De Zwela Angola
Europa: Crise da dívida. Falta de liderança ameaça globalizar o caos
Compromisso europeu de atribuir mais 200 mil milhões de euros dá base ao FMI para ir pedir mais dinheiro a outros países, defende Blanchard
Por Filipe Paiva Cardoso, i
O que era uma crise da dívida das periferias do euro em 2010 virou crise europeia ao longo de 2011. Agora o receio é que 2012 seja o ano em que a crise da dívida supere em força as fronteiras do Velho Continente – receio que as últimas previsões económicas, de recessão ou desaceleração nas regiões mais importantes, vão agravando. “O mundo inteiro está a ser guiado por declarações idiotas de alguns decisores europeus”, criticou ontem Jim O’Neill, presidente do Goldman Sachs Asset Management em declarações à Reuters, sublinhando que o facto mais importante da semana passada não foi a cimeira europeia, mas sim a divulgação de dados que mostram que a segunda economia do mundo, a China, entrou em desaceleração. “O problema na Europa não é realmente uma crise de dívida, é uma crise sobre estruturas de liderança… A Europa precisa de se organizar e mostrar que tem uma liderança própria”, acrescentou. Mas O’Neill não esteve sozinho nas críticas à esquizofrenia de liderança europeia.
“Muita da volatilidade actual é alimentada pelas inúmeras declarações na Europa, que vão mostrando um grande leque de opiniões e, sobretudo, a incapacidade de se montar um processo lógico de decisão”, atirou Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, ontem numa conferência em Telavive. Apesar de se dizer mais optimista “agora do que há um mês”, o responsável do FMI considera que o acordo a que se chegou na semana passada “é importante, mas é parte da solução, não é a solução”. Que passos faltam? Blanchard não respondeu.
Os líderes europeus acordaram na última sexta-feira preparar um tratado que aprofunde a integração económica na região, isto apesar do Reino Unido ter recusado aderir. Além dos 17 da moeda única, outros nove estados da União Europeia deram o seu “ok”. Os líderes europeus concordaram também em reforçar o contributo da região para o FMI em 200 mil milhões de euros, facto que o Fundo vai tentar aproveitar para ir procurar financiamento em outras zonas do globo. “O compromisso de nos darem mais 200 mil milhões faz uma grande diferença já que agora podemos ir falar com outros países e dizer-lhes ‘olhem, os europeus já nos deram dinheiro, querem ajudar?’”, explicou Olivier Blanchard. “Agora se isto nos dá uma bazuca ou não… espero que sim.” Mas fora da Europa a vontade de financiar o Fundo não é muita. Depois do “não” chinês, ontem chegou outro “não”, agora árabe.
O director-geral do Fundo Monetário Árabe disse este domingo que é pouco provável que venham a oferecer assistência financeira à zona euro, já que a prioridade é ajudar os países da sua região envoltos em processos de transição política. “Há uma grande necessidade de fundos nos países árabes, uma necessidade que é constante tendo em conta a Primavera Árabe”, referiu ontem Jassim al-Mannai à margem de um encontro de banqueiros da região no Abu Dhabi. “Além disso, os preços do petróleo devem entrar em queda à conta de um menor crescimento económico… não vejo como os países árabes poderão ajudar a Europa”, rematou.
Monti quer convencer alemães O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, ainda acredita ser possível converter os alemães à ideia das obrigações europeias.
“Acredito que há argumentos para convencer os alemães”, referiu Monti à “Euronews”. A seu ver, a Alemanha terá de perceber que é melhor emitir dívida em conjunto “de forma deliberada e consciente” ao invés de fazer o mesmo de forma disfarçada, através das compras de obrigações pelo Banco Central Europeu. Contudo, Jens Weidman, presidente do Banco Federal Alemão, devolveu a bola: “Vejo efectivamente nas decisões da cimeira um progresso”, declarou ao “Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung”. Mas “todas as partes envolvidas devem agora meter em marcha as medidas anunciadas”, exigiu o líder do Bundesbank, alertando que caso contrário qualquer tentativa de resolução da crise ficará sem efeito.
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