14 de outubro de 2026

Como seria o país de Flávio Bolsonaro, por Luís Nassif

Jair Bolsonaro tentou destruir a democracia aos gritos. Flávio poderá tentar o mesmo de terno, voz baixa e apoio editorial.
Imagem gerada por ChatGPT

Flávio Bolsonaro planeja governo com método autoritário, envolvendo capital financeiro, crime organizado e interesses dos EUA.
Economia subterrânea seria integrada ao sistema legal, com enfraquecimento da fiscalização e lavagem de dinheiro facilitada.
Aliança com Trump priorizaria minerais e infraestrutura, transformando Brasil em território subordinado a interesses externos.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Um governo Flávio Bolsonaro não seria uma repetição mecânica do governo do pai. Jair Bolsonaro governou de maneira caótica, sem quadros próprios, dependente dos militares e do Centrão. Flávio chegaria depois de um longo aprendizado do bolsonarismo: conheceria melhor as instituições, teria pontes mais sólidas com o mercado financeiro, com o mundo jurídico, com a grande imprensa e, sobretudo, com o trumpismo.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Seria menos improviso e mais método.

O projeto reuniria quatro interesses:

  • o capital financeiro que deseja menos fiscalização;
  • as redes do crime organizado que precisam lavar e multiplicar dinheiro;
  • as corporações públicas que querem recuperar o poder sem limites da Lava Jato;
  • e grupos norte-americanos interessados em minerais críticos, energia, dados e infraestrutura.

A cola política seria o autoritarismo: repressão aos pobres, guerra cultural, perseguição seletiva e submissão estratégica aos Estados Unidos.

A economia subterrânea chega à superfície

O primeiro movimento seria a consolidação de uma zona cinzenta entre economia legal e dinheiro do crime. Não se trata de imaginar traficantes sentados diretamente em conselhos de bancos. O mecanismo moderno é mais sofisticado: fundos opacos, fintechs, securitizadoras, empresas de fachada, créditos sem lastro, fundos de direitos creditórios, ativos digitais e cadeias sucessivas de intermediários.

O crime organizado brasileiro deixou há muito tempo de viver apenas do varejo da droga. Avançou sobre combustíveis, cigarros, transporte, garimpo, apostas, imóveis, comércio exterior e serviços financeiros. Precisa de instituições capazes de converter dinheiro clandestino em patrimônio aparentemente regular. Quando a supervisão é enfraquecida, o mercado legal torna-se sua lavanderia.

Em um governo Flávio, a tendência seria inverter a lógica do controle. Em vez de o Estado investigar a infiltração do dinheiro criminoso no mercado, os órgãos de fiscalização seriam pressionados a não enxergar. A Polícia Federal perderia autonomia nas áreas sensíveis; o Coaf voltaria a ser tratado como inimigo político quando suas informações atingissem aliados; o Banco Central seria conduzido a uma supervisão complacente, como nos tempos de Roberto Campos Neto; e investigações sobre lavagem seriam interrompidas, fragmentadas ou transformadas em moeda de negociação.

O novo pacto financeiro

Parte da Faria Lima apoiaria Flávio por conta das oportunidades abertas por seu governo. A agenda seria conhecida: novas privatizações, autonomia quase absoluta para agentes financeiros, redução da tributação patrimonial, desmonte dos mecanismos ambientais e liberdade para transformar ativos públicos em produtos financeiros.

A novidade estaria na fusão entre essa agenda e a economia subterrânea. O sistema passaria a conviver com recursos de origem duvidosa desde que servissem para alimentar fundos, comprar ativos, sustentar preços e financiar aquisições. A fronteira moral seria substituída por uma única pergunta: há rentabilidade?

As instituições que levantassem dúvidas seriam acusadas de hostilidade ao mercado. As que aceitassem a nova normalidade seriam apresentadas como modernas. E cada denúncia seria dissolvida numa combinação de sigilo, tecnicismo, pareceres jurídicos e campanhas contra os investigadores.

Uma democracia controlada por dentro

O segundo eixo seria institucional. Flávio não precisaria fechar o Congresso, extinguir o Supremo ou abolir eleições. O modelo contemporâneo de autoritarismo preserva a fachada e controla os pontos de veto.

O instrumento central seria a nomeação. Com uma Procuradoria-Geral da República alinhada, inquéritos poderiam morrer na origem. Com novas vagas no Supremo e pressão permanente sobre os ministros, formaria-se uma maioria capaz de validar medidas de exceção. No Ministério da Justiça, na Polícia Federal, na Receita e nos órgãos de inteligência, cargos estratégicos seriam entregues a quadros comprometidos com o projeto.

A experiência da Lava Jato ofereceria o manual. O abuso voltaria sob o nome de combate à corrupção: vazamentos seletivos, prisões destinadas a produzir delações, destruição de reputações antes do julgamento, cooperação internacional sem controle e uso da imprensa como extensão da acusação.

Há o risco de um sistema no qual corporações públicas, mídia e interesses políticos se reforçam mutuamente, primeiro atropelando procedimentos e depois apresentando o abuso como exigência moral.[3] Num governo Flávio, essa engenharia não seria um desvio ocasional. Seria método de governo.

O resultado não seria uma ditadura clássica, mas uma democracia tutelada: eleições sob pressão, oposição intimidada, investigações dirigidas e decisões judiciais condicionadas pelo alinhamento político de cada personagem.

O Brasil como ativo do trumpismo

Na política externa, Flávio ofereceria a Donald Trump aquilo que o bolsonarismo já vem oferecendo: interferência política em troca de proteção. A rede Bolsonaro–MAGA atuou para transformar processos brasileiros em tema de tarifas, sanções e pressões de Washington. Em 2026, Flávio voltou aos Estados Unidos para buscar apoio do governo Trump no calendário das medidas econômicas contra o Brasil.[2]

No governo, a moeda de troca seria o patrimônio estratégico do país.

As terras raras e os minerais críticos seriam apresentados como passaporte para uma aliança privilegiada com os Estados Unidos. Em vez de uma política nacional de mineração, processamento e tecnologia, haveria contratos que integrariam nossas reservas às cadeias industriais e militares norte-americanas. O Brasil forneceria minério; as etapas de maior valor permaneceriam no exterior.

Os data centers seguiriam lógica semelhante. Energia, água, território, fibra e incentivos fiscais brasileiros sustentariam plataformas estrangeiras. Sem exigências de conteúdo nacional, transferência de tecnologia e acesso público à capacidade computacional, o país correria o risco de se transformar na tomada elétrica da inteligência artificial mundial.

O padrão já aparece na diplomacia econômica de Trump: poder de Estado abre mercados; empresas ocupam ativos; aliados locais recebem apoio; e interesses públicos, privados e familiares se misturam.[2] Com Flávio, o Brasil entraria nessa engrenagem não como parceiro soberano, mas como território disponível.

Os sócios brasileiros

O trumpismo não chegaria sozinho. Teria aliados brasileiros interessados na partilha.

A família Bolsonaro ofereceria a ponte política com o ecossistema MAGA. Grandes grupos empresariais com negócios nos Estados Unidos ofereceriam acesso e capacidade de investimento. Fundos internacionais ampliariam presença em energia, mineração, petróleo, infraestrutura e tecnologia. Bancos e gestores locais estruturariam as operações. Governadores aliados entregariam licenças, terrenos, incentivos e ativos estaduais.

Nem toda empresa com capital norte-americano é trumpista, e nem todo investimento estrangeiro significa captura. A questão é a arquitetura do acordo. Se o financiamento público dos Estados Unidos orientar projetos brasileiros para atender às necessidades estratégicas de Washington, enquanto o Brasil abre mão de processamento, tecnologia e poder decisório, não haverá parceria: haverá subordinação.

A grande coalizão de Flávio seria formada por quem ganha com um Brasil desregulado por dentro e dependente por fora.

O preço social

A conta seria apresentada como inevitável. Para financiar isenções, privatizações e vantagens ao capital, o governo retomaria o discurso do Estado quebrado. Viria uma nova reforma da Previdência, endurecendo regras e reduzindo benefícios. Saúde e educação voltariam a ser tratadas como despesas, não como responsabilidade pública. O salário mínimo perderia força como instrumento de distribuição. Programas de transferência de renda seriam comprimidos, condicionados ou convertidos em favores políticos.

O resultado seria conhecido: queda da renda, insegurança alimentar e retorno do país ao mapa da fome.

A resposta ao conflito social não seria a reconstrução de políticas públicas. Seria a repressão. O chamado método Bukele — prisões em massa, suspensão prática de garantias, propaganda de força e tratamento da pobreza como ameaça — já circula como referência entre lideranças da ultradireita brasileira.[3]

A imprensa descobrirá tarde demais

A ironia final caberia à imprensa. Parte dela ajudaria a criar o ambiente para a vitória de Flávio, repetindo o roteiro que já produziu outros desastres: cobertura assimétrica, escândalos sem hierarquia, suspeitas tratadas como provas contra um lado e prudência infinita diante do outro.

Flávio seria apresentado como a versão civilizada do bolsonarismo: mais educado que o pai, capaz de conversar com banqueiros, menos dado a explosões públicas e supostamente disposto a respeitar as instituições. Seus vínculos seriam relativizados em nome da alternância de poder. A ameaça autoritária seria rebaixada a retórica eleitoral. O alinhamento com Trump seria vendido como pragmatismo.

Depois da posse, viria a guerra.

Governos autoritários não toleram testemunhas independentes, mesmo quando elas ajudaram a conduzi-los ao poder. A imprensa passaria a enfrentar campanhas digitais, boicotes publicitários, investigações, pressões regulatórias e ameaças econômicas. Repórteres seriam transformados em inimigos; veículos, acusados de conspiração; críticos, submetidos a devassas.

Então surgiriam os editoriais solenes em defesa da democracia — escritos pelos mesmos grupos que ajudaram a destruir as condições políticas para preservá-la.

O aviso

O país de Flávio Bolsonaro não nasceria no dia da posse. Está sendo preparado agora: na naturalização do dinheiro opaco, na transformação da soberania em ativo negociável, na reabilitação dos métodos da Lava Jato, na aliança com Trump, na criminalização da pobreza e na campanha para apresentar o herdeiro do bolsonarismo como alternativa aceitável.

A eleição não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Decidirá se o Brasil continuará tentando construir um projeto nacional — com indústria, ciência, inclusão social e autonomia — ou se será reorganizado como plataforma de negócios financeiros, economia criminal e interesses geopolíticos estrangeiros.

Jair Bolsonaro tentou destruir a democracia aos gritos. Flávio poderá tentar o mesmo de terno, voz baixa e apoio editorial.

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


  1. RONALDO BRAGA

    24 de setembro de 2026 8:51 am

    Sempre a imprensa, livre, leve e solta para fazer o que bem entender, sem nenhuma preocupação, a não ser seus ganhos financeiros.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    24 de setembro de 2026 10:25 am

    Muitos do que agora se colocam ao lado de Flávio Bolsonaro tentarão retornar aos “negócios como de costume” caso Lula seja eleito. Isso para alguns será possível, para outros não. O Estado brasileiro não pode mais conviver com a criminalidade que se infiltra e compromete instituições públicas. Será, portanto, preciso separar dentre os apoiadores de Flávio Bolsonaro aqueles que o fazem porque são bandidos e pretendem ficar impunes e aqueles que são apenas tolos ou odeiam Lula. Os primeiros devem ser tratados com o rigor da Lei, os demais devem ser escanteados. Eles disputaram a eleição e perderam, não devem ter qualquer tipo de influência ou participação no novo governo.

  3. Rui Ribeiro

    24 de setembro de 2026 10:44 am

    O PIG quer passar o pano para as maracutaias do Flávio Bostonaro com falsas equivalências. O PIG noticia que: “Flávio Bolsonaro viajou em 2025 em avião de Vorcaro e de advogado investigado por desvios no INSS” e que, “meses depois, a mesma aeronave foi utilizada por Moraes e sua esposa”.

    A esposa do Moraes tinha um contrato com o Vorcaro/Master. Que contrato havia entre o Vorcaro/Master e a Familícia Bostonara? Devia haver tratos, não contratos. Então há uma justificativa para a esposa de Moraes e este viajarem no avião do Vorcaro/Master. Qual a justificativa da Familícia Bostonara e do Nikolas “Dani Lindão” Ferreira?

  4. Jorge Mendes

    25 de setembro de 2026 8:02 am

    A eleição já está perdida. Boa parte por Lula mesmo. A indicação de Messias q levou o STF a esse caos. Ia colocar outro crente lá. Tivesse indicado o Pacheco nada disso estaria acontecendo. As bets que negligenciou até os 45 do segundo tempo e a população está toda endividada.

    A China fez oq pelo Brasil? Qual grande projeto? Ajudou o Lula em que? Tem um projeto de auto suficiência alimentar para em 10 anos quebrar o agro brasileiro com a direita ou esquerda.

    A vida da população melhorou esses últimos 4 anos?

    Lula vai ter uma derrota que vai lhe ensinar mtas lições tardias na vida. Vai perder para um mediocre que se quer se esforçou para vencer.

    O trumpismo estará manco pos novembro e vai perder em 2028. Flavio n terá como contar com essa rede de apoio.

    A Hungria fez todo esse jogo institucional que vc colocou e o Orban perdeu.

    Nem com a didatura militar o país acabou. N vai acabar com Flávio. Infelizmente essa eleição está perdida mas mto mais pelas escolhas e decisões do próprio Lula.

  5. José Geraldo Resende

    25 de setembro de 2026 10:15 am

    Caro Nassif;

    No virtual quarto mandato de Lula, o Brasil deveria convocar uma Conferência Brasil-Caribe-África sobre um plano de segurança do Atlântico Sul.

  6. Silvio Torres

    25 de setembro de 2026 2:44 pm

    Já estamos vivendo a era distópica mundial mesmo, vamos participar com nossa ditadura democratizada. Eu realmente sinto pelos milhões que irão passar necessidades, morar nas ruas, se submeter a pagamentos aviltantes. Mas, para os mais velhos, será engraçado ver a farsa Collor atacar novamente, muito mais tecnológica e truculenta. Seria uma pena o laranjão não se reeleger, porque aí o circo seria completo. Tenho certeza que a bancada da Bíblia resgataria rapidinho o nome Estados Unidos do Brasil! Vai ser interessante, especialmente se, como muita gente já admite e prevê em várias países, estourar de vez a guerra total. Sinto que haverá muita confusão na formação das alianças entre USA, China, Rússia, Europa, Ásia, nosotros e África. Bota confusão nisso.

  7. Veritas

    25 de setembro de 2026 4:03 pm

    Acrescentaríamos alguns pontos nos efeitos deletérios de mais um governo Bolsonaro:
    A privatização da Embrapa reduziria nossa capacidade de inovação no setor agrícola e aumentaria a insegurança alimentar. A privatização da caixa econômica reduziria nossa capacidade própria de realização de políticas habitacionais e outras políticas sociais, como investimento em saneamento básico. A privatização de demais ativos da Petrobrás, reduziria nossa capacidade de controle sobre a produção de petróleo e gás, e além de reduzir nossa capacidade de oferecer os incrementos tecnológicos na indústria naval, na indústria das plataformas e na exportação de serviços de exploração de petróleo em águas profundas.
    Haveria a perseguição a servidores federais não pactuados aos abusos de poder e a políticas de governo que destroem políticas de estado;
    Haveria perseguição religiosa, não havendo plena tolerância a cultos não evangélicos;
    Haveria perseguição a cientistas e professores universitários, sobretudo os não alinhados com as ideias do governo. Não haveria crescimento, mas sim diminuição de investimento em ciência e tecnologia, com sensível redução de capacidade de empreendedorismo na área de produtos sofisticados com alto valor agregado.
    Os esforços para a implementação de um sistema de segurança pública com uso de inteligência , ciência de dados e aumento da integração e eficiência das atividades policiais, sobretudo na resolução de crimes de homicídio e furto de veículos e cargas e celulares, tráfico de armas e drogas, adulteração de combustíveis e fraudes à licitação bem como na prevenção destes crimes seriam mínimos, como objetivo de ampliar a atuação do crime organizado e os lucros financeiros destes grupos, clientes do mercado financeiro.
    O Brasil deixaria o BRICS ou teria uma participação quase anulada. Assim, as cooperações científicas, tecnológicas, comerciais, culturais com os grandes países asiáticos, notadamente com China, Rússia, Índia, Indonésia, Tailândia, Malásia e Vietnã, seriam reduzidas ou mesmo impossibilitadas;
    Haveria aumento do desmatamento do cerrado, da floresta amazônica e demais biomas brasileiros e fim da demarcação de terras indígenas com a finalidade de ampliar a produção de comodities para o mercado internacional.
    Haveria baixo investimento em arte e cultura, áreas consideradas inúteis ou prejudiciais pelos governos de extrema-direita;
    Os esforços de implementação de maiores cooperações agrícolas, comerciais, científicas, tecnológicas, industriais e culturais com os países africanos seriam diminuídos;
    O aumento do autoritarismo, da violência, da destrutividade social e ambiental levaria ao aumento das catástrofes climáticas e tectônicas com aumento da inflação e descontrole social e econômico.

Recomendados para você

Recomendados