
O Brasil está diante de uma oportunidade histórica para se tornar protagonista na indústria global de semicondutores. Segundo o professor Marcelo Zuffo, diretor do InovaUSP e referência em engenharia eletrônica, o país possui todas as condições para dominar cada etapa da cadeia produtiva de chips. O desafio? Organização, visão de longo prazo e ousadia.
Em entrevista ao Projeto Brasil, Zuffo ofereceu uma visão abrangente sobre a cadeia produtiva do chip, enfatizando a importância crucial da demanda qualificada (aplicação) como ponto de partida para o desenvolvimento dessa indústria no Brasil.
A Premissa Fundamental: “Chip é Demanda”
A ideia central apresentada é que “Chip é demanda”. Não adianta construir uma fábrica de chips se não houver uma demanda qualificada e robusta para esses produtos. A indústria de chips hoje é complexa e possui espaços bem definidos; entrar em mercados como o automotivo ou de smartphones é extremamente difícil sem um forte apoio governamental, como o que os Estados Unidos estão dando à Intel.
Demanda Qualificada (Aplicação) no Brasil
O Brasil gasta 50 bilhões de dólares por ano em demanda por chips. Embora o consumo brasileiro represente de 2% a 5% do consumo mundial de tecnologia, o que é cerca de 10 vezes menor que a demanda norte-americana, é uma demanda significativa que poderia sustentar uma indústria local sem os riscos geopolíticos de outras regiões.
Oportunidades e Desafios para o Brasil
Zuffo aponta para uma “Guerra Fria 2.0” e a reestruturação das cadeias globais como uma grande oportunidade para o Brasil. Há um consenso de que as vantagens do Brasil incluem:
- Matéria-prima: Abundância de minerais essenciais.
- Recursos humanos: Milhares de engenheiros formados, com capacidade reconhecida mundialmente, além de uma vasta mão de obra técnica potencial através do SENAI, FATECs e institutos federais.
- Energia limpa: Uma matriz energética limpa, crucial para a produção de silício que exige muita energia.
- Água: Disponibilidade de água, ao contrário de regiões como a Califórnia.
- Estabilidade geopolítica: Ausência de terrorismo e guerra na esquina, ao contrário da Europa.
- Cérebros: Capacidade de inovação demonstrada, como na produção de ventiladores pulmonares durante a pandemia, sem falta de chips.
Cadeia Produtiva do Chip: O Passo a Passo (Iniciando pela Demanda)
A cadeia produtiva, ao ser abordada a partir da demanda, segue os seguintes passos:
- Projetar o Gadget Eletrônico (Aplicação): Começa com a concepção do produto final que atenderá a uma demanda específica, como os anéis para monitoramento cardíaco.
- Desenvolver o Software: Após o design do gadget, o software é o próximo passo. As fontes destacam que engenheiros brasileiros são altamente competentes nesta área (“um brasileiro vale uma dezena de competidores”). Há uma forte ênfase no software de código aberto (open source), como o Linux e o Android, que representa 90% do software mundial e permite o controle do destino tecnológico sem depender de grandes corporações.
- Projetar o Microprocessador: Esta é uma das grandes inovações na “guerra” entre China e EUA. A arquitetura de microprocessadores de código aberto, como o Risk 5, desenvolvida pela Berkeley, permite que países como o Brasil projetem e fabriquem seus próprios chips. A USP, com uma equipe de 35 engenheiros, já está projetando CPUs de código aberto com desempenho igual ou superior ao do mercado, incluindo criptografia para operações bancárias como o Pix. Projetar um microprocessador é uma tarefa de alta complexidade, dominada por poucas nações (cerca de dez).
- Instalar o Sistema Operacional: O sistema operacional é então integrado ao chip.
- Fabricar o Wafer: Esta é considerada uma das partes mais difíceis da cadeia. O wafer é uma lâmina de silício puro (com pureza acima de 99,999999%), sobre a qual os circuitos são gravados através de um processo chamado litografia. O Brasil tem condições de realizar essa etapa, mas precisa de organização para evitar que se torne um “elefante branco”. A litografia é uma das atividades humanas mais complexas e caras, exigindo equipamentos que custam dezenas ou centenas de milhões de dólares (como o litógrafo de 25 milhões de dólares para o Professor Zufo ou 350 milhões para a Intel). Atualmente, o Brasil não possui nenhum litógrafo industrial em operação, apenas em pesquisa universitária.
- Processar as Matérias-Primas: O Brasil possui abundância de minerais críticos para a indústria de chips, incluindo silício puro, lítio, níquel, gálio bruto e pelo menos 20% das reservas mundiais de terras raras. Empresas brasileiras como Weg e Embraer necessitam desses materiais para supermagnetos e submarinos nucleares, e poderiam se beneficiar de políticas de substituição de importações para não dependerem da China. O Brasil já foi líder mundial na produção de silício metalúrgico (33% do mercado antes da China), e possui energia e minério abundantes para isso.
Zuffo indica que o Brasil possui diversas áreas com potencial para gerar essa demanda qualificada:
- Envelhecimento da População: Um projeto em desenvolvimento na USP visa criar anéis para monitoramento cardíaco da população envelhecida. Com 20% da população brasileira (40 a 50 milhões de pessoas) potencialmente necessitando desses chips, isso representa um mercado de 40 a 50 milhões de chips por ano, avaliado em 500 milhões de dólares, um número “bem interessante”.
- Agronegócio: O Brasil alimenta quase 20% da humanidade e a segurança econômica do agronegócio depende de automação, inteligência artificial (IA) e chips para lidar com as mudanças climáticas extremas.
- Transição Energética: Esta é outra área que demanda tecnologia e chips.
- Centros de Dados (Data Centers): O Brasil está atraindo investimentos bilionários em data centers (por exemplo, o estado de São Paulo atraiu 150 bilhões de reais, ou 30 bilhões de dólares). Cerca de um terço de um data center é composto por chips, o que poderia justificar a criação de duas fábricas de chips no país.
No entanto, faltam políticas claras, um projeto de nação e consciência sobre o potencial do país. As políticas devem ser de Estado, não de governo, e devem ser mais agressivas na agregação de valor e no adensamento da cadeia. Há uma necessidade de ir além do encapsulamento de chips (onde o Brasil já possui uma dezena de empresas como Ceitec, HT Micron, Data, Multilaser) e avançar para o processamento de wafers.
A conclusão é que o Brasil tem todas as condições para fechar o ciclo da soberania tecnológica em chips, mas precisa de organização, ousadia e acreditar no seu futuro, superando a baixa autoestima e o ceticismo interno.
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Mogar Dreon Gomes Filho
29 de agosto de 2025 10:01 amFui aluno do Marcelo Zuffo, também de seu pai, o João Antonio Zuffo (um gênio da eletrônica), e tive também aula com o seu irmão Paulo Zuffo, que é professor de gestão empresarial na FGV. Foi um privilégio estudar com eles. Para completar fiz estágio no Laboratório de Sistemas Integráveis da USP.
O problema é justamente a visão de longo prazo, sem atalhos, que ser protagonista em tecnologia exige. Educação de base de ponta, ensino superior de ponta, investimentos de longo prazo na casa dos bilhões de dólares, e ter acesso às riquezas naturais. Disso, o Brasil só tem ensino superior de ponta e acesso a recursos naturais (e pessoas de inteligência brilhante subaproveitadas ou indo embora para outros países). O que possuímos é condição necessária ao desenvolvimento, mas não suficiente.
Infelizmente muita gente se beneficia do Brasil ser um mero exportador de commodities. Não há interesse, seja da classe política seja de oligarquias, que o país se desenvolva. Temos a faca e o queijo na mão, queremos degustar o queijo, mas não queremos cortar. O Brasil é assim há muitas décadas, é um misto de problema de cultura, falta de investimento em educação (não só no ensino superior, mas no de base também), falta de reconhecimento financeiro inclusive das mentes brilhantes, e o fato de quem se beneficia do nosso atraso estar no poder ou com acesso a ele.
Como ouvi, a esperança que tenho para a geração de meu filho e talvez netos é uma renovação de quem está no poder. Por questão etária, isso não deve levar tantas décadas. Tomara que os herdeiros e novos líderes pensem diferente.
edilson borges
29 de agosto de 2025 10:24 amnão é só com processador de ponta com alta complexidade que se ganha dinheiro. um processadorzinho ancestral, o z80, inventado pela intel lá nos anos 80, é suficiente prá equipar uma máquina de costura, uma torradeira elétrica esperta, e um monte de quinquilharias eletrônicas que vendem bem obrigado.
Paulo Dantas
29 de agosto de 2025 12:33 pmCombater o viralatismo da imprensa com o “émaisbaratocomprarláfora”.
Wilson Pádua
29 de agosto de 2025 12:43 pmConcordo com tudo, mas isso já era verdade, mutatis mutandis, há quarenta anos atrás. O pai do Marcelo Zuffo foi um dos pioneiros daquela época.
evandro
29 de agosto de 2025 1:26 pmComo estou no celular e não em frente a tela do computador, vou comentar apenas um item: mão de obra.
Venho acompanhando há algum tempo reportagens na mídia que apontam repetidamente como o Brasil forma pouco engenheiros. Hoje inclusive mais uma reportagem no Estadão.
E como ex-professor, fico me perguntando como está a formação acadêmica dos mesmos.
Dei aula em Universidade particular, e quando ingressei o Departamento de Física e Química ministrava 11 disciplinas (Física), para os cursos de engenharia(laboratórios inclusos) hoje, na mesma Universidade é uma disciplina teórica e um laboratório. Falo sem pesquisar o que está acontecendo no Departamento de Matemática
evandro
29 de agosto de 2025 6:51 pmSó esclarecendo, eu não ministrava 11 disciplinas, eram as disciplinas do Departamento.
Daniel
29 de agosto de 2025 4:16 pmCabe uma correção. A CEITEC, ela tem capacidade produtiva de toda a cadeia e sim processa wafers. Possui sala limpa que inclui inclusive a etapa de fotolitografia.
Nô Brito
29 de agosto de 2025 5:40 pmEsqueça, Nassif! Acorda, um país que não estuda matemática e física, que não tem engenheiros. Que escolhe a profissão na hora de entrar na universidade pela exclusão das matérias de exatas. Jamais será independente, continuaremos exportadores de comodities e ainda precisamos agradecer.
Esqueça Nassif, esqueça!
Alexandre melo martins
29 de agosto de 2025 8:54 pmO principal motivo para se ter este tipo de indústria ,o capital, nós até tínhamos mas ele foi doada aos especuladores através dos juros , dava para ter três “Intel ” no país se não fosse este fator . Lembro do Antônio zuffo no tempo da prologica e seu s600 pioneiro. Demanda por c.i. nunca cairá basta achar um nicho. Nassif pesquise sobre os sgb tipo o raspberriy pi, t em até um criado na USP o caninos loucos é um nicho que cresce muito e tem muita utilidade na indústria pois concorrem com o arduíno. Fale também sobre a itaucom e porque o Itaú perdeu interesse neste mercado.
Anônimo
29 de agosto de 2025 9:17 pmNão dá pra fazer chip sozinho. O problema não está só na formação de mão de obra. Isso até temos. O problema está no parque tecnológico. Se juntarmos todas iniciativas nacionais no setor não devemos estar nem dentro de 1% da cadeia de suprimentos tecnológicos da indústria de semicondutores. São necessários maquinários para os processos de fabricação, softwares para os processos de desenho e verificação. Além de tudo isso ainda precisamos de competitividade num setor onde as marcas dominantes estão consolidadas a anos. Num contexto de guerra fria 2.0, qualquer alinhamento pode nos gerar barreiras na importação de tecnologia por embargos de qualquer um dos lados. A tecnologia é complexa e bem protegida. Na área científica só se pública o que não pode ser escondido por segredo industrial por muito tempo. Tanto nos EUA quantona China, ou mesmo Europa e Israel, o investimento estatal no setor é enorme, muitas vezes via orçamento militar. Basta ver que Trump está estatizando 10% da Intel. Aqui no Brasil tivemos o CEITC. É o caminho certo, mas que não teve o tempo de aprender com os próprios erros.
Thiago
29 de agosto de 2025 9:29 pmNão dá pra fazer chip sozinho. O problema não está só na formação de mão de obra. Isso até temos. O problema está no parque tecnológico. Se juntarmos todas iniciativas nacionais no setor não devemos estar nem dentro de 1% da cadeia de suprimentos tecnológicos da indústria de semicondutores. São necessários maquinários para os processos de fabricação, softwares para os processos de desenho e verificação. Além de tudo isso ainda precisamos de competitividade num setor onde as marcas dominantes estão consolidadas a anos. Num contexto de guerra fria 2.0, qualquer alinhamento pode nos gerar barreiras na importação de tecnologia por embargos de qualquer um dos lados. A tecnologia é complexa e bem protegida. Na área científica só se pública o que não pode ser escondido por segredo industrial por muito tempo. Tanto nos EUA quantona China, ou mesmo Europa e Israel, o investimento estatal no setor é enorme, muitas vezes via orçamento militar. Basta ver que Trump está estatizando 10% da Intel. Aqui no Brasil tivemos o CEITC. É o caminho certo, mas que não teve o tempo de aprender com os próprios erros.
Mario Ramos
30 de agosto de 2025 1:43 pmInfelizmente, nossa cultura não tem a palavra “PLANEJAMENTO”
AASusin
30 de agosto de 2025 11:39 pmO título do artigo é irresistível para um professor aposentado que há meio século está neste setor. Foram entretanto os comentários dos leitores, em especial o de Mogar Dreon Gomes Filho, que me motivaram a participar. A visão de longo prazo só se tornará realidade se provocar ações adequadas, entre elas a Educação Básica de qualidade e projetos nacionais exequíveis implementados sem interrupção. Os quadros de qualidade da Educação Básica mostram o Brasil entre os últimos países. Admitamos que o nosso Ensino Superior seja de qualidade. Sem um compromisso sério, estaremos sempre construindo cenários que avançam fora do alcance da nossa sociedade, como um exercício de futurologia inconsequente. Poderemos ter, pontualmente, trabalhos estado da arte para problemas que interessam a outros.
Houve um tempo em que o Brasil projetava a instalação de três foundries de ponta. Meio século após, o país não consegue operar uma fábrica do passado. Sejamos sinceros, um país do porte do Brasil não merece isso. É um atestado de que não se leva a sério o problema, mesmo que altos escalões afirmem o contrário. A quem interessa que o país não se desenvolva? Nesta linha estão as iniciativas que acontecem esporadicamente de cursos de especialização para a formação de projetistas de circuitos integrados, em vez de implantar o ensino de microeletrônica nos cursos regulares de formação superior. E até técnica.
Tive ocasião de interagir com diversos grupos do país nos projetos de pesquisa, inclusive com professores dos laboratórios de microeletrônica da USP e Unicamp e testemunhei seu empenho pelo desenvolvimento da área. Aqui no sul optamos pelo design, aproveitando a sinergia elétrica-informática, e conseguimos disseminar a formação em várias instituições. . Na década de 80, quando alguns diziam “país que não fabrica circuito integrado, não tem que se preocupar em projetá-los”, projetamos um microprocessador RISC. O aluno foi depois para o Vale do Silício e lá ficou, como muitos de nossos alunos Brasil afora. O CEITEC mesmo foi, há algum tempo, ao lado da fábrica, uma grande design house.
Como mencionado em outros comentários, eu também espero que meus filhos e netos vejam dias melhores. A constante de tempo de uma sociedade é grande. Poderá ser um pouco menor se conseguirmos dar nossa contribuição, colocando energia na direção certa.