8 de junho de 2026

A pedagogia da resistência e o protagonismo popular no Vista Bela, por Vanessa Rocha

Coletivo Popular Vista Bela em Movimento surge como uma experiência concreta de organização popular e resistência territorial.
Residencial Vista Bela, em Londrina - Reprodução

No Residencial Vista Bela, Londrina, precariedade e falta de políticas públicas evidenciam desigualdades urbanas brasileiras.
O Coletivo Popular Vista Bela promove organização e resistência territorial com ações comunitárias e formação política.
Assistente social destaca que atuação profissional deve fortalecer autonomia e participação popular na luta por direitos.

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A pedagogia da resistência e o protagonismo popular no Vista Bela

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por Vanessa Carolina Prates Rocha

No Residencial Vista Bela, na periferia de Londrina (PR), a realidade urbana revela de forma concreta as desigualdades que marcam a formação das cidades brasileiras. A precarização das condições de vida, a insuficiência de políticas públicas e a negação histórica de direitos como moradia, alimentação, saúde e educação evidenciam que o acesso à cidade segue sendo profundamente desigual.

A professora e urbanista Ermínia Maricato chama atenção para o fato de que a urbanização brasileira não ocorreu de forma democrática, mas sob a lógica da segregação territorial, produzindo cidades em que a população trabalhadora é empurrada para áreas periféricas, marcadas pela ausência de infraestrutura e pela fragilidade das políticas públicas. Nessa mesma direção, a também urbanista Raquel Rolnik aponta que o direito à cidade não se limita ao acesso à moradia física, mas envolve também o direito à participação, à mobilidade, aos serviços públicos e à apropriação política do território. O Residencial Vista Bela expressa essas contradições.

Embora seja resultado de uma política habitacional, a experiência cotidiana demonstra os limites da garantia formal da moradia quando ela não está articulada à efetivação dos demais direitos sociais. A ausência de equipamentos públicos suficientes, as dificuldades de acesso à segurança alimentar e a fragilidade das políticas de proteção social mostram que habitar um espaço não significa, necessariamente, viver com dignidade.

É nesse cenário que surge o Coletivo Popular Vista Bela em Movimento, como uma experiência concreta de organização popular e resistência territorial. A partir de ações como a Horta Comunitária Carolinas, ceias comunitárias, rodas de conversa, oficinas formativas e mobilizações em defesa de direitos, o coletivo constrói práticas que ultrapassam o assistencialismo e se afirmam como processos político-pedagógicos no território. Como Paulo Freire sempre defendeu, a transformação social exige que os sujeitos deixem de ser apenas espectadores da realidade e se tornem protagonistas da própria história. Essa construção passa pelo desenvolvimento da consciência crítica e pela capacidade de compreender e intervir no mundo. Nessa mesma linha, o filósofo Antonio Gramsci aponta que a disputa por transformação social também é uma disputa de ideias, de formação e de organização coletiva, na qual sujeitos inseridos na realidade concreta atuam como intelectuais orgânicos da classe trabalhadora.

A realidade urbana brasileira está diretamente ligada ao modo como o capitalismo organiza o espaço das cidades, concentrando riqueza e aprofundando desigualdades. Nesse processo, a periferização da pobreza não é acidental, mas parte de uma lógica estrutural que afasta a população trabalhadora dos centros de acesso aos bens e serviços.

Ermínia Maricato em seu livro “Para entender a crise urbana” demonstra que a segregação socioespacial é constitutiva das cidades brasileiras e que as políticas habitacionais, muitas vezes, respondem de forma quantitativa ao déficit de moradia, sem garantir condições reais de vida. O caso do Vista Bela confirma essa dinâmica: o acesso à casa não foi acompanhado de investimentos suficientes em infraestrutura urbana, transporte, serviços, equipamentos públicos e políticas sociais permanentes.

Raquel Rolnik em seu livro “Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças” reforça que o direito à cidade exige mais do que a posse da moradia, envolvendo a possibilidade de participação política e acesso aos meios necessários para a reprodução da vida social. Nesse contexto, a luta comunitária deixa de ser apenas reivindicação pontual e passa a se constituir como enfrentamento às desigualdades produzidas pelo próprio modelo urbano.

A organização popular não surge de forma espontânea, mas é construída por meio de processos contínuos de formação, pertencimento e fortalecimento coletivo. Nesse sentido, a participação comunitária se consolida como espaço de construção de consciência crítica e de elaboração de estratégias coletivas de sobrevivência e de enfrentamento das desigualdades. O Coletivo Popular Vista Bela em Movimento expressa essa construção ao desenvolver práticas que articulam ação e reflexão no cotidiano. A Horta Comunitária Carolinas é um exemplo central desse processo. Mais do que um espaço de produção de alimentos, a horta se configura como espaço de convivência, formação política e enfrentamento à fome, entendida como expressão da desigualdade social.

As atividades desenvolvidas — como mutirões, rodas de conversa, ações com crianças e iniciativas de solidariedade — constroem uma pedagogia do território, na qual o alimento deixa de ser apenas uma necessidade biológica e passa a ser compreendido como direito social e como campo de disputa política.

A partir da perspectiva de Gramsci, é possível compreender que toda relação de hegemonia também é uma relação pedagógica. Isso significa que a luta por transformação social se realiza também nos processos cotidianos de formação, nos quais os sujeitos constroem consciência de classe e capacidade de intervenção na realidade. As ações comunitárias e as mobilizações no território fortalecem vínculos coletivos e reafirmam a organização popular como instrumento de resistência. Nesse contexto, a atuação profissional no campo do Serviço Social também se insere como parte dessa disputa.

A assistente social Yolanda Guerra destaca que o trabalho profissional deve estar articulado a um projeto ético-político comprometido com a defesa dos direitos sociais e com a classe trabalhadora. Isso implica compreender que a atuação não pode se restringir à dimensão burocrática, mas deve contribuir para processos de emancipação social. No território do Vista Bela, a articulação entre atuação profissional e militância fortalece práticas que vão além do atendimento imediato, contribuindo para a construção da autonomia coletiva. A mediação entre demandas comunitárias, acesso a políticas públicas e fortalecimento da participação popular expressa uma intervenção comprometida com a transformação social.

A experiência do Coletivo Popular Vista Bela em Movimento demonstra que o protagonismo popular nas periferias urbanas é uma estratégia fundamental de enfrentamento às desigualdades e à negação de direitos. Em um contexto marcado pela precarização e pela ausência do Estado, a organização coletiva se afirma como caminho de resistência e construção de alternativas. A horta comunitária, as ações coletivas e as mobilizações territoriais mostram que a luta popular não se limita à resposta imediata às necessidades, mas produz processos de formação, consciência crítica e pertencimento. O território periférico, nesse sentido, deixa de ser visto apenas como espaço de carência e passa a ser reconhecido como espaço de produção de saberes, de organização e de transformação social.

Vanessa Carolina Prates Rocha é Assistente Social, mestranda em Serviço Social e Política Social, coordenadora do Coletivo Popular Vista Bela em Movimento e colaboradora da Rede BrCidades.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Também cabe a nós compreender como se materializa nas cidades a desigualdades de classe, raça e gênero. Isto para sabermos ouvir as vozes dos personagens que entram em cena e protagonizam um novo ciclo de lutas

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