São inúmeros os exemplos históricos da chamada psicologia de massa do fascismo, tema que Sigmund Freud estudou nos anos 1920.
Os mecanismos centrais descritos por Freud são conhecidos: a regressão do indivíduo a um funcionamento mais primitivo dentro da multidão; a substituição do superego individual pelo ideal do líder — ou de uma ideia-líder; e os laços libidinais verticais e horizontais entre os membros do grupo. Em outras palavras, vínculos afetivos dirigidos ao chefe, à causa ou aos próprios integrantes da massa, capazes de manter a coesão do grupo.
É nesses movimentos que explode o imbecil coletivo, expressão que Ortega y Gasset usava para classificar os primeiros movimentos de manada na era da comunicação.
A história está coalhada desses surtos: da Queda da Bastilha à ascensão do nazismo, dos movimentos de 1968 na França ao macartismo nos Estados Unidos, do golpe de 1964 no Brasil à campanha do impeachment de Fernando Collor — apesar de todos os vícios e defeitos do ex-presidente.
No Brasil, houve três fenômenos de grande proporção: a campanha contra Vargas, o golpe de 1964 e a Operação Lava Jato. Todos tiveram como mote a suposta luta contra a corrupção e contra o comunismo — seja lá o que seus protagonistas entendessem por comunismo.
O grau de maldade dos procuradores, da juíza e da delegada que levaram à morte do reitor Cancellier é fenômeno típico dessa psicologia de massa e da abolição de qualquer restrição ética nos movimentos de linchamento.
Mas não são eles que mais me impressionam. Eichmann está aí para ilustrar a transformação do funcionário público em monstro de crueldade.
A psicologia chama esse movimento de deindividuação: processo pelo qual uma pessoa, inserida em um grupo, perde temporariamente a noção de identidade individual e de responsabilidade pessoal, passando a agir de forma como jamais agiria sozinha. Fora daquele contexto — sem a multidão, sem a pressão situacional —, a pessoa “volta ao normal”, muitas vezes sem conseguir explicar inteiramente o próprio comportamento.
Não me refiro aos anônimos bestificados, mas a pessoas que assumiram a linha de frente desse linchamento continuado: jornalistas de nível, como Miriam Leitão e Reinaldo Azevedo; ministros do Supremo que hoje atuam como âncoras da estabilidade democrática, como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
Não se trata de cobrança pura e simples, mas de tentar entender o fenômeno a partir de quem experimentou o sangue na boca e, hoje, tem papel relevante na defesa da democracia. Com a consciência que demonstram agora, como explicariam o que se passava em suas cabeças no auge do macartismo caboclo? Como explicariam a denúncia de estudantes e professores — como fazia Reinaldo —, de funcionários de terceiro escalão — como fazia Miriam —, ou a participação na conspiração do impeachment — como fazia Gilmar? Ou a manipulação continuada do noticiário, como fazia toda a mídia corporativa?
Qual era a pomba-gira condutora dessa irracionalidade? Dê-se a eles o benefício da ignorância: talvez não pudessem supor que, no fim da linha, apareceria um Bolsonaro. Mas se no fim da linha tivesse um Aécio, melhoraria o quadro? É evidente que não.
Ajudaram a destruir um arcabouço institucional duramente criado pela Constituinte e preservado nas décadas seguintes. E não pelo desfecho Bolsonaro, mas pelo método empregado.
Hoje, o país está ameaçado por fora — pelo novo padrão do imperialismo norte-americano — e por dentro — pelos quintas-colunas, pelo chamado mercado e pela invasão do crime organizado. Ao mesmo tempo, há uma incapacidade generalizada de pensar o país, de clarear corações e mentes para a importância de um grande pacto nacional.
Sem isso, torna-se inócuo até o trabalho meritório atual dos convertidos, de defesa da democracia e da grande Nação Brasil.
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