1 de novembro de 2026

Quando ruas e redes salvaram a democracia no Brasil, por Rafael Gonçalves e Celso Sanchez

Estamos diante de uma virada? Não sabemos, mas o que vimos aqui já começa a ser replicado em outros países.
Foto de Roberto Parizotti - Brasil de Fato - Reprodução

Segundo turno das eleições no Brasil teve mobilização inédita, com jovens e idosos unidos na defesa da democracia.
Lula sai fortalecido, com 64 milhões de votos, e enfrenta cobrança para inovar e pautar uma agenda de esquerda.
Mobilização ocorreu nas ruas e redes sociais, superando a extrema direita e inspirando movimentos progressistas globais.

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A maior eleição da história do país. Quando ruas e redes salvaram a democracia no Brasil

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por Rafael Soares Gonçalves e Celso Sanchez

O segundo turno das eleições presidenciais no Brasil foi um dos momentos mais extraordinários da história recente do país desde sua redemocratização. Nunca houve tanta mobilização social, tanto nas capitais quanto nas cidades médias e pequenas de todo o país. Essa enorme mobilização trouxe a juventude para o protagonismo, desconstruindo a ideia de que essa geração é avessa à política ou que foi facilmente absorvida pelo discurso da extrema direita. Da mesma forma, diferentes gerações se encontraram na defesa da democracia, inclusive idosos, muitos deles acamados, que saíram de casa para exercer seu direito ao voto. O país sempre reconhecerá o esforço que fizeram.

Lula inicia o último capítulo de sua biografia e sai gigante. Ainda não sabemos como será seu quarto mandato, mas, hoje, Lula se transformou no maior líder da América Latina dos últimos tempos e, com certeza, entra no panteão das grandes personalidades da história do país. Saiu do fundo do poço e de um possível ostracismo político, no cárcere da Polícia Federal em Curitiba, para liderar, por duas vezes, o país contra o autoritarismo, personificado no clã Bolsonaro. Resta saber se, em seu quarto mandato, saberá se reinventar: abraçar o mundo digital, ser menos analógico e, apesar das mediações necessárias em uma democracia, conseguir trazer uma pauta realmente de esquerda. O que vimos durante a campanha traz um alento: lutar pelos trabalhadores e contra os grandes grupos empresariais, como as bets e as big techs, não é apenas possível, mas necessário e, pasmem, rende votos.

Sabemos que a votação histórica de 64 milhões de votos não é um salvo-conduto para Lula, mas será sobretudo uma cobrança ao seu governo. Gostaríamos de destacar mudanças importantes ocorridas no segundo turno. O protagonismo foi dado às pessoas mais jovens, em uma mobilização que abrangeu todo o país. O quarto mandato precisa contar com essa força! Por outro lado, é preciso compreender a mobilização orgânica de um país inteiro. Esses movimentos são raros e ainda difíceis de compreender. Vamos precisar de certa distância para entender o que é puramente conjuntural e o que é estrutural em termos de práticas políticas, mas, provavelmente, estamos diante de um movimento semelhante ao das Diretas Já.

Essa mobilização acontece nas ruas e nas redes. A deputada Ana Elisa, com a experiência de seus 21 anos, compreendeu que as redes estão nas ruas, mas que as ruas não estão necessariamente nas redes. Ao evocar a necessidade de ocupar as redes, ela nos convidou a olhar, por exemplo, para os pontos de ônibus às seis horas da tarde. Todos estão olhando para o celular. A esquerda entendeu o recado e, seja por meio do exército de Lula organizado pelo deputado Janones, seja pelas centenas de iniciativas na internet, deixou para trás seus preconceitos em relação às redes sociais e ocupou esse espaço, pautando todo o segundo turno. A extrema direita tentou correr atrás, mas ficou presa em sua própria bolha.

Assim, os muros da extrema direita nas redes sociais foram se desmoronando como um castelo de cartas, e foi possível construir uma nova estética da prática política. As novas trincheiras da luta pela democracia se manifestam, por exemplo, em postar fotos com a camisa do país, não comentar nada sobre Bolsonaro, panfletar nas saídas do metrô ou virar voto na mesa de um bar: redes e ruas são inseparáveis, e a compreensão do cotidiano se dá na interface entre diferentes esferas do vivido. As redes não são uma fuga da realidade, mas territórios a serem ocupados.

Estamos diante de uma virada? Não sabemos, mas o que vimos aqui já começa a ser replicado em outros países. Grupos políticos progressistas da França, de Israel, da Espanha, da Argentina e de outros países voltaram os olhos para a possibilidade de retomar finalmente o protagonismo político. Compreendemos que não era necessariamente o conteúdo das lutas políticas que estava errado, mas, sobretudo, a forma de pautá-las. Esperamos que seja uma nova alvorada política, capaz de abrir caminhos para limitar a influência da extrema direita no mundo… Um alento para o planeta, a humanidade e as novas gerações.

Rafael Soares Gonçalves – Historiador, professor da PUC-Rio

Celso Sanchez – Biólogo, professor UNIRIO

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