12 de junho de 2026

Alice no reino do iPad

ZUENIR VENTURA

Alice no reino do iPad

Terminei a última coluna perguntando: onde estão os novos Freud, Proust, Kafka e tantos outros que brilharam na Europa do século XX? A resposta, eu antecipava, é discutível. Eles estariam agora nos EUA e se chamariam Steve Jobs, Larry Page, Sergey Brin, Mark Zuckerberg ou Bill Gates. Mas, ainda que portadores de mentes brilhantes, será que eles, passada a emoção pela perda de Jobs, resistem à comparação? Considerando que não é a glorificação imediata, mas o tempo de decantação o que consagra um gênio, terá sido merecida a insistência com que a mídia exaltou o mais conspícuo deles por ocasião de sua morte? A verdade é que não se fazem mais gênios como antigamente e talvez as condições exigidas hoje não sejam as mesmas da época de um Leonardo Da Vinci ou de um Thomas Edison.

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Nada contra os gênios tecnológicos. Se eu não tivesse outras razões para admirá-los, teria a de que minha neta Alice, que acaba de completar 2 anos, é quem está me ensinando a lidar com o iPad de seu pai, que ela usa sozinha. Não é exagero de avô, não. Estou de fato aprendendo com ela. “Alice, bota o circo.” Ela vai no aplicativo e exibe um vídeo com o palhaço, o trapezista, o equilibrista. “Agora, põe o YouTube que tem os meninos discutindo.” Ela move a tela com o dedinho e atende ao meu pedido. É assim, aos poucos, que estou me familiarizando com a invenção do Steve Jobs. Só por isso já teria que agradecer a ele e chamá-lo de gênio, mas aí me dou conta de que gênio mesmo é Alice (a mídia é que ainda não descobriu).

Fico me perguntando se, com todos esses apelos audiovisuais, se com todo esse deslumbramento acrítico pelas novas mídias, com esse fascínio atual de índio por espelho, a geração de Alice ainda vai se interessar por livro e pelo que a leitura de um texto propicia: reflexão, conhecimento e senso crítico. Para tranquilizar, me dizem que, em vez de inibir a leitura, essas várias descobertas tecnológicas vão estimulá-la e que nunca se leu e escreveu tanto como agora. É verdade. Mas em geral é uma leitura efêmera e descartável para obter informação instantânea, não entendimento, num processo que desenvolve mais o reflexo do que a reflexão.

Não quero repetir o erro de muitos intelectuais de minha época, que rejeitavam a televisão por não haver ali, como se alegava, vida inteligente, era uma “máquina de fazer doido”. Também não proponho o livro como fetiche. Mas a cultura artística e literária é indispensável para fazer avançar a Humanidade. Quase quatro séculos depois, pode-se afirmar, por exemplo, que uma obra como a de Shakespeare “alterou a própria natureza humana”, como escreveu Harold Bloom no seu livro “Gênio”. Haverá no Vale do Silício alguém capaz disso? Só o amanhã dirá.

Publicado no Globo de hoje.

http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2011/10/26/alice-no-reino-do-ipad-413324.asp

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