais tarde, a verdade veio à tona: a mulher havia bebido e por isso deslizou para fora.
Os melhores investigadores meteorológicos desenvolvem uma certa astúcia para reconstruir fatos do passado. Altschule faz experimentos, além dos boletins, antes de concluir suas análises. Observou, por exemplo, que a neve pode derreter mesmo aos -5 °C, algo que poucos colegas sabem. “Se a temperatura está entre -5 °C e 0 °C e há sol direto em um ângulo suficientemente forte, em geral entre meio-dia e uma hora antes do pôr do sol, a neve derrete. À noite, a neve congela de novo”, diz Altschule. Para quem escorregou, se machucou e agora quer milhares de dólares em indenizações, a informação é vital. O recongelamento leva entre uma e duas horas e os donos de estabelecimentos são obrigados a manter suas calçadas limpas sob pena de serem processados em caso de acidentes — se não tiverem feito a limpeza dentro de um período razoável. “A questão é quanto tempo a neve ficou acumulada no chão até ser removida.”
Em outra de suas investigações, uma companhia de energia encomendou um estudo dos últimos 25 anos com a intenção de provar que os desastres naturais estavam mais frequentes. E, assim, convencer o governo a permitir aumento das tarifas, já que haviam aumentado seus custos de manutenção e fornecimento. Ao final, tinham razão. “Ventos fortes e grandes tempestades aumentaram significativamente”, diz Altschule. Sua conta de energia elétrica, provavelmente, aumentou depois dessa. Mas, como ele mesmo repete, “O tempo é o tempo”. E, não importa para qual lado esteja trabalhando, as conclusões serão sempre iguais. Como em qualquer outro trabalho de detetive.
Meteorologia forense – Monolito Nimbus
9 de julho de 2024 11:25 am[…] Revista Galileu – O homem do tempo nos tribunais […]