A defesa da soberania tornou-se crucial para a própria perpetuação do Brasil como nação. Nunca as ameaças foram tão concretas e tão próximas. É a concretização das piores previsões dos filmes de ficção.
Com o enquadramento das organizações criminosas como terroristas, qualquer empresa e qualquer autoridade brasileiras estarão sujeitas às represálias dos Estados Unidos, em acusações sem provas e julgamentos sem contraditório.
Na Lava Jato, foi a espionagem digital norte-americana sobre o Almirante Othon que colocou nas mãos dos quintas-colunas brasileiros o destino do plano nuclear.
Agora, a digitalização, acelerada pelo advento da Inteligência Artificial, alcançou níveis inéditos de controle sobre as informações. Nos anos 2010, havia os grampos telefônicos, que permitiram ao Departamento de Estado monitorar até o telefone de mandatários, como Dilma Rousseff. Agora, os sistemas — olhos e ouvidos — estão encravados nos celulares, nos computadores, nos aparelhos de televisão e nos GPS. Sabendo-se que as big techs passaram a ser sócias ativas do poder dos EUA, não há praticamente informação que não seja captada por seus sistemas.
Não apenas isso: as vulnerabilidades se ampliaram com a incapacidade de controlar o livre fluxo de capitais, amarrando o país às mais altas taxas de juros do planeta e ao mais violento processo de concentração de renda da história.
É nesse quadro que se move, agora, o novo imperialismo norte-americano, após a decretação da América Latina como sua possessão preferencial. Como enfrentar os mil olhos do Doutor Mabuse?
A comunicação sempre foi a pedra angular das guerras híbridas. Quando as primeiras empresas norte-americanas chegaram ao Brasil, puxadas pela Ford, seus dois alicerces foram a mídia e os escritórios de advocacia. Junto com a Ford vieram as primeiras agências de publicidade norte-americanas, dispostas a desbravar o novo mercado como instrumento de venda de carros e de ideologia.
Era a estratégia das guerras híbridas em ambiente de paz. Nas guerras, a principal função das emissoras de rádio era levar mensagens ao território inimigo que ajudassem a derrubar o moral dos adversários e a estimular os quintas-colunas.
Esse é o maior desafio brasileiro. Tem-se um país sem coluna dorsal. Nem as ameaças explícitas do Império são suficientes para estimular um pacto pela soberania nacional.
Poucas vezes o Brasil ousou gritos de autonomia, apesar da eficiência histórica do Itamaraty. Ocorreu no período da ditadura do Estado Novo, com o Exército fornecendo a coesão que permitiu a Getúlio negociar com Alemanha e Estados Unidos e obter vantagens para o país.
Com JK, houve a ousadia da Operação Pan-Americana, inspirada por Augusto Frederico Schmidt, tentando colocar o Brasil como protagonista principal da política do continente. Não teve vida longa. Depois, houve a reação do governo Médici contra a demonstração do presidente Jimmy Carter de solidariedade às vítimas do regime.
Com Geisel, avançou-se em várias políticas mais autônomas. Todas as tentativas foram barradas pelo choque de juros que se seguiu aos dois choques do petróleo.
Supondo que Lula vença mais este desafio e seja eleito para o quarto mandato, será por margem apertada. Mais que isso, o imbecil coletivo é tão acentuado que, mesmo ante o risco de entregar o destino do país ao representante de organizações criminosas, a mídia trabalhará diuturnamente para erodir qualquer forma de consenso em torno da figura de Lula.
É nesse quadro que a única forma de conseguir montar um pacto de governabilidade será através da montagem de um Plano de Metas. Tenho insistido nisso. Os historiadores costumam analisar o governo JK unicamente do ponto de vista da economia e do desenvolvimento. Mas não teria sido possível sem um pacto básico de governabilidade. E o que garantiu esse pacto foi o Plano de Metas.
A definição clara das metas permitiu a JK conseguir o apoio do capital estrangeiro, do capital financeiro (que se tornou sócio das montadoras e financiou fornecedores), dos importadores de autopeças, das empreiteiras e dos governos estaduais.
A divisão do país está entre terraplanistas quintas-colunas e defensores da democracia. E um tertius sem coluna vertebral, de uma burguesia interessada exclusivamente nos ganhos imediatos. A maneira de conquistar esses quadros é desenhando uma visão de futuro que defina claramente o papel e as perspectivas de cada setor.
Sem um Plano de Metas efetivo — e não apenas como propaganda de campanha —, pode-se vencer as eleições, mas não se chegará ao final do quarto mandato.
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