24 de setembro de 2026

Como seria o país de Flávio Bolsonaro, por Luís Nassif

Jair Bolsonaro tentou destruir a democracia aos gritos. Flávio poderá tentar o mesmo de terno, voz baixa e apoio editorial.
Imagem gerada por ChatGPT

Flávio Bolsonaro planeja governo com método autoritário, envolvendo capital financeiro, crime organizado e interesses dos EUA.
Economia subterrânea seria integrada ao sistema legal, com enfraquecimento da fiscalização e lavagem de dinheiro facilitada.
Aliança com Trump priorizaria minerais e infraestrutura, transformando Brasil em território subordinado a interesses externos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um governo Flávio Bolsonaro não seria uma repetição mecânica do governo do pai. Jair Bolsonaro governou de maneira caótica, sem quadros próprios, dependente dos militares e do Centrão. Flávio chegaria depois de um longo aprendizado do bolsonarismo: conheceria melhor as instituições, teria pontes mais sólidas com o mercado financeiro, com o mundo jurídico, com a grande imprensa e, sobretudo, com o trumpismo.

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Seria menos improviso e mais método.

O projeto reuniria quatro interesses:

  • o capital financeiro que deseja menos fiscalização;
  • as redes do crime organizado que precisam lavar e multiplicar dinheiro;
  • as corporações públicas que querem recuperar o poder sem limites da Lava Jato;
  • e grupos norte-americanos interessados em minerais críticos, energia, dados e infraestrutura.

A cola política seria o autoritarismo: repressão aos pobres, guerra cultural, perseguição seletiva e submissão estratégica aos Estados Unidos.

A economia subterrânea chega à superfície

O primeiro movimento seria a consolidação de uma zona cinzenta entre economia legal e dinheiro do crime. Não se trata de imaginar traficantes sentados diretamente em conselhos de bancos. O mecanismo moderno é mais sofisticado: fundos opacos, fintechs, securitizadoras, empresas de fachada, créditos sem lastro, fundos de direitos creditórios, ativos digitais e cadeias sucessivas de intermediários.

O crime organizado brasileiro deixou há muito tempo de viver apenas do varejo da droga. Avançou sobre combustíveis, cigarros, transporte, garimpo, apostas, imóveis, comércio exterior e serviços financeiros. Precisa de instituições capazes de converter dinheiro clandestino em patrimônio aparentemente regular. Quando a supervisão é enfraquecida, o mercado legal torna-se sua lavanderia.

Em um governo Flávio, a tendência seria inverter a lógica do controle. Em vez de o Estado investigar a infiltração do dinheiro criminoso no mercado, os órgãos de fiscalização seriam pressionados a não enxergar. A Polícia Federal perderia autonomia nas áreas sensíveis; o Coaf voltaria a ser tratado como inimigo político quando suas informações atingissem aliados; o Banco Central seria conduzido a uma supervisão complacente, como nos tempos de Roberto Campos Neto; e investigações sobre lavagem seriam interrompidas, fragmentadas ou transformadas em moeda de negociação.

O novo pacto financeiro

Parte da Faria Lima apoiaria Flávio por conta das oportunidades abertas por seu governo. A agenda seria conhecida: novas privatizações, autonomia quase absoluta para agentes financeiros, redução da tributação patrimonial, desmonte dos mecanismos ambientais e liberdade para transformar ativos públicos em produtos financeiros.

A novidade estaria na fusão entre essa agenda e a economia subterrânea. O sistema passaria a conviver com recursos de origem duvidosa desde que servissem para alimentar fundos, comprar ativos, sustentar preços e financiar aquisições. A fronteira moral seria substituída por uma única pergunta: há rentabilidade?

As instituições que levantassem dúvidas seriam acusadas de hostilidade ao mercado. As que aceitassem a nova normalidade seriam apresentadas como modernas. E cada denúncia seria dissolvida numa combinação de sigilo, tecnicismo, pareceres jurídicos e campanhas contra os investigadores.

Uma democracia controlada por dentro

O segundo eixo seria institucional. Flávio não precisaria fechar o Congresso, extinguir o Supremo ou abolir eleições. O modelo contemporâneo de autoritarismo preserva a fachada e controla os pontos de veto.

O instrumento central seria a nomeação. Com uma Procuradoria-Geral da República alinhada, inquéritos poderiam morrer na origem. Com novas vagas no Supremo e pressão permanente sobre os ministros, formaria-se uma maioria capaz de validar medidas de exceção. No Ministério da Justiça, na Polícia Federal, na Receita e nos órgãos de inteligência, cargos estratégicos seriam entregues a quadros comprometidos com o projeto.

A experiência da Lava Jato ofereceria o manual. O abuso voltaria sob o nome de combate à corrupção: vazamentos seletivos, prisões destinadas a produzir delações, destruição de reputações antes do julgamento, cooperação internacional sem controle e uso da imprensa como extensão da acusação.

Há o risco de um sistema no qual corporações públicas, mídia e interesses políticos se reforçam mutuamente, primeiro atropelando procedimentos e depois apresentando o abuso como exigência moral.[3] Num governo Flávio, essa engenharia não seria um desvio ocasional. Seria método de governo.

O resultado não seria uma ditadura clássica, mas uma democracia tutelada: eleições sob pressão, oposição intimidada, investigações dirigidas e decisões judiciais condicionadas pelo alinhamento político de cada personagem.

O Brasil como ativo do trumpismo

Na política externa, Flávio ofereceria a Donald Trump aquilo que o bolsonarismo já vem oferecendo: interferência política em troca de proteção. A rede Bolsonaro–MAGA atuou para transformar processos brasileiros em tema de tarifas, sanções e pressões de Washington. Em 2026, Flávio voltou aos Estados Unidos para buscar apoio do governo Trump no calendário das medidas econômicas contra o Brasil.[2]

No governo, a moeda de troca seria o patrimônio estratégico do país.

As terras raras e os minerais críticos seriam apresentados como passaporte para uma aliança privilegiada com os Estados Unidos. Em vez de uma política nacional de mineração, processamento e tecnologia, haveria contratos que integrariam nossas reservas às cadeias industriais e militares norte-americanas. O Brasil forneceria minério; as etapas de maior valor permaneceriam no exterior.

Os data centers seguiriam lógica semelhante. Energia, água, território, fibra e incentivos fiscais brasileiros sustentariam plataformas estrangeiras. Sem exigências de conteúdo nacional, transferência de tecnologia e acesso público à capacidade computacional, o país correria o risco de se transformar na tomada elétrica da inteligência artificial mundial.

O padrão já aparece na diplomacia econômica de Trump: poder de Estado abre mercados; empresas ocupam ativos; aliados locais recebem apoio; e interesses públicos, privados e familiares se misturam.[2] Com Flávio, o Brasil entraria nessa engrenagem não como parceiro soberano, mas como território disponível.

Os sócios brasileiros

O trumpismo não chegaria sozinho. Teria aliados brasileiros interessados na partilha.

A família Bolsonaro ofereceria a ponte política com o ecossistema MAGA. Grandes grupos empresariais com negócios nos Estados Unidos ofereceriam acesso e capacidade de investimento. Fundos internacionais ampliariam presença em energia, mineração, petróleo, infraestrutura e tecnologia. Bancos e gestores locais estruturariam as operações. Governadores aliados entregariam licenças, terrenos, incentivos e ativos estaduais.

Nem toda empresa com capital norte-americano é trumpista, e nem todo investimento estrangeiro significa captura. A questão é a arquitetura do acordo. Se o financiamento público dos Estados Unidos orientar projetos brasileiros para atender às necessidades estratégicas de Washington, enquanto o Brasil abre mão de processamento, tecnologia e poder decisório, não haverá parceria: haverá subordinação.

A grande coalizão de Flávio seria formada por quem ganha com um Brasil desregulado por dentro e dependente por fora.

O preço social

A conta seria apresentada como inevitável. Para financiar isenções, privatizações e vantagens ao capital, o governo retomaria o discurso do Estado quebrado. Viria uma nova reforma da Previdência, endurecendo regras e reduzindo benefícios. Saúde e educação voltariam a ser tratadas como despesas, não como responsabilidade pública. O salário mínimo perderia força como instrumento de distribuição. Programas de transferência de renda seriam comprimidos, condicionados ou convertidos em favores políticos.

O resultado seria conhecido: queda da renda, insegurança alimentar e retorno do país ao mapa da fome.

A resposta ao conflito social não seria a reconstrução de políticas públicas. Seria a repressão. O chamado método Bukele — prisões em massa, suspensão prática de garantias, propaganda de força e tratamento da pobreza como ameaça — já circula como referência entre lideranças da ultradireita brasileira.[3]

A imprensa descobrirá tarde demais

A ironia final caberia à imprensa. Parte dela ajudaria a criar o ambiente para a vitória de Flávio, repetindo o roteiro que já produziu outros desastres: cobertura assimétrica, escândalos sem hierarquia, suspeitas tratadas como provas contra um lado e prudência infinita diante do outro.

Flávio seria apresentado como a versão civilizada do bolsonarismo: mais educado que o pai, capaz de conversar com banqueiros, menos dado a explosões públicas e supostamente disposto a respeitar as instituições. Seus vínculos seriam relativizados em nome da alternância de poder. A ameaça autoritária seria rebaixada a retórica eleitoral. O alinhamento com Trump seria vendido como pragmatismo.

Depois da posse, viria a guerra.

Governos autoritários não toleram testemunhas independentes, mesmo quando elas ajudaram a conduzi-los ao poder. A imprensa passaria a enfrentar campanhas digitais, boicotes publicitários, investigações, pressões regulatórias e ameaças econômicas. Repórteres seriam transformados em inimigos; veículos, acusados de conspiração; críticos, submetidos a devassas.

Então surgiriam os editoriais solenes em defesa da democracia — escritos pelos mesmos grupos que ajudaram a destruir as condições políticas para preservá-la.

O aviso

O país de Flávio Bolsonaro não nasceria no dia da posse. Está sendo preparado agora: na naturalização do dinheiro opaco, na transformação da soberania em ativo negociável, na reabilitação dos métodos da Lava Jato, na aliança com Trump, na criminalização da pobreza e na campanha para apresentar o herdeiro do bolsonarismo como alternativa aceitável.

A eleição não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Decidirá se o Brasil continuará tentando construir um projeto nacional — com indústria, ciência, inclusão social e autonomia — ou se será reorganizado como plataforma de negócios financeiros, economia criminal e interesses geopolíticos estrangeiros.

Jair Bolsonaro tentou destruir a democracia aos gritos. Flávio poderá tentar o mesmo de terno, voz baixa e apoio editorial.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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