A Cidade que Nos Permite Existir
por Gab da Silveira Muller e André Augusto Araújo Oliveira
Há pessoas que crescem aprendendo a ser quem são. Outras crescem aprendendo a esconder quem são. Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, a infância e a adolescência não são territórios de descoberta livre, mas campos de vigilância. Cada gesto, cada palavra, cada forma de caminhar ou de olhar pode se transformar em motivo de riso, correção ou punição. Assim, antes mesmo de entender plenamente a própria identidade, aprende-se uma arte silenciosa: a arte de se conter.
Não se trata apenas de medo abstrato. Trata-se de experiências concretas e repetidas de humilhação. A escola que ri do menino afeminado. A família que corrige o jeito da menina que “parece masculina demais”. A rua que transforma corpos dissidentes em espetáculo ou ameaça. Crescer nesse ambiente significa, muitas vezes, sacrificar a espontaneidade, essa qualidade tão fundamental da infância para sobreviver.
Por isso, muitas pessoas LGBTQIAPN+ não crescem sendo simplesmente elas mesmas. Crescem construindo versões negociadas de si. Versões menos visíveis, menos barulhentas, menos perigosas. Aprende-se cedo que existir plenamente pode custar caro. Aprende-se a medir a voz, o corpo, o riso. Aprende-se a ocupar menos espaço.
Esse processo produz uma forma particular de maturidade, devido aos anos desenvolvendo estratégias de proteção. A espontaneidade, que deveria ser um direito humano básico, torna-se um luxo.
O resultado é que a vida adulta chega carregando uma pergunta difícil: quem somos, afinal?
Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, tornar-se adulto não é apenas assumir responsabilidades profissionais ou afetivas. É iniciar um delicado trabalho arqueológico sobre si mesmo. Um trabalho de escavar camadas acumuladas ao longo de anos de autocensura. De distinguir aquilo que verdadeiramente somos daquilo que fomos obrigados a construir para nos proteger.
Algumas partes de nós nasceram da alegria. Outras nasceram do medo.
Esse processo de reconstrução é profundamente político. Porque não diz respeito apenas ao indivíduo, mas ao mundo em que ele vive. Uma sociedade que força pessoas a amputarem pedaços de sua própria espontaneidade para evitar humilhação é uma sociedade que produz silêncios, invisibilidades e ausências.
E é aqui que a cidade entra em cena.
A cidade não é apenas um conjunto de ruas e edifícios. Ela é também um campo de poder. Ela define quem pode circular sem medo, quem mora em que bairro, quem trabalha com o que, quem pode amar em público, quem pode existir sem precisar pedir desculpas. O direito à cidade, portanto, transcende o acesso à moradia, ao saneamento, ao transporte ou ao espaço público; ele reside na forma desse acesso e nas consequências que dele decorrem. Para uma pessoa LGBTQIAPN+, por exemplo, o direito de acessar a rua, o transporte e um banheiro público pode se chocar com a violência e o preconceito. O direito à cidade para as pessoas dissidentes de gênero e sexualidade envolve algo ainda mais fundamental, que é o direito de existir plenamente, sem ter que negociar a própria segurança no espaço urbano.
Quando corpos LGBTQIAPN+ precisam vigiar constantemente seus gestos para evitar violência simbólica ou física, a cidade se torna um território incompleto. Uma cidade que expulsa, silencia, subalterniza ou constrange parte de seus habitantes é uma cidade que fracassa em sua promessa democrática.
Mas há uma dimensão ainda mais dura dessa realidade, que não pode ser ignorada. Em muitos lugares do mundo e, de forma particularmente dramática na América Latina e no Brasil, a violência contra pessoas LGBTQIAPN+ não se limita ao constrangimento cotidiano. Ela chega à sua forma mais brutal: a morte.
Corpos dissidentes continuam sendo assassinados por ousarem existir fora da norma. Travestis e mulheres trans, sobretudo negras e pobres, seguem entre as maiores vítimas dessa violência estrutural. Não se trata de fatalidades isoladas. Trata-se de um padrão social que transforma preconceito em prática letal.
Quando uma pessoa LGBTQIAPN+ é morta por sua identidade ou expressão de gênero, não morre apenas um indivíduo. Morre também um projeto de cidade. Morre a possibilidade de um espaço urbano verdadeiramente plural. Cada vida interrompida revela o fracasso coletivo de uma sociedade que ainda não aprendeu a conviver com a diferença.
Diante da violência que interrompe vidas e projetos de cidade, reconstruir a espontaneidade perdida transcende o gesto subjetivo e se torna um ato político de resistência. É ocupar e disputar a rua sem medo, é amar sem pedir licença, afirmando que existir não pode ser um ato de coragem permanente. O desafio reside em desenterrar a verdade de si das camadas de autocensura e compreender que, embora as defesas tenham sido cruciais para a sobrevivência em tempos hostis, a proteção não pode ser o nosso destino final.
Uma democracia que obriga parte de sua população a viver escondida e uma cidade onde corpos caminham sob ameaça constante fracassam em sua promessa de pluralidade. O verdadeiro direito à cidade começa quando ninguém precisa diminuir a própria luz para continuar vivo, e existir retorna ao seu estado mais fundamental: um direito, e não um risco.
André Augusto Araújo Oliveira – Assistente Social, Mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSAL e Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo IAUUSP. Integra a Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional e o Núcleo Salvador da Rede BrCidades.
Gab da Silveira Muller (elu/ele) – Da zona rural do RS, engenheiro ambiental, mestrando em engenharia de recursos hídricos e ambiental focado em saneamento. Pessoa não binária transmasculina, integrante do coletivo de planejamento territorial e assessoria popular (PLANTEAR) e pesquisador no CEPPUR/UFPR e do núcleo Curitiba da Rede BrCidades,
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